

Rosaura,  a Enjeitada (2)





BERNARDO GUIMARES








ASSOCIAO ACERVOS LITERRIOS

BIBLIOTECA VIRTUAL
2005


A Me

Captulo I

Uma Cena Entre Estudantes de S. Paulo.


      - Que fazes a, Aurlio, que ests a bocejar como quem est a morrer de sono? ... Quando todos aqui esto a tagarelar como um bando de maritacas, ficas amuado 
a um canto, tu que de ordinrios a garrulice em pessoa?
      - Na verdade, Aurlio!... Ests to calado, que at j me esquecia de que ests a. Anda l chupa mais um clice de conhaque, e diverte-nos com algumas de 
tuas costumadas asneiras.
      - Asneiras!... Cala-te da, Belmiro... S peo que no embaracem comigo; conversem e deixem-me em paz.
      - J ests bbedo, decerto; nesse caso, vai deitar.
      - Bbedo eu! ... oh! quem dera! ... estou meditando, e neste momento procuro resolver um dos mais graves e rduos problemas que se tem suscitado ante o esprito 
humano...
      - Oh! oh! um problema de geometria, ou lgebra?...
      - Nada disso; um esprito srio no se ocupa com essas frivolidades.
      - A quadratura do crculo?...
      - No; coisa melhor, ou pior ainda.
      - Aposto que no  direito civil.
      - Por certo; o direito civil  um problema eterno e insolvel.
      - Ser o moto contnuo?
- Ora!... esse est resolvido e posto em prtica, desde que o mundo  mundo.
- Onde?
      - Em todo o universo.
      - Ah! J sei;  a pedra filosofal, o modo de fabricar ouro, o tormento de Cagliostro.
      - Qual ouro! Quem fala em ouro nestes tempos em que o dinheiro se fabrica de papel!
      - Ah! agora atinei - exclamou o Belmiro - no  um problema do esprito, nada tem com a cabea...
      - Ser ento de barriga?
      - Ento, alm da cabea e da barriga nada mais h?
      - So os dois rgos principais do corpo humano; Mennio Agripa que o diga.
      - Pois o teu problema no  nem da cabea, nem da barriga.
      - Sim? Deveras? Ento, faa-nos o favor de dizer o que , meu grande dipo, decifrador de enigmas.
      -  do corao.
      - Ah! ah! ah! - retorquiu Aurlio, desatando uma grande gargalhada -  A fora de poetizar, dizes cada asneiro!... Ah! ah! ah!...
      A gargalhada de Aurlio foi acompanhada em coro pelos outros interlocutores, e o pobre Belmiro, completamente desafinado, enfiou e emudeceu.
      - Mas ento - continuou Aurlio no seu tom entre srio e galhofeiro - no nos explicar o que  esse problema do corao?
      - Nada mais fcil - respondeu Belmiro - O problema do corao nada mais  que uma paixo...
      - Amorosa, no  assim?
      - Est visto.
      - E como se resolve este problema?
      - Procurando modos de satisfazer ou extinguir essa paixo.
      - Onde leste isto, meu palerma? Ests enganado; tais problemas quem os resolve  o objeto da paixo, dizendo simplesmente: sim ou no.
      - Deixemo-nos dessas parvoces - interrompeu o outro. - Vamos ao teu problema, Aurlio.
      - O problema! O problema! - exclamaram todos.
      - J que vocs, com a mais impertinente curiosidade, o querem saber por fora, escutem-me com ateno. O problema, de cuja a soluo me ocupo,  dos mais momentosos 
e graves, o mais cheio de corolrios importantes, que se pode suscitar na presente fase de nossa vida escolstica. Dele depende o nosso porvir de amanh, e talvez 
mesmo o depois de amanh...
      - Ah! ento no vai muito longe...
      -  Aurlio, desculpe-me se interrompo o teu belo discurso, voc  quem nos d de comer amanh?  
      - No, felizmente; quem est de bolsa ali  o Silva, creio eu.
      - Ainda bem. J estava com medo que o problema da nossa alimentao, amanh, estivesse sem soluo. Mas visto que o teu problema no compromete o futuro de 
nossos estmagos, podes continuar.
      - E esta! - prosseguiu Aurlio. - Que interrupo impertinente! Todos aqui sabem que o estmago  coisa que nunca me passou pela cabea... 
      - Por certo! Assim como a cabea nunca te passou pelo estmago. 
      Neste ponto, uma trovoada de apartes, risadas, aplausos, e mil disparates a propsito de cabea, estmago, intestinos e mais rgos do corpo humano perturbou 
por largo tempo o dilogo, at ali entabulado entre Aurlio e os mais interlocutores.
      - Com mil diabos! Vociferou com impacincia um dos comparsas, dando um forte murro sobre a mesa.
      - Que algazarra infernal  esta? Deixem o Aurlio dizer qual  esse maldito problema, que lhe serve no sei se na cabea, se no corao ou nas tripas...
      -  preciso que ele o desembuche, seno vou deitar-me, que por isto j est me cheirando a maada.
      - Pois bem! vamos ao problema. Aurlio! Nada de prembulos! Vamos com isso, Aurlio.
      - O problema, meus senhores - comeou Aurlio com toda a gravidade -  do mais palpitante interesse e cheio de atualidade para ns todos que aqui no achamos. 
Mas, como no querem permitir-me a menor explanao prvia a respeito do assunto de tanta magnitude, vou j tocar com o dedo no mago da questo.  incontestvel 
que... amanh  quinta-feira...
      - Que dvida, logo que hoje  quarta!
      -  dia feriado, por conseqncia, no  assim, meus senhores?
      - Est claro, uma vez que no h outro feriado na semana.
      - Pois bem. Que havemos de fazer no dia de amanh? Eis a o problema que me preocupa, meus senhores, e para cuja soluo requeiro o concurso de vosso esprito 
esclarecido e de vossas reconhecida ilustrao.
      Ditas estas palavras, Aurlio sentou-se e, cravando os cotovelos sobre a mesa, pousou gravemente o rosto entre as mos.
      Sinais estrondosos de aplausos e reprovao, gargalhadas, pragas, murros sobre a mesa, discursos a duo e a trio, e enfim uma algazarra indefinvel atroaram 
por alguns minutos a pequena sala de jantar, onde envolta de uma mesa cheia de garrafas e copos, bules e xcaras, pedaos de po e carne, entre os quais figuravam 
tambm alguns livros e papis, falavam e bebiam, liam e comiam uns nove ou dez estudantes do curso jurdico de S. Paulo.
      Era isto em tempos j idos, na Paulicia antiga e patriarcal de 1845, nessa Paulicia, que conservava ainda quentes as cinzas de Diogo Antnio Feij, que ainda 
escutava os ecos das vozes patriticas e eloqentes de Antnio Carlos e Martim Francisco, e que ainda no pranteava sobre o tmulo de dois ilustres cidados, modelos 
venerandos de patriotismo e virtudes cvicas: Vergueiro e Paula Souza.
      Ainda ento a cidade de S. Paulo conservava certos laivos de sua primitiva simplicidade, e posto que fosse j, relativamente  poca, uma cidade assaz populosa, 
e o ncleo de um grande movimento intelectual, parecia respirar-se ali ainda a aura tradicional dos tempos de Amador Bueno.
      A classe acadmica harmonizando-se com o meio em que vivia, passava vida simples, folgaz e descuidosa, ainda mais do que  ordinrio entre essa extravagante 
variedade do gnero humano. Divididos em grupos, os estudantes derramavam por todos os bairros da cidade, e chamavam-se repblicas, como at hoje, as casas ocupadas 
por esses grupos, e onde viviam na mais admirvel igualdade e fraternidade. Nessa poca havia entre os estudantes um certo esprito de classe to fortemente pronunciado, 
que formava deles uma corporao, no s respeitada, como temida dos futricas, nome que se dava a todo cidado estranho ao corpo acadmico.
      A reunio, a que assistimos, tinha lugar em uma rua que, se bem nos lembramos, tinha o nome de Rua da Constituio, a qual, partindo do largo, onde ficam o 
mosteiro e a igreja de S. Bento, dirige-se para o risonho e pitoresco arrabalde da Luz. A casa ocupada pelos estudantes fronteava justamente com o lado da igreja, 
que faz face  rua.
      Eram cerca de nove horas da noite. Em uma cidade pouco mais populosa e de pouco movimento comercial, como era ento S. Paulo, j o remanso e o silncio reinavam 
por toda a parte; a rua era um deserto. As janelas da sala de jantar, onde se dava o colquio, abriam-se para as extensas vargens alagadias cortadas pelo Tamanduate 
que separam a cidade propriamente dita do arrabalde de S. Brs. Essas vargens, banhadas ento por um brando luar, formavam outro deserto, mas vasto e aprazvel  
e pelas janelas abertas os estudantes podiam expandir as vistas e aspirar as auras frescas e balsmicas que se elevavam dos vargedos. Portanto, tagarelavam, riam 
e gritavam  vontade, sem se importarem com as maldies e pragas dos vizinhos.
      Apenas acalmou-se um pouco a algazarra provocada pelo incidente da cabea e do estmago, Aurlio, que at ali se conservara impassvel e silencioso no meio 
daquele infernal alarido, levantou-se e prosseguiu dando  sua voz uma entonao enftica e solene:
      - Que havemos de fazer do dia de amanh, meus senhores? Eis a interrogao que continuo a fazer-vos, e a que no sabeis dar resposta. Eis o problema incandescente 
que me tortura o crebro, e a que no sabeis dar uma soluo!
      - Ora, o que havemos de fazer do dia de amanh! - respondeu uma voz. - Deix-lo passar.
      - Deix-lo passar! - exclamou Aurlio. - Quem proferiu semelhante blasfmia? Deix-lo passar! Isso nunca! Eu no quero que o dia de amanh passe sobre ns; 
quero, sim, que ns passemos sobre o dia de amanh. Porventura estamos mortos? As ondas do tempo correm sobre o tmulo dos morto, mas ns os vivos devemos vogar 
sobre as ondas do tempo. 
      - Bravo! Bravo! Muito bem! - exclamaram diversas vozes.
      - Portanto - prosseguiu Aurlio -, continuo a perguntar-vos: que havemos de fazer do dia de amanh?...
      - Voto por um passeio  Ponte-Grande - bradou um dos comparsas.
      - Um passeio  Ponte-Grande! - prosseguiu Aurlio com um irnico sorriso. - Excelente recurso, admirvel antdoto contra o tdio! Iremos talvez pela centsima 
vez, depois de uma caminhada de estafar, pr-nos em xtase a ver correrem as sombrias guas do Tiet, lgubres e sonolentas como as do Letes, que l vo, como jibia 
preguiosa, lambendo as margens to montonas como ele, e apenas sombreadas aqui e acol por umas restingas de mato enfezado! Esse modo de passar-se sobre uma quinta-feira, 
alm de j muito gasto,  de todos o mais enfadonho.
      - Seja assim como queres. Embirras com esse Letes, mas bem sabes que junto a ele esto os campos Elseos. Se achas longe a jornada, passaremos smente pelo 
bairro da Luz. H nada mais aprazvel e pitoresco que esse bairro?
      - Depois de termos atravessado essas taipas denegridas, duras como granito, que se diz terem sido socadas por mos de condenados de ilustre hierarquia e alta 
posio.
      - Que mais parecem runas - interrompeu Aurlio - runas sinistras de uma construo que nunca se acabou ... Oh! nem falar em semelhantes taipas, abominveis 
relquias da estpida e grosseira tirania de nossos antepassados! Ah! pudesse eu arras-las de um golpe!
      - Bem, Aurlio. Passaremos a sem olhar para elas, e entraremos no Jardim Botnico. No  lindo aquele sitiozinho? Aquele lago? Aquelas palmeiras? A encantadora 
perspectiva que se estende pela margem do Tiet?
      Basta! No falemos mais nisso! At onde irs com tuas encantadoras perspectivas? Elas s existem na tua imaginao. Com que cores queres tu pintar aquele acanhado 
recinto? E para iludir a quem? A ns todos, e a ti mesmo, que l temos ido tantas vezes? Belmiro, pelo amor de Deus! No entremos no jardim; deixemos esse recanto, 
que no inspira prazer, nem melancolia, saudade, nem esperana; deixemos esse lodoso e ptrido, essa msera alia de oliveiras, que no do flor nem fruto, essas 
palmeiras raquticas...
      - Com mil diabos! Nada h que te satisfaa! Pois bem, deixemos o jardim! Vamos para o lado fronteiro, e entremos nesse silencioso e plcido recinto, cercado 
de altas muralhas, que quase o escondem aos olhos do mundo.  ali o pitoresco conventinho de N. S. da Luz. Paz anglica e olmpica serenidade parecem descer da abbada 
da pequena capela, onde infelizmente ressoam mais os cnticos piedosos das virgens votadas ao Senhor... E aquele silncio  to melodioso! Faz a alma embeber-se 
em contemplaes msticas! Quantas flores de formosura e mocidade ali se fanaram lentamente,  sombra do altar, para irem abrir-se de novo em primavera eterna nos 
jardins da bem-aventurana!
      - Ai! Meu Deus! Que carola est hoje este Frei Belmiro! - exclamou um dos comparsas, bocejando e estirando os braos. - Se continuas com a tua maante homilia, 
vou deitar-me...
      - Na verdade , meu caro Belmiro - atalhou o Aurlio - ias entrando por um sermo bastante enjoativo a respeito desse conventinho em miniatura, resto de um 
passado odioso, fantasma hediondo do claustro, em que o fanatismo sepultava em vida, sem d nem piedade, as mais mimosas flores da juventude e da beleza, flores 
que meu Deus criou para os prazeres e carinhos do amor, e no estpidas maceraes do monarquismo, para se espanejarem ao sol da primavera, ao sopro livre das viraes 
do cu, e no para murcharem tristemente na sombra lgubre de perptua e meftica recluso...
      - Basta, Aurlio! No esperdices mais tua eloqncia -  interrompeu Belmiro j um tanto enfadado. Se assim o queres, deixemos ainda esse convento, e passemos 
adiante. H nada mais risonho e pitoresco do que esses vargedos no Tiet, que no tempo das guas se convertem em labirinto de lagos e canais, do seio dos quais emergem 
ilhas cobertas de verdejantes balsas com suas casinhas meio sumidas entre moitas...
      - Basta por tua vez tambm! - exclamou Aurlio. - Toma flego, meu amigo, que esse perodo, em que vais,  capaz de te estafar.  melhor que digas simplesmente: 
- Aquilo  uma Veneza! Ali est a Ponte dos Suspiros; acol o palcio dos Doges; alm o Adritico... As gndolas so cascas de palmito, as princesas, que vo dentro 
caipiras papudas... Os gondoleiros alguns sapos, dos quais vai um  popa, tocando guitarra...
      - Arre l! Retrucou Belmiro, - s capaz de despoetizar at o prprio empreo! Pois bem, tu sers o Lord Byron dessa nova Veneza, atravessando a nado o canal 
com uma lanterna entre os dentes, para evitar bordoadas dos gondoleiros.
      - Por certo, e para chamar, por um modo mais original, a ateno da bela Condessa Guicciolini...
      - A qual ser uma sapa papuda...
      - As...pa...pa...puda!... Irra!
      - Mas... se s incontentvel...
      - Talvez no. Vamos adiante. 
      - Pois bem, mudemos de rumo, e vamos ao arrabalde do Brs. Queres mais bonito passeio? Que vasta e formosa perspectiva nos oferece esse bairro, visto do terrao 
do convento do Carmo!  a mais deliciosa e encantadora que se pode imaginar. A capela de S. Brs, com seu campanrio branco, e aquelas casas dispersas pela plancie 
exalam como um perfume idlico, que enleva a imaginao...
      - Basta! Basta! Por S. Brs te peo! E aquele comprido e montono caminho do aterrado ente os charcos de Tamanduate, exalando infectos miasmas de maresia, 
transposto o qual, essas plancies, que de longe parecem vastas e aprazveis, vistas de perto no so mais que ridas e acanhadas charnecas entre rinces estreis 
onde no murmura um regato, no sussurra um arvoredo, no canta um passarinho... Terra de guas mortas e de formiga sava, campos sem selvas e sem flores...
      - Irra! Gritou, de um canto, um dos comparsas. - Vocs dois, a borbotarem poesia pr e contra S. Paulo, j nos esto moendo a pacincia. Nunca mais acabaro 
com isso?
      - Que queres? - acudiu Belmiro. - No vs como este Aurlio  difcil de contentar? Eu, da minha parte, acho esta Paulicia um cu aberto, um jardim de delcias.
      - E eu c entendo - retrucou Aurlio - que ela no passa de um purgatrio, se  que no  um inferno. Desejara que os lentes agora me acenassem ao menos com 
dois RR, s para ter um pretexto de deixar esta monotonia, passar-me para Pernambuco e ir visitar essa Veneza do norte, a ver se  menos enfadonha do que esta.
      - Tens um bom par de asas, andorinha peregrina, e podes voar para onde quiserdes em demanda de outros climas. Mas eu, ai de mim, pobre frango nuelo! Se os 
lentes embirrarem comigo, aqui mesmo serei depenado e sacrificado sem piedade...
      Nisto estavam, quando entra, brusca e inopinadamente pela casa, um novo colega. Era um belo mocinho moreno, de pequena estatura, de fisionomia radiante e prazenteira, 
e fronte larga, onde fulgurava o gnio como na do Aurlio.
      - Boa noite, rapaziada! Ento, que se faz por aqui? - disse ele entrando.
      - Oh, boa noite, Azevedo! - acudiram todos, voltando-se para o recm-chegado com um alegre sobressalto. - Aqui fuma-se, bebe-se e conversa-se. Vem sentar-te 
e fazer o mesmo...
      - No; vim com pressa smente para fazer um convite.
      - Um convite, e a quem?
      - A todos desta repblica, e a mais algum, se quiserem, contanto que no passem de oito a dez. 
      - Decerto. Ns somos seis, e com voc sete;  quanto basta.  nmero simblico, e at apocalptico - observou Aurlio. - Mas da parte de quem o convite, e 
para qu?
      - Creio que conhecem o Major Damsio?
      - Oh! se conhecemos! Esse tipo singular  conhecido em toda a cidade. No  pai daquela linda menina chamada Adelaide?
      - Justamente.  muito meu amigo, e fz-me a honra de convidar a um passeio  sua chcara de , para comer jabuticabas. Ora as jabuticabas do Major Damsio 
gozam de justa celebridade, assim como a beleza de sua filha. O major autorizou-me a convidar alguns amigos. Partimos ao meio-dia, jantamos l, e voltaremos  hora 
que quisermos. Querem ir?
      - Eureka! Eureka! Est resolvido o problema! - foi a resposta que em altos brados deram todos  pergunta de Azevedo.
      - Que diabo de problema  esse! - exclamou, espantado, o Azevedo. - Vocs, pelo que vejo, ou esto malucos, ou beberam demais.
      - Nem uma, nem outra coisa - replicou o Aurlio. - Estvamos aqui a discutir o seguinte problema, que eu mesmo havia proposto: Que fazer do dia de amanh? 
E ainda no tnhamos achado uma soluo que prestasse. O teu convite veio a resolv-lo. Por conseguinte, um brinde ao Major Damsio. Viva o Major Damsio!
      - Viva! ... Viva!... - bradaram todas as bocas.
      E assim se terminou e dispersou aquele clube escolstico

Captulo II
O Major e sua Chcara

      Agora, meu bravo leitor, no h remdio seno irmos com os estudantes at a chcara do Major Damsio. A comitiva  alegre e numerosa; consta de uma troa de 
sete acadmicos de anos superiores, todos inteligentes, espirituosos e galhofeiros, e cada qual mais desmiolado. A companhia  excelente, e nos servir para disfarar 
o enfado do caminho atravs de um dos mais solitrios e menos poticos bairros da antiga Paulicia.
      Transponhamos depressa a ponte sobre o Anhangaba, triste nome, que bem corresponde ao miservel regato que a corre, separando a freguesia central da cidade 
de Sta. Efignia. Se o nome  dissonante e lgubre como o piar do mocho, no o  menos o ribeiro turvo e lodoso, que parece esconder-se, envergonhado, no fundo de 
seu imundo leito. Temos ainda de atravessar uma espcie de largo, no meio do qual h um charco, que se intitula Tanque dos Zunegas, fecundo viveiro de rs e sapos 
de toda qualidade. Mais uma esporada ou uma chicotada em nossas cavalgaduras, e teremos deixado atrs esse arrabalde, formado de quintais sem dono, cercados de taipas 
velhas e arruinadas e abandonadas s formigas e aos tatus.
      Depois de termos sado da cidade e andado cerca de dois quilmetros pela estrada que conduz  freguesia de N. S. do , caminho inspido entre ridos rinces 
entremeados de moitas de mato rasteiro, entremos por uma vereda  direita, procurando as margens do Tiet.  o caminho que leva  chcara do Major Damsio.
      Apenas se tem avanado uns quinhentos metros por entre os matagais, abre-se sbitamente um largo horizonte, onde a vista, at ali encarcerada entre estreis 
e tristonhas charnecas, expande-se livremente pelas extensas e risonhas lesrias alagadas pelos transbordamentos do Tiet campeando ao longe, no fundo do vasto painel, 
o imenso cordo da serra da Cantareira.
      Na falda de uma colina, que se eleva sobre esses grandes vargedos alagadios, est situada a chcara do major, com sua casa trra, mas bonita, alegre e asseada. 
Por detrs dela, estende-se o vasto pomar de jabuticabeiras, laranjeiras, bananais, enfim uma floresta profunda de rvores frutferas indgenas e exticas, que vai 
terminar na orla dos vargedos, sendo deles separada por uma sebe de espessos espinheiros.
      Apenas avistaram a casa, os estudantes, dando gritos de alegria e agitando lenos brancos, puseram a meio galope suas magras cavalgaduras pelo suave lanante 
que descia para l. Um negrinho de libr agaloado veio depressa abrir a cancela de madeira oleada dando entrada para um ptio, que fechava a frente da casa, e pelo 
qual os estudantes entraram de tropel. O major, que j de longe os avistara, esperava-os em p, em um alpendre construdo bem no meio da risonha vivenda, servindo-lhe 
de peristilo, e sustentado por duas colunas de madeira, em volta das quais se enrolavam trepadeiras cobertas de folhagem e flores de diversas formas e matizes. A 
figura do velho major sobressaa de modo pitoresco e quase potico no seio daquele nicho de verdura e flores. Os estudantes o compararam, um a So Jos no prespio 
de Belm, outros ao deus P no seio de sua gruta.
      - Entrem, entrem, meus amigos! - exclamou ele, esfregando alegremente as mos. - J me tardavam... passa de uma hora... Moleque, recolhe os animais destes 
senhores... Dr. Azevedo, ento? Como vai essa flor? J estava receando que me roessem a corda... Em estudantes no h muito o que fiar.
      Estas ltimas palavras eram dirigidas ao Azevedo, com quem j tinha antiga familiaridade, e cuja  destra apertava afetuosamente entre ambas as mos.
      - Pelo contrrio, major... replicou Azevedo, com sua habitual e risonha afabilidade - Estamos afeitos  disciplina acadmica e somos mais pontuais que os ingleses. 
      Entretanto, os estudantes subiram rapidamente os quatro ou cinco degraus do pequeno alpendre, que mal os podia conter, e portanto o major deu-se pressa em 
conduzi-los para uma sala de espera imediata, bem clara, fresca e arejada.
      - Descansem aqui, alguns momentos - disse-lhes - enquanto vou mandar vir algum refresco. 
      Dito isto, retirou-se e os deixou discretamente em liberdade. 
      Enquanto os estudantes descansam um pouco, tratemos ns de esboar em traos leves e rpidos o todo moral e material do Major Damsio, assim como tambm de 
falar em alguns pontos de sua vida passada, bem entendido; porque da futura ficaremos cientes pelo decurso desta histria.
      Era ele um homem maior de cinqenta anos, de estatura regular, magro, porm de compleio robusta, refeito e espadado. Apesar da idade, tinha dentes alvos 
e sos, e os cabelos ainda negros, luzentes e corredios, como os dos indgenas. Tinha feies regulares e fisionomia agradvel, onde todavia ressumbrava, por vezes, 
certo ar de feroz desconfiana. 
      Por este pequeno esboo, bem se v que devia circular-lhe nas veias no pequena dose de sangue tibiri.
      Era poltico exaltado, e como compadre e amigo do notvel cidado Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, militara com ardor sob as bandeiras do partido liberal 
exaltado daquela poca. Tomou parte na memoranda revoluo de 1842, que conflagrou por alguns meses as provncias de S. Paulo e Minas. Por essa ocasio, assistiu 
ao famoso combate de Ponche-Verde, no qual consta que se distinguira como tenente de uma companhia, embora reze a histria que a no se disparou um s tiro, no 
se desembainhou uma espada. No obstante, foi posteriormente promovido ao posto de major de guardas-nacionais e condecorado com o hbito da Rosa. Muladeiro desde 
os verdes anos, com essa profisso, graas ao amparo e proteo que lhe barateava o compadre Tobias, conseguiu adquirir no pequena fortuna e posio respeitvel 
na sociedade.
      Era vivo de uma mulher pobre e de baixa extrao, que dizem fora mui linda, e com quem se casara por amor. Dizia-se tambm, pela boca pequena, que a sogra 
do major fora cativa, e que a esposa tinha sido libertada na pia batismal.
      No o podemos asseverar, e nem tampouco provar com documentos, mas como este boato muito influi no desenvolvimento da presente histria, fora  consign-lo 
aqui. A mulher do major morrera ainda jovem, deixando ao inconsolvel esposo um par de filhos, dos quais o varo morreu em tenra idade.
      Na poca em que nos achamos, o bravo paulista j havia renunciado  vida ativa, e repousava  sombra de seus louros marciais, desfrutando em paz a fortuna 
que  custa de suores e fadigas, havia honrosamente adquirido. Ufano de seus haveres, e inculcando-se parente das mais ilustres e antigas famlias de S. Paulo, folgava 
de relacionar-se com as pessoas altamente colocadas, e no poucas vezes jactava-se da nobre influncia de que gozava, em razo dos relevantes servios prestados 
ao seu partido. No era, contudo, um fanfarro vulgar; sabia guardar as convenincias e aparentar modstia, quando lhe teciam elogios  queima-roupa; baixava os 
olhos e corava um pouco por baixo da tez bronzeada, embora sorrisse a furto com ntimo contentamento.
      Sua filha e sua chcara, porm, absorviam quase toda a sua ateno, constituam seus principais cuidados, e cumpre notar que ambos mereciam bem esses desvelos. 
O jardim era notvel, no s pela profuso e imensa  variedade de flores raras e formosas que o cobriam, como principalmente pela aprazvel posio em que se achava 
colocado, como um belvedere,  dominando o pomar, por cima do qual a vista se estendia ao longe por vastos horizontes.
      Consistia ele em uma rea quadrada de cerca de dez metros de face, dividida em canteiros dispostos com arte e agradvel simetria. Dois bonitos caramanches 
cobertos de trepadeiras ornavam-lhe os ngulos, como dois torrees de verdura e flores.
      Era esse jardim como um gigantesco ramalhete, ou como um tabuleiro de flores, onde mal se divisavam as estreitas ruelas, que os separavam; to escondidas se 
achavam debaixo das ondas de moitas perfumadas e floridas, que as abafavam. 
      Era ali que o major, nas lindas e frescas manhs, ou nas tardes calmosas e serenas, vinha espairecer as vistas, tomar o fresco e respirar o perfume das auras 
embalsamadas, alardeando nos trajos e no modo de viver em certa indolncia voluptuosa  moda oriental.
      Na ocasio em que o encontramos, traja, como de costume, uma ampla robe de chambre de chita adamascada, e cobre a cabea com um gorro de seda cor de viola, 
bordado de garridas cores. No Pescoo,  guisa de gravata, traz um grande leno vermelho de pura seda da ndia, preso por um alfinete de brilhantes.
      Quando ali se achava em seu jardim, ao lado de sua filha, contemplando suas flores e seu vasto pomar, julgava-se to feliz e poderoso, como um sulto nos palcios 
de Estambul ou Bagd.
       quanto basta por agora saber a respeito do major e de sua chcara. Quanto  filha, em breve trataremos de esboar o seu retrato, pois o major no tarda a 
chegar, e j sabemos quanto o velho paulista  desconfiado. Portanto, sobre este particular, por ora chiton!... 
      Alguns minutos depois que o major se retirara, entrou um escravo trazendo uma ampla bandeja carregada de copos, facas, colheres, acar, limes azedos e uma 
garrafa de aguardente, preparos indispensveis para um ponche frio, e tudo depositou sobre a mesa. Depois retirou-se sem dizer palavra, como quem diz: arranjem-se. 
Isso mesmo  que os estudantes queriam.
      - Vamos, rapaziada, vamos ao ponche! - exclamou o Aurlio, levantando-se de um salto do banco em que se achava reclinado.
      - Vamos a ele - acudiu prontamente Belmiro. - Com o calor que faz, nada podia vir mais a propsito.
      Imediatamente puseram mos  obra, prepararam seu copo de ponche e comearam a sabore-lo lentamente (exceto o Azevedo, que apenas tomou um clice de aguardente 
pura e acendeu um charuto).
      Assim passaram cerca de meia hora, a beber, fumar e conversar, enquanto esperavam pelo major para conduzi-los ao pomar. 
      - Com mil diabos! - exclamou o Aurlio j impacientado com a demora do dono da casa. - Azevedo, tu que tens mais liberdade na casa, manda dizer ao nosso anfitrio 
que ns aqui viemos para passear, percorrer a chcara, admirar a beleza de sua filha, e no para ficarmos encerrados nesta sala e tomar ponche eternamente.
      - Tem pacincia - replicou o Azevedo - O major no pode tardar. Sem dvida est a dar algumas providncias para nosso tratamento, e foi avisar a filha, a fim 
de que nos seja apresentada de um modo condigno e prprio de sua alta hierarquia.
      - Ora essa! - interveio Belmiro - Que tenho eu com a chcara, com as jabuticabas e mesmo com a filha do major? Da minha parte, preferia ficar aqui mesmo nesta 
liberdade a tomar ponche, e, se houvesse violo, a tocar e cantar...
      - Cala-te da, pateta! - interrompeu o Azevedo. -  porque no sabes quanto  encantadora a filha do major. Tambm a mim pouco me importam as jabuticabas; 
mas dera de bom grado metade da minha vida para passar a outra metade nos braos de Adelaide  sombra do jabuticabal...
      - Oh! Bravo! Pelo que vejo, h muito que andas apaixonado?...
      A palestra foi interrompida neste momento pela voz estridente do major, que j de longe vinha bradando no interior da casa.
      - Vamos, meus senhores, vamos s frutas, que j vai ficando tarde.
      - Prontos, major! Prontos! - acudiram todos com entusiasmo.
      - E D. Adelaide? Ainda no nos apareceu! No vai conosco? - ousou perguntar o Azevedo.
      - Oh! vai sem dvida - respondeu o major. - L est no jardim  nossa espera.
      -  justo - replicou galantemente Azevedo - o jardim  o lugar das flores.
      Guiados pelo major, os estudantes atravessaram diversos corredores e compartimentos, e passando pela sala de jantar e por perto da cozinha, pressentiram com 
ntima satisfao, pela vista e pelo olfato, que  volta do pomar os esperava uma suculenta e oppara refeio. Sem mostrarem, todavia, prestar ateno a esta circunstncia, 
passaram alm, desceram a um espaoso ptio cheio de galinhas, perus, patos e toda a casta de aves domsticas, e por um largo porto, que o major lhes abriu, fizeram 
sua entrada no jardim.

Captulo III

Adelaide no Jardim

      Do lado oposto ao porto, na extremidade do jardim, para o qual se desce tambm por alguns degraus de pedra, Adelaide, sentada em um banco  sombra de uma 
pequena latada do jasmineiro, se apavona negligentemente em toda a plenitude de sua formosura. Parece uma drade entre as moitas florescidas... Mas no; no  a 
exata comparao. O traje de Adelaide nada tem de comum com a ligeira e indecente roupagem das ninfas da mitologia grega. Traz um vestido de seda furta-cores, cuja 
ampla roda, um pouco arregaada sobre a alva e rendada saia, se desdobra a um lado e outro, dando-lhe antes a semelhana de gigantesca borboleta, com as asas de 
brilhante matiz abertas sobre a florente ramagem do jasmineiro.
      Quando o porto se abriu, parecia distrada, passeando pelo horizonte vagos e melanclicos olhares; mas a garrulice alegre e ruidosa em que vinham os estudantes 
no lhe permitiu conservar por mais tempo aquela atitude cismadora, que alis no deixava de ter seu tanto ou quanto de estudada. Levantou-se, fingindo-se um pouco 
surpreendida, e deu alguns passos para estender a mo ao Azevedo, que por uma das ruazinhas do jardim, por entre as ondas de verdura e flores, avanava direita e 
intrpitadamente a cumpriment-la. Colhendo elegantemente com uma das mos os amplos tufos da saia, Adelaide dirigiu-se, lesta e risonha, para o estudante e, em 
breve as duas destras se encontraram em afetuoso aperto.
      - D. Adelaide - disse Azevedo - por muito favor lhe peo, deixe-me ficar onde estava. A senhora, neste jardim,  a rainha das flores; aquele assento  um trono, 
que lhe convm divinamente, e dele no deve levantar-se para ningum.
      - A vem o senhor com suas costumadas lisonjas - replicou Adelaide com um requebro e um sorriso.
      - O que diz o Azevedo  pura verdade - acudiu Aurlio, animado pelo exemplo do colega. - Ao v-la, minha senhora, julgo ter diante de meus olhos a Primavera 
fazendo com seu sorriso desabrocharem todas estas flores. 
      E assim vieram chegando uns aps outros a apresentar seus cumprimentos  formosa fada daquele jardim, obsequiando-a cada qual com um galanteio mais ou menos 
espirituoso. Belmiro foi o ltimo. A beleza de Adelaide tinha produzido em seu esprito, mais no de que seus colegas, viva e profunda impresso. Achava-se perturbado 
e como que deslumbrado pelos fulgores daquele astro radiante da mocidade, graa e formosura. Por isso nada lhe soube dizer, mas, ao apertar-lhe a mo, cravou-lhe 
um olhar to penetrante e significativo que no deixou de fazer impresso no nimo da moa. Se essa impresso foi agradvel ou desagradvel,  o que no sei dizer 
por hora.
      - Agora - disse Azevedo alando bem a voz - A Sra. D. Adelaide h de permitir-nos que cada um de ns v colher em seu jardim uma flor, que for mais do seu 
agrado, para termos a honra de ofertar-lha.
      - Oh! Sr. Azevedo, que quer dizer isto? O senhor me confunde; no mereo tantas honras - murmurou Adelaide , baixando os olhos, constrangida.
      - Merece muito mais - bradaram os outros - h de aceitar as nossas flores.
      Adelaide, com um sorriso e um gracioso aceno, anuiu  proposta dos estudantes. 
      - Bravo! Andem l com isso! Quero ver qual tem melhor gosto - exclamou o major que, algum tanto afastado, assistia todo risonho a este tiroteio de galanteria.
      Imediatamente os rapazes se espalharam pelo jardim, e da a instantes cada um veio depor nas mos de Adelaide uma flor de sua escolha. Azevedo ofertou-lhe 
um jasmim do Cabo, rico de vio e fragrncia e alvo como neve, que ela colocou sobre o seio. Belmiro trouxe-lhe um lindo cravo caboclo, que ela recebeu quase sem 
olhar para a pobre flor, e entranou negligentemente nos cabelos.
      O major, mui ancho e satisfeito, assistia de parte a estas inocentes homenagens tributadas  formosura de sua filha, e predizia-lhe l de si para si o mais 
esplndido destino.
      Depois o grupo se dispersou pelo jardim, e houve ento tal colheita e oferta recproca de flores, que era um nunca acabar. Adelaide de sua parte no se cansava 
na faina, e verdadeira borboleta esvoaando de canteiro em canteiro, ela s fazia face aos sete, oferecendo a este um boto de rosa, quele uma no-me-deixes, a 
outro um suspiro ou uma saudade, e assim por diante, de uma maneira que, no fim de alguns minutos os pobres rapazes j no sabendo onde acomodar tantas flores as 
iam tirando fora s escondidas.
      Como Adelaide em compensao recebia outras tantas dos sete comparsas, j tinha na mo, no um ramalhete, mas um feixe de flores de tal sorte avultado, que 
foroso lhe foi alijar a carga sobre o banco em que estivera sentada. Conservava, todavia, com cuidado as primcias daquelas oferendas: o alvo jasmim de Azevedo 
a balouar-lhe sobre os seios ofegantes; o cravo caboclo de Belmiro ostentando-se vaidoso entre as negras e luzidas tranas; e as outras cinco flores juntas cuidadosamente 
em sua mo esquerda.
      Enquanto eles se enlevam em to frvola ocupao, vamos ns, caro leitor, tratar de conhecer mais de perto e de modo mais ntimo aquela que  alvo de tantas 
homenagens e adoraes.
      No era Adelaide uma beleza completa e sem seno, mas tinha um rosto to gentil e fisionomia to sedutora, que a custo o mais hbil e delicado pincel poderia 
apanhar-lhe os traos e a expresso. Era um desses tipo singulares, que atraem  e fascinam por sua encantadora originalidade. Era de porte alto, bem feita e garbosa; 
de feies era engraada e bonita, como bem raras se encontram. Grandes olhos, de uma negrido e brilho incomparveis, abriam-se suavemente entre longos clios da 
mesma cor, como dois lagos, onde se espelhavam o amor e a voluptuosidade. A tez tinha a cor, que o leitor pode imaginar seria a da filha de uma gentil mulata e de 
um belo e robusto descendente dos Tibiris; era morena, mas de uma matiz suave e transparente, atravs do qual se via animar e colorir-lhe as faces o sangue ardente 
das duas raas de que procedia.
      A farta madeixa, que ela deixava em parte cair como uma cascada espadanando pelas ndias e bem torneadas espduas, nem era por demais encaracolada, nem lisa 
e corredia, mas debruava-se em largas e graciosas ondulaes, que lhe desciam at abaixo da cintura. A boca, no mui pequena mas admiravelmente delineada, era formada 
por dois lbios rubros e carnudos do mais voluptuoso relevo. Um tnue e quase imperceptvel buo, que lhe sombreava o lbio superior, dava-lhe ainda um realce indefinvel.
      Um sorriso dessa boca era um presente do cu; um beijo... oh! isso seria uma ventura, com que nem mesmo ousaria sonhar o mais audaz de seus adoradores.
      Na bem proporcionada e delicada conformao das mos e dos ps, bem como na finura do talhe e na elegncia do porte, era ela tambm representante dos mais 
belos e genunos tipos europeus. Dessa trplice aliana de raas to diferentes resultou esse misto singular e encantador, que teve o nome de Adelaide.
      Sua natureza moral era tambm um composto inexplicvel de qualidades opostas, que deveriam excluir-se umas s outras, ou andar em perptua coliso. Fosse por 
ndole ou por defeito de educao, era ela um misto incompreensvel de desenvoltura e recato, de meiguice e esquivana, de ingenuidade e malcia. Nas maneiras, nos 
ademanes, nas palavras era s vezes de tal desembarao, que generava em estouvamento; e outras vezes de tal timidez e acanhamento, que roava pela imbecilidade. 
Rica, tendo conscincia de sua formosura, e persuadida de que lhe corria nas veias o sangue da mais pura e antiga fidalguia paulistana em virtude dos preconceitos, 
que desde a infncia o pai lhe imbura no esprito, no podia faltar-lhe altivez e vaidade em alta pose. O amor ideal, alimentado pela leitura de romances e poesias, 
que sem escolha e sem critrio lhe eram fornecidos, com todas as suas exaltaes febris, e romanescas aberraes escaldava-lhe a imaginao j de si mesma viva e 
apaixonada, ao passo que os instintos sensuais se desenvolviam com no menos energia naquela organizao exuberante de vio e cheia de ardente e vigorosa seiva.
      A m direo dada  educao intelectual de Adelaide, que o major, ignorante e filaucioso como era, deixava correr  merc das fantasias da filha, estragava 
os excelentes dotes daquele esprito vivaz e expansivo, e a falta absoluta de educao moral deixava adormecidos alguns instintos, que a natureza havia plantado 
no corao.
      Assim o bom major, parte por ignorncia e inexperincia, parte por um descuido e condescendncia indesculpveis, deixava desenvolver-se no seio daquela tenra 
e melindrosa planta, fecundo grmen para muitos transvios, decepes e amarguras pelo decurso da vida.
      Adelaide tinha mestres de francs, de msica, de desenho e de italiano, e de tudo isso j sabia alguma coisa pela rama.
      Nunca porm tivera uma aia, ou uma parenta velha, a quem consagrasse afeio e respeito, e que lhe dirigisse os passos nesse quadra crtica e delicada em que 
a mulher passa da infncia para a puberdade, e entra, por assim dizer, em um mundo novo e desconhecido, cheio de atrativos e miragens enlevadoras, onde os abismos 
ocultam por entre flores.
      Entretanto, j lia sofrivelmente  o francs, dedilhava com agilidade e desembarao o seu teclado, e cantava sem gaguejar sua riazinha italiana; era porm 
mais forte em modinhas e lundus, de que possua um interminvel repertrio.
      Quanto ao desenho, j sabia fazer dois coraes traspassados por uma flecha, duas pombas beijando-se, e debuxava e coloria uma rosa com suas folhas e botes 
de modo a no confundir-se com outra qualquer flor.
      Tinha ento Adelaide dezesseis anos. Estava nessa poca da vida em que a imaginao de uma moa rica e desocupada paira por mundos ideais, s enxergando ouro 
e rosas no horizonte encantado do porvir, e em que o fsico, tanto atingido  plenitude de seu desenvolvimento, entrega-se indolente s vagas impresses de mrbido 
e voluptuoso sensualismo.
      Enfim, Adelaide  como essa mimosa flor, que inconscientemente traz entranada em seus cabelos, ofertada por Belmiro.  um lindo e vioso cravo caboclo a espreguiar-se 
voluptuosamente sobre a haste flexvel, apresentando as macias e cheirosas ptalas ao sol da primavera. Essa flor faceira e peregrina se requebra sobre sua fronte, 
dobrando-se indolente ao sopro de todas as viraes,  a sua viva e fiel imagem.
      Adelaide estava nessa interessante e encantadora quadra da existncia, quando seu pai entendeu que devia abrir as salas de sua linda chcara, seu jardim e 
seu pomares,  freqncia dos estudantes. O diamante, em sua opinio, estava suficientemente lapidado, e podia exibi-lo sem receio na boa sociedade, certo de que 
produziria o mais completo e deslumbrante efeito.
      Seria bom o seu clculo? Andaria ele bem avisado com tal procedimento?
      No sei; a continuao desta histria se encarregar de dar uma resposta a essa pergunta. 

Captulo IV
Entre as Jabuticabeiras

      O major, grande e apaixonado cultor de Flora, tambm contribua com seu contingente para entreter os estudantes, porm de um modo que no deixava de ser bastante 
desagradvel e enfadonho para eles. A cada passo colhia um boto, uma flor, uma semente, que apresentava a qualquer deles, contando por mido donde lhe viera a semente, 
os cuidados que exige, em que tempo se deve plantar, etc., etc., no se esquecendo do nome cientfico que leva no catlogo, no lhes deixando tempo para se entreterem 
com a moa. Vendo essa importuna mania do velho, os estudantes, que at ali tinham suportado com impacincia a defensiva, resolveram tomar a ofensiva, e, colhendo 
de sua parte tambm aqui e acol botes, folhas e flores a granel, as iam apresentar ao major, a quem no deixaram mais respirar, aturdindo-o com as mais cerebrinas 
e esdrxulas explicaes botnicas. O estratagema surtiu o desejado efeito.
      - Enfim, meus amigos - exclamou afinal o major, j atordoado com tanta cincia - basta de flores! Vamos aos frutos, que j  tempo.
      -  Apoiado, major! - bradou o Silva. - A elas, s jabuticabas!
      -   justo - acudiu Aurlio. - As flores voam nas asas do vento, e so smente cor e perfume; mas os frutos tm tambm a polpa e o sabor. As flores duram um 
momento, e so como a beleza, de que fala o poeta:

Et rose, elle a vcu ce que vivent les roses,
L'espace d'un matin.
E Rosa ela viveu da rosa a vida,
O espao de uma aurora.
      - Outro tanto se pode dizer dos frutos - replicou Belmiro - e a estrofe de Malherbe pode tambm se traduzir pela seguinte maneira:

Jabuticaba, ela viveu  smente
Como a jabuticaba;
Foi comida e deixou s a semente;
Assim tudo se acaba.

      Esta pardia, que foi aplaudida com estrondosas gargalhadas, no agradou muito a Adelaide e nem ao Azevedo.
      - Ora Belmiro! - disse enfadado. Para que estragardes  com tua traduo sacrlega e picaresca a linda estrofe do poeta! Lembra-te que h tambm flores perptuas 
e sempre vivas; e aqui mesmo neste jardim posso mostrar-te uma - acrescentou, olhando significativamente para Adelaide - 

E no  como a rosa, que, de vida,
S tem uma manh;
De dia em dia surge mais crescida,
Mais bela e mais lou

      - Bravo, Azevedo! Bonito madrigal! - exclamou o Oliveira. - Mas, em fim das contas, depois das flores do jardim de Arminda vm as flores da poesia, e nunca 
chega a vez dos frutos! Soldados! - continuou ele em tom solene, parodiando Bonaparte no Egito. - Do alto daquelas jabuticabeiras quarenta mil jabuticabas nos contemplam! 
A elas, meus bravos!...
      - A elas! - bradou o major, abrindo uma cancela, de onde por alguns degraus se descia para o quintal de legumes e hortalias, no fim do qual se estendiam densas 
e copadas filas de jabuticabeiras, pelas quais os estudantes se enfiaram de tropel.
      - Venham c, meus amigos - gritou o major, procurando arrebanh-los. - Agora, sentemo-nos aqui  sombra, enquanto o moleque nos vai apanhar as frutas que esto 
caindo de maduras.
      - Oh! meu major! - exclamou o Oliveira. - Nisso no consentimos ns; seria privar-nos do melhor da festa.
      - No, senhor! - acrescentou o Aurlio. - Nada de cerimnias, meu major; ns mesmos queremos colher as jabuticabas, que havemos de comer; queremos chup-las, 
como fazem os passarinhos, em cima da rvore, gorjeando e saltando de ramo em ramo; a  que est todo o chiste e poesia do negcio.
      - Mas isso no pode ser - interveio Adelaide, que, nesse momento, entrava no pomar, acompanhada pelo Azevedo. - Os senhores vo se pisar, amarrotar e rasgar 
a roupa, e mesmo podem cair... Nada!  melhor que o moleque v apanhar as frutas; ele j est acostumado.
      - E ns tambm, minha senhora - atalhou Belmiro. - Qual de ns aqui que no ter trepado em uma jabuticabeira?
      - Eu que aqui estou - acudiu Azevedo. - Nunca trepei e nem quero trepar; no sou macaco.
      - No s dos grimpantes, e antes queres pertencer  famlia dos rpteis! Tanto pior para ti; no podes elevar-te como ns, que vamos nos avizinhar das regies 
celestes. Se o Senhor major nos d licena, tiramos as sobrecasacas, e vamos acima.
      - Faam como entenderem, meus caros, todo este pomar hoje lhes pertence. Estejam em plena liberdade. Mas olhem c! Reservei para os senhores aquela jabuticabeira 
que ali est; ainda ningum apanhou nela uma s fruta; est carregadinha, e so doces como favo de mel.
      - Obrigado pela fineza, meu caro major; mas h de permitir-nos que ofereamos   senhora sua filha as primcias desses frutos deliciosos.
      Dito isto, desembaraaram-se lestamente de suas sobrecasacas, e dirigiram-se para a rvore indicada, exceto o Azevedo, que deixou ficar sentado sobre a relva, 
 sombra de uma laranjeira, em companhia do major e sua filha.
      - Pior est o caso - murmurou o Azevedo, depois que os outros se afastaram.
      -  Qual caso? - perguntou Adelaide, surpreendida.
      -  Que a senhora est aqui como que representando o papel de Eva no Paraso, e est me parecendo que aquela  a rvore do fruto proibido.
      - Ora! Ora esta, homem! - exclamou o major, rindo-se muito. - Esta nem ao diabo lembrava. Mas, meu doutor, acho que nenhum daqueles bons moos se parece com 
a serpente que enganou Eva.
      - Pois eu acho-lhes toda a semelhana; conheo bem aqueles maganes, principalmente o tal Sr. Belmiro; debaixo daquele ar apalermado esconde-se um verdadeiro 
Mefistfeles.
      - Mefist... Como se diz... Quem  esse sujeito? - perguntou Adelaide, sorrindo-se.
      -  uma das personalidades do Diabo, minha senhora; foi nessa figura que ele tentou Fausto, para que este tentasse Margarida, como tentou a Eva na figura da 
serpente.  uma galante histria; se a senhora quiser l-la...
      - Oh! pois no; gosto muito de ler romances... Foi o senhor mesmo que comps isso?
      - No, minha senhora. Quem me dera! Foi um famoso pndego alemo, chamado Goethe.
      - Goethe!... Que nome extravagante!... Mas o senhor fala muito mal dos seus camaradas...
      - Oh! D. Adelaide,  pura brincadeira. So excelentes rapazes; muito folgazes e nada mais...
      - Sim, minha filha - disse o major - est claro que o Sr. Azevedo no podia trazer  nossa casa seno pessoas de distino.
      De distino bem podiam ser eles; mas  exceo talvez desse pobre Belmiro, contra o qual tanto se assanhava o humor satrico de Azevedo, no podemos asseverar 
que tivessem a conscincia muito escrupulosa, e devemos antes crer que se no eram dos mais devassos e libertinos, qualquer deles era bem capaz de levar um namoro 
ou uma intriga amorosa at as ltimas conseqncias.
      Entretanto, o major se havia retirado de junto de sua filha e de Azevedo, e sem perd-los de vista tinha ido percorrer o quintal de hortalias e dar algumas 
ordens aos escravos que nele trabalhavam. Enquanto Adelaide e Azevedo se entretinham na frvola conversao que acabamos de ouvir, os outros estudantes grimpavam 
pelos galhos da jabuticabeira como verdadeiros sagis, e enchiam a copa dos chapus dos mais doces e sazonados frutos.
      Dentro em cinco minutos estavam de volta, e rodeavam Adelaide, trazendo-lhe em oferenda as primcias dos deliciosos frutos  que acabavam de colher. A moa 
viu-se em srios embaraos diante de seis chapus, que eles, cada qual mais sfrego e pressuroso, lhe apresentavam ao nariz. Para tirar-se de dificuldades, foi metendo 
indistintamente ambas as mos em todos os chapus e tirando punhados de frutos at encher um grande alguidar com gua, que uma escrava tinha colocado ao p dela. 
Foi Belmiro o ltimo que se apresentou, depois que viu Adelaide inteiramente desembaraada de obsesso de seus companheiros. Esta, ou fosse por no ter mais onde 
acomodar as frutas, ou por um mero capricho de moa, escolheu uma dzia no chapu de Belmiro, e depois de as ter limpado apenas com o seu leno de fina cambraia, 
ali mesmo as estalou entre os alvos dentes, saboreando-as com certo arzinho faceiro de satisfao, que fez sofrer todas as torturas de inveja a seus companheiros, 
principalmente ao Azevedo, cujas as faces naturalmente plidas se fizeram esverdinhadas de desapontamento e despeito.
      Belmiro com efeito parecia triunfar, e cheio de prazer, esperana e ufania, pondo de lado seu natural acanhamento, ps-se a chasquear com Azevedo.
      - Ento, Azevedo, que quer dizer isto? - dizia-lhe ele em p, de braos cruzados diante do colega, que se achava reclinado sobre a relva ao lado de Adelaide. 
Que viste c fazer? Ou s um grande preguioso, ou um moleiro sem prstimo algum. Se no fosses tu quem nos veio abrir as portas deste paraso, no provarias uma 
s fruta; quando muito te daramos as cascas. Ora, no faltava mais nada! Ns a esfolarmos as mos e a torcermos o p nos galhos da jabuticabeira, e tu estendido 
a  sombra sobre a fresca relva ao lado da Senhora...

Tu, Tytire, lentus in umbra...,
-Formosam resonare doceo Adelaida silvas.

      Respondeu prontamente Azevedo.
      - Adelaide da Silva no senhor - atalhou a filha do major - esse no  meu nome, Sr. Azevedo; chamo-me Adelaide Celestina Bueno de Aguiar.
      - Oh! esplndido nome! - murmurou Azevedo, voltando a rosto para abafar ou exalar o riso, que lhe inchava as bochechas e ameaava fazer exploso. E comeou 
a tossir, fingindo-se engasgado com a fumaa do charuto.
      Os outros estudantes tambm de sua parte faziam supremos esforos para no se rirem abertamente da ingnua e singular interpretao, que a moa havia dado 
ao verso de Virglio, onde Azevedo com tanta habilidade soubera encaixar de improviso o nome de Adelaide. Nada disseram, mas Adelaide, pelos olhares maliciosos que 
trocaram entre si, logo compreendeu que havia dito alguma tolice; corou muito, mas no se enfadou, nem se mostrou desapontada.
      - Oh! meus senhores! - exclamou ela entre risonha e enfadada - se continuam a falar francs, eu no sou mais da companhia, e peo licena para me retirar. 
      Foi Belmiro quem primeiro acudiu em seu auxlio.
      - Desculpe-nos, minha senhora - disse. - Fomos eu e o Azevedo que tivemos a lembrana de citar uns versos de Virglio, que parecem ter sido feitos de propsito 
para a senhora na presente situao. A nica diferena  que aqui o meu amigo habilmente substituiu o nome de Amarlis pelo de Adelaide.
      -  verdade, minha senhora - replicou Azevedo, olhando de revs para Belmiro - e por sinal que esses versos diziam respeito a certo invejoso, que levava a 
mal que o amante de Amarlis repousasse  sombra, ensinando aos ecos o nome de sua amada.
      - Ah! j compreendo - replicou Adelaide. - Agora o que peo aos senhores  que, daqui em diante, se quiserem fazer ou recitar versos, seja em lngua que eu 
possa entender.
      - Muito bem! D. Adelaide tem toda a razo - acudiu Aurlio - e daqui em diante juramos que no havemos de proferir em sua presena uma s palavra francesa 
nem latina. O diabo que consuma essas duas lnguas; uma, porque mora a alguns milhares de lguas distantes de ns; outra, porque j morreu h mais de mil anos.
      - Pois seja assim, que lhes ficarei obrigada... Mas olhem! As frutas vo se acabando;  preciso novo sortimento.
      E tinha razo a moa, pois no se pense que aquele grupo se ocupava s em falar; ao passo que engoliam a polpa da jabuticaba, deitavam fora tambm cascas e 
caroos de mistura com toda essa torrente de toleimas e disparates que acabamos de ouvir, alm de outros muitos, que omito por brevidade. Em vista daquele pedido, 
ou antes ordem da filha do major, parte do grupo, que a rodeava, se afastou, ficando junto dela somente o Azevedo e mais dois colegas.
      Belmiro no podia tolerar de sangue-frio que Azevedo continuasse a ficar a ss com a filha do major; achava isso revoltante e escandaloso. O pequeno sinal 
de predileo que ela lhe havia dado, provando em primeiro lugar das jabuticabas que tinha colhido,

Lhe enchera com grande abundncias
O peito de desejos e esperanas

      como acontecera com Adamastor de Cames, e em conseqncia tinha-lhe superexcitado o cime, que j nutria contra o Azevedo. Logo que se distanciou algum tanto, 
com os trs companheiros, que o seguiram, parou e, formando com eles uma espcie de conselho deliberativo:
      - Antes de tornarmos a subir  jabuticabeira, vamos conversar aqui um pouco - disse-lhes em meia voz. - No acham vocs que  um desaforo da parte de Azevedo, 
e da nossa uma toleima inqualificvel, deixarmos ali ficar tranqilamente aquele magano a ss com a moa, enquanto nos estamos a amofinar para regat-los a um e 
 outra?
      - Tens razo, Belmiro - replicou Oliveira. - E como l fica ele to ancho e cheio de si e dar boas gargalhadas, talvez zombando de ns, e fazendo-a rir a nossa 
custa? Isto com efeito  custoso de aturar-se.
      - Tambm a culpa  mais do velho - ponderou judiciosamente o Silva. - Por que deixa ele assim a filha sozinha em companhia de um Mefistfeles daquela ordem? 
Ah! se ele soubesse de que tmpera  aquele!
      - Ora, deixem-se disso, meus caros! -  interrompeu o Dias com um fleugma, que fez raivar a Belmiro. - Para que essas ciumadas? E que temos ns com o namoro 
do Azevedo? Deix-los; j so conhecidos antigos, e se ela lhe d preferncia  fortuna dele. Viemos ns aqui para nos divertir, passear e comer jabuticabas, ou 
para namorar a filha do major e disput-la com Azevedo?
      - Ora bravo, meu Dias! Essa  impagvel! - exclamou Belmiro, com azedume. - Pelo que vejo, viemos aqui como corteses de um rei para os servir e render homenagem 
a ele e  sua dama?... De certo c no viemos para requestar a filha do major, mas tambm hs-de compreender que no nos fica muito airoso dar azo e proteo ao 
namoro do Azevedo.
      - E o que queres que faamos, no me dirs? - redargiu vivamente o Dias.
      - Impedir esse namoro.
      - Como?...
      - Ora como!... Nada mais fcil. Somos seis contra ele, e nada custa dividirmo-nos em dois grupos, que se revezem de maneira que ele nunca tenha ocasio de 
achar-se a ss com ela. Assim, uns ficaro fazendo-lhes companhia, enquanto outros trepam s jabuticabeiras...
      - Pois eu c - disso o Oliveira - quero ser um dos que ficam; a falar com franqueza, prefiro mil vezes ficar conversando com a menina, do que ir apanhar, e 
mesmo comer, as mais doces jabuticabas do mundo.
      - E eu tambm - retrucou o Dias. - No porque me importe o namoro do Azevedo, nem com os encantos e faceirices da menina, mas porque j estou com as mos esfoladas 
e as botinas encravadas.
      - Mas isto no ode ser, meus amigos! - exclamou Belmiro, com impacincia. - D. Adelaide est  espera de frutas, e ns aqui a turrar como crianas por uma 
ninharia!...
      Ah! j achas uma ninharia! - murmurou o Dias. - Ainda h pouco sustentavas o contrrio.
      - Vamos ns, Oliveira - continuou Belmiro. - Vamos trepar  jabuticabeira, e deixemos estes bobos, estes Hrcules ridculos aos ps da sua nfale...
      - Tambm no vou, visto que todos ficam - respondeu secamente o Oliveira. - No sei qual ser mais bobo, se quem l sobre, ou quem c fica embaixo. J cumprimos 
para com a filha do major o dever de cavalheiros delicados. Agora, os moleques do major que apanhem frutas para ns todos.
      Assim o pobre Belmiro se achou isolado em seus planos de embaraar o namoro de seu rival. Os dois outros companheiros, que tinham ficado com Azevedo, tambm 
no se arredavam de junto de Adelaide, e deste modo ou ele s iria apanhar jabuticabas para ela e para todos aqueles malandros, ou deixaria de obsequi-la com os 
saborosos frutos, de que ela tanto havia gostado. Horrvel conjuntura!
      Cumpre reconhecer que era mui natural e justificvel o procedimento dos outros estudantes para com Belmiro. Este, bem como Azevedo, j tinha merecido de Adelaide 
sinais de predileo, prprios para inspirar-lhes sonhos fagueiros e esperanas cor de rosa. O mesmo no acontecia aos outros, os quais,  exceo talvez Silva, 
que tanto na figura como no temperamento parecia um batavo pouco sensvel aos encantos da beleza, e do Dias, filsofo pachorrento, para quem o mais simples galanteio 
era coisa incompreensvel, os outros todos sentiam tambm a magntica influncia dos sedutores atrativos da gentil paulista. No era, pois, de esperar que se prestassem 
de bom grado a favorecer aqueles a quem a sorte j se ia mostrando to propcia e risonha.
      Este estado de coliso e perplexidade no durou muito tempo, veio pr-lhe termo o incidente inesperado que vamos ler no captulo seguinte.

Captulo V

Nova companhia vinda muito a propsito


      - Adelaide! Adelaide!  l! - ouviu-se bradar de longe a voz estridente do major.
      - O que  l, papai? - acudiu levantando-se rapidamente a moa, que, achando-se empenhada em uma interessante conversao com o Azevedo e os outros dois estudantes, 
que estavam ao p dela, no deixou de sobressaltar-se com to brusco e altissonante chamamento.
      - Olha c no vs? - continuou o major no mesmo tom. - O nosso vizinho tenente Andr com suas filhas; temor reforo de boa companhia. 
      - Oh! que belo, as filhas do Tenente Andr! - exclamou Adelaide, batendo palmas, e correndo ao encontro de suas amigas e vizinhas, que vinham lentamente pelo 
quintal, escoltadas pelo major e o tenente, que marchavam gravemente na retaguarda. Eram trs ndias viosas raparigas, alegres, desembaraadas e folgazonas, orando 
a idade delas, da mais moa  mais velha, entre os dezoito e vinte dois anos. Posto que muito inferiores em beleza e elegncia  filha do major, eram bem feitas, 
bonitas, e tinham maneiras e ademanes inocentemente provocadores.
      O pai era um tenente do exrcito, reformado, baixo e algum tanto bojudo, e que s pelos formidveis bigodes grisalhos revelava a classe a que pertencia. Como 
representa um papel quase nulo nas cenas, que vamos descrevendo, pouco no ocuparemos com sua pessoa; entretanto, sempre diremos que era vivo, que sabia muito bem 
comer, beber, dormir e ir pontualmente receber  boca do cofre o seu soldo de tenente que - diga-se em abono a verdade - despendia honestamente com a manuteno 
de sua famlia, a qual constava unicamente dele e suas trs filhas. Na sociedade quase nada dizia, contentava-se com prestar ateno e aplaudir, com seu riso alvar, 
a tudo que se dizia.
      As duas famlias tinham entre si essa intimidade que provm da vizinhana em um lugar isolado, e portanto o tenente, com sua pequena mas vistosa companhia, 
entrava pelo quartel-general do major  hora que lhe parecia, sem formalidades nem continncias, visto que ambos estavam em quartis de inverno. Todavia, rezam as 
crnicas do tempo que naquele dia o batalho do tenente tinha visto desfilar em direo ao acampamento do major um forte esquadro de cavalaria, e por isso, dando 
o alarma, se tinham posto em marcha sob o comando de seu chefe a fim de socorrer o major, o qual, como sabemos, dispunha apenas de uma praa, se bem que essa valesse 
por dez. Os quatro estudantes, que se achavam no conciliatrio, a que assistimos no precedente captulo, ouviram tambm o brado do major, e, pondo-se alerta, encaminharam-se 
curiosos para junto da laranjeira, ponto central daquela expedio ao pomar do Major Damsio.
      Dando as mos uma s outras, as quatro moas correndo, rindo, tagarelando, tropeando, escorregando, e s vezes quase caindo umas sobre as outras, desceram 
atravs dos canteiros do quintal e, redemoinhando como uma guirlanda arrebatada pelo vento, vieram parar no stio em que Azevedo e seus seis companheiros estavam 
em p e imveis as esperavam  para cumpriment-las. A sentaram-se , ou antes, deixaram-se cair em crculo sobre o tapete de relva, que circundava a laranjeira, 
sem mostrarem prestar grande ateno aos estudantes, que as contemplavam e continuaram sua interminvel tagarelice.
      Isso irritava cruelmente os nervos ao Azevedo, que em vo procurava uma brecha para introduzir um dito qualquer, um monosslabo que fosse naquele espesso chuveiro 
de perguntas e respostas, de ditrios, risos e gargalhadas, e dava aos diabos o tenente com toda a sua grrula descendncia, que vinha roubar-lhe a posse tranqila 
e quase exclusiva, em que at ali estivera, da companhia de Adelaide. O que, porm, para ele era uma contrariedade foi para seus companheiros uma verdadeira redeno. 
O Belmiro principalmente exultou no ntimo d'alma, porque o aparecimento das trs recm-chegadas veio produzir eclipse total entre Adelaide e o Azevedo.
      Enfim, esse novo reforo de gente veio muito a propsito para animar a companhia, cujo contentamento e bom-humor se ia arrefecendo consideravelmente por falta 
de moas, como se extingue o lume no fogo por falta de lenha, ou na candeia  mngua de leo. Em verdade uma s moa e um velho, alis um folgazo, afvel e obsequiador, 
mas excessivamente preocupado com os cuidados de sua quinta, no podiam distrair os sete estudantes, a maior parte dos quais comeavam a sentir-se bastante aborrecidos 
e contrariados. Adelaide, de sua parte, fazia boa cara a todos eles, mas temos visto sua companhia e conversao quase monopolizados pelo Azevedo, e ardentemente 
cobiada pelo Belmiro, enquanto os outros nenhum interesse nem vontade tinham para disputar aos dois contendores os sorrisos e boas graas da gentil dona da casa.
      Assim estiveram por alguns minutos os sete estudantes, em p, em roda das quatro moas sentadas sobre a relva; eles mudos quase imveis, e elas rindo-se, mexendo-se 
e tagarelando com amvel garridice e desembarao; eles tolhidos e acanhados sem ousarem interromper aquela orquestra de passarinhos; elas trfegas e descuidosas 
sem mostrarem perceber que quatorze olhos e quatorze ouvidos as escutavam e contemplavam.
      A chegada do major, que se tinha demorado em caminho, mostrando alguns enxertos ao amigo tenente Andr, veio mudar repentinamente a cena.
      - Ento, no se come frutas?! - bradou ele, parando a dez passos de distncia. - Antes querem conversar e brincar do que comer jabuticabas! Ora! ora!... Isso 
 uma vergonha!... Meus amigos, aqui esto estas moas, minhas vizinhas, que tambm gostam de frutas.
      Quando o major terminou essa palavra, j as quatro moas estavam em p, e os sete estudantes, alargando o crculo, esperavam o resto da alocuo.
      - Meus amigos - continuou ele, chegando-se ao grupo - a rvore, que lhes destinei, ainda ali est carregadinha como a deixei. A ela! No quero que ali fique 
uma s fruta. So estas senhoras que lhes pedem.
      O efeito da eloqente proclamao do major foi imediato. As posies se mudaram com presteza e exatido quase militar, de um modo favorvel em geral, mas que 
desconcertou a alguns em particular. Adelaide j no era a nica deusa daquela festa; Oliveira, Arajo e Aurlio j tinham cada um escolhido entre as trs irms 
o objeto de seus cultos e tinham entre si segredado a sua escolha, para que no houvesse entre eles motivo de cimes e conflitos ridculos, como se iam dando entre 
Azevedo e Belmiro. O Dias e o Silva, jovens fleumticos e sisudos, como se achavam saciados de jabuticabas, de ouvir frioleiras e de assistir a cenas de frvolos 
namoricos, tomaram de novo as sobrecasacas, abandonaram a companhia e de brao dado, como dois verdadeiros peripatticos, puseram-se a passear e a conversar serenamente 
por entre as sombrias alias do pomar. Sem dvida, como jurisconsultos quase abalizados que j eram, tratavam da prxima sabatina, a ltima do ano, assunto este 
to importante e ponderoso para um estudante de direito, como  para um general a ltima batalha, que se tem de ferir para decidir da sorte de uma longa campanha.
      Aurlio, Oliveira, Arajo e Belmiro correram para a jabuticabeira, os trs primeiros para obsequiarem s escolhidas de seu corao e o ltimo por amor de Adelaide, 
contando que as trs recm-chegadas continuariam a fazer companhia  filha do major. Este, apenas viu o efeito eltrico que haviam produzido suas palavras, se voltou 
para o tenente e, tomando-lhe o brao:
      - Meu tenente - disse-lhe - estes moos so verdadeiros quatis para treparem s rvores; ainda h pouco os vi fazendo proezas l por cima. Eles nos ho de 
trazer fruta com fartura. Enquanto isso, vamos acabar de ver nossos enxertos.
      E ambos foram se retirando pachorrentamente.
      Quando Belmiro, de envolta com seus trs companheiros, chegou quase ao p da jabuticabeira, voltou-se rapidamente, curioso e ofegante, para o lado donde tinha 
partido. Mas... oh! desgraa! Qual no foi seu desapontamento quando se encontrou face a face com as trs ninfas, que, se no eram as trs graas, eram ao menos 
trs alegres e encantadoras diabinhas. Parece que vinham to de jabuticabas como de travar relaes com seus guapos e diligentes servidores, sobre os quais relanceavam 
chispas abrasadoras de seus olhos, to negros como as frutas que cobiavam. Vendo diante de si aqueles trs rostinhos faceiros e risonhos, Belmiro cambaleou, e foi-lhe 
mister agarrar-se a um galho da jabuticabeira para manter-se convenientemente aprumado. Quando, porm, antes de dizer nada s moas, que o encaravam entre atnitas 
e risonhas, olhando por sobre as trs cabecinhas, avistou o Azevedo de novo reclinado negligentemente sobre a relva, com o infalvel charuto na boca, a contempl-lo 
de longe com certo arzinho insolentemente galhofeiro e provocador, Belmiro, que at ento estivera rubro como um cravo, empalideceu subitamente.
      - Os senhor est sofrendo? - perguntou uma das moas, assustada com essa repentina mudana de cor.
      - No, senhora - balbuciou o pobre moo - mas... mas... as senhoras por que no... no se deixaram ficar l com... D. Adelaide? Ns lhes levaremos as frutas...
      - Oh! no, no, no... interromperam quase a um tempo as trs grrulas mocinhas. - Era boa estarem a subir e  a descer com tanto incmodo por nossa causa!... 
No consentimos em tal, no senhores! Subam, atirem as frutas ao cho, que ns a iremos apanhando e ajuntando, para depois as comermos juntos. D. Adelaide j mandou 
vir as cestas.
      - Como quiserem, minhas senhoras - murmurou surdamente Belmiro, e, voltando-se para a rvore, comeou a grimpar pelos galhos mui  lentamente e de muito m 
vontade, mais para ir esconde entre a espessa ramagem seu despeito e desapontamento, do que pelo desejo de colher jabuticabas para quem quer que fosse.
      Imediatamente, comeou a chover sobre as moas uma incessante metralhada de jabuticabas, que elas rindo, galhofando, saltando daqui para acol, iam apanhando 
e ajuntando em balaios, que Adelaide mandara trazer. Com as jabuticabas choviam tambm chalaas, quolibets e galanteios, que se cruzavam de parte a parte com infatigvel 
ardor.
      - Ai! estou ferida no peito por uma bala! - gritou uma das moas. - Quem foi que atirou?
      - Fui eu, minha senhora - respondeu uma voz de cima.
      - Pois perdeu o seu tempo; no penetrou.
      - Pois eu vou fazer um tiro to normal e certeiro, que por fora h de penetrar - bradou o Aurlio. - L vai!...
      Ai! quase veio-me na boca.
      - Pois  somente por a, minha senhora, que estas balas podem penetrar. Perdoe-me se errei o ponto.
      - Belmiro!... - vociferou um dos estudantes. - Que ests a a fazer, resmungando como um possesso? Olhem que marralheiro! Deu-lhe a preguia, e em vez de apanhar 
frutas est a derriar sem piedades os galhos da jabuticabeira!... Que mal te fez a pobre rvore, meu sonso?
      De feito, Belmiro com a mo trmula e frentica estava a escorchar desapiedadamente os galhos da jabuticabeira, lanando em terra indistintamente frutos verdes 
e maduros, brotos e folhas, e enfiando olhares ardentes atravs da mida e embastida folhagem do arvoredo, no perdia de vista o grupo de Adelaide e Azevedo; mas 
fazendo-se surdo a esta e outras interpelaes de seus colegas, nada respondia e continuava em sua faina.
      Azevedo, por um desses caprichos romnticos  Byron ou  Musset, comprazia-se em contemplaras formas elegantes e voluptuosas da filha do major, e em seus delrios 
de poeta plido forjava, talvez, na lvida fantasia algum desses poemas sinistros, em que a pobre Adelaide fosse a herona, ou antes a vtima de algum Fausto ou 
de algum Rolla.
      Belmiro, pelo contrrio, temperamento sangneo, ardente e impressionvel, abandonando a alma s emoes do momento, nada idealizava, porque se sentia com 
a imaginao aniquilada sob a realidade sedutora e deslumbrante da beleza de Adelaide.
       verdade que era ele, entre todos os seus companheiros, talvez o menos favorecido pela sorte e pela natureza, para atrair a ateno de uma donzela formosa 
e rica, elegante e pretensiosa. Posto que no disforme, no era bonito; como estudante pobre que era, no podia trajar-se com a elegncia e primor de seus companheiros; 
de mais a mais era sumamente ingnuo e acanhado, e mui pouco afeito a esses jogos do esprito, a esses galanteios delicados e lisonjeiras frivolidades, que tanto 
agradam s moas. Todavia, mereceu e atraiu a ateno de Adelaide. Perspicaz como ela era, e s desejando adoraes, tinha percebido nos olhos do mancebo a profunda 
impresso que sua beleza lhe deixara no esprito. O Azevedo j era conhecido antigo, e posto que ela, j como por hbito, prestasse ouvidos complacentes a suas homenagens 
e galanteios alambicados, parecia contudo entrever no fundo deles um no se que de malicioso e sardnico, que no deixava de incomod-la. Entretanto, cuidava soletrar 
no olhar profundo e luminoso de Belmiro os indcios de uma paixo sincera, ardente e impetuosa. E no se enganava totalmente; ao v-la, o pobre rapaz sentira nalma 
uma dessas perturbaes que atordoam, e que constituem os prdromos de um verdadeiro amor. Cnscio porm de sua fraqueza para to alta conquista, jurou de si para 
si que faria tudo quanto estivesse a seu alcance por estorvar os colegas, que ousassem render homenagens por demais significativas  formosa filha do major. Ora, 
Adelaide, que aceitava indistintamente o culto de todos eles, e s desejava ver-se rodeada de adoradores, vendo que os outros estudantes,  exceo de Azevedo, no 
se mostravam l mui solcitos e assduos em fazer-lhe a corte, no quis cortar o vo s nascentes esperanas de Belmiro. J a vimos entranar no cabelo o cravo caboclo, 
que ele lhe ofertara. Esse pequeno sinal de predileo fez subir a um grau elevadssimo a febre amorosa do pobre moo, dando-lhe certa audcia e desembarao, que 
lhe no era natural.
      Ouamos agora a conversao, que tiveram entre si Adelaide e Azevedo, logo que se acharam a ss, conversao que Belmiro via e desesperava por no poder ouvir.
      - Sr. Azevedo! - disse Adelaide, zombeteando. - O senhor  um moleiro! No tem inveja de seus companheiros, que j andam a esfolar-se nos ramos, e a fazer 
proezas s para agradar s moas?
      - Ah! - replicou Azevedo, fingindo-se enfadado - j vejo que minha companhia lhe desagrada. Pois bem, minha senhora; no farei o que eles esto fazendo; no 
estou acostumado a isso, mas irei...
      - Para onde?
      - Para casa.
      - Nessa no consinto eu... No lhe estou mandando apanhar frutas; pelo contrrio, quero que fique aqui. Se no fosse o senhor, eu nem teria com quem conversar. 
No v como aquelas caipiras l se foram tambm como umas tontas?
      - Em boa hora! - murmurou consigo o Azevedo. - Deus as conserve por l. D. Adelaide - continuou em voz alta, - esses meus colegas so uns lorpas; pensam que 
a felicidade consiste em come jabuticabas, e o nico meio de que sabem lanar mo para se tornarem agradveis s damas  trazer-lhes uma jac cheio delas.
      - Oh! Sr. Azevedo, nem tanto! Acho que  uma delicadeza da parte deles... 
      - Se a delicadeza consiste em comer, v! - interrompeu Azevedo com um momo. - Eu c entendo que ela consiste em aspirar o perfume das flores, e por isso prefiro 
ficar sempre ao p da senhora.
      - Oh! diz que sou uma flor! - replicou Adelaide, encarando o Azevedo com adorvel sorriso, e mostrando na graciosa boca um lrio entre rosas. -  muita lisonja, 
a que flor me compara ento?
      - A todas e a nenhuma.
      - Como assim? No entendo.
      -  que a senhora a todas se assemelha e rene em si os encantos de todas, e por isso a todas  superior.
      - Mas sempre h de haver alguma com que eu tenha mais presena.
      -Talvez, e  essa... Permite que lhe diga?
      - Por que no?
      -  essa que est em seus cabelos;  ela que melhor simboliza, no na cor, mas na graa e no perfume.
      - Ah! qual ? -  inquiriu Adelaide, levando rapidamente a mo  cabea, e dela arrancando o cravo caboclo. - Ah, meu Deus! um cravo caboclo! Quem foi que me 
deu isto? Nem tinha reparado... Que mau gosto! Se bem me lembro, foi aquele seus companheiro alto, corado, de cabelos pretos...
      - E cara de lobisomem. Justamente, o Belmiro. No foi, minha senhora?
      - Esse mesmo; creio que tem esse nome.
      - Mas, minha senhora, essa flor  bem linda, e demais  to americana...
      - Isso pouco me importa; no gosto dela - replicou Adelaide com um momo desdenhoso.
      - Ah! minha senhora... perdo. Nunca pensei que uma flor quisesse mal a outra flor a no ser por cime. Entretanto, se a senhora quisesse dar-me essa desgraada 
flor, que incorreu em seu dio, eu a guardaria eternamente sobre o corao, s porque pousou em sua cabea.
      - Est s suas ordens: d-lhe o destino que quiser - disse Adelaide, entregando a flor a Azevedo e voltando o rosto com o mais expressivo desdm
      Azevedo escondeu rapidamente a flor na algibeira da sobrecasaca.
      Entretanto, Belmiro do alto da jabuticabeira espreitava com os olhos ardentes, por entre o fino crivo da folhagem, toda essa cena, e dava-se ao diabo por no 
poder ouvir as palavras que a acompanhavam.
      Belmiro ignorava que Adelaide, por um preconceito, que desde a infncia lhe fora imbudo por seu pai, menosprezando seu encantador morenismo, tinha fumos de 
branquidade e fidalguia, a ponto de tomar como injria a mais leve e involuntria aluso, que pusesse em dvida a pureza imaculada de sua rvore genealgica.
      Mas o Azevedo, que, como ns, j conhecia a balda da famlia, maligno como era, aproveitou-se habilmente do incidente do cravo caboclo para irritar o amor-prprio 
da moa contra seu pobre colega.

Captulo VI

Uma queda feliz

      Eram mais de duas horas da tarde.
      O sol estava ardente, e o mormao abafador.
      - Adelaide! Ol!... - gritou o major de longe. - Chama tuas amigas, e convida esses moos para se recolherem, que j vo chegando horas de jantar.
      Adelaide levantou-se imediatamente e encaminhou-se apressada para junto da jabuticabeira. Azevedo acompanhou-a.
      - Abaixo, meu povo - gritou Azevedo, com voz esganiada. - O major nos chama... So horas de jantar.
      - Ora vejam l quem quer nos acompanhar! - bradou Belmiro com mau-humor, de cima da jabuticabeira. - Espera, Azevedo; espera que l vamos j neste momento.
      E de feito, mal acabava de pronunciar essas palavras, Belmiro despencou-se do alto da jabuticabeira, e caindo de galho em galho, agarrando-se a uma, resvalando 
entre outros, derriando folhas e frutos, veio tombar no cho a fio comprido aos ps de Adelaide e Azevedo, que recuaram espavoridos. Foi um esplndido tombo, normalmente 
executado, e com tal to estrepitoso fracasso, que arrancou a toda a companhia um grito de susto e de terror. No mesmo instante, todos rodearam a vtima, que, fazendo 
caretas e contores, procurava levantar-se.
      - Bem feito! - murmurou Azevedo a meia voz ao ouvido de Adelaide - para evitar uma destas  que c me deixei ficar embaixo.
      -  Que tombo, meu Deus! Coitado!... - exclamou a moa, toda consternada sem dar ateno s palavras de Azevedo. - Deve se ter pisado bastante, no, Sr. Belmiro?
      Adelaide estendeu-lhe a linda mo para ajud-lo a levantar-se, e o estudante, apoderando-se dela com sofreguido, a tocou levemente com os lbios como que 
involuntariamente.
      - No muito, minha senhora - replicou ele, levantando-se com dificuldade. - Creio que apenas apanhei mau jeito no tornozelo do p esquerdo; isso passa com 
o tempo... Apre! Quase no posso andar.
      Dizendo isso, o pobre rapaz tentou em vo dar alguns passos, mas o p magoado no lho permitia, e ele se viu obrigado a encostar-se ao tronco da jabuticabeira.
      - Ora, valha-me Deus!... Que foi isso? Santa Virgem! - bradou o major, chegando todo aflito e consternado ao lugar do sinistro. - Eu bem lhes tinha dito que 
deixassem o moleque ir apanhar as fruta e se deixassem de estripulias... Mas... o que querem?  isso... Imprudncia de rapaziada...
      - Major, por quem , no se aflija tanto! - disse Belmiro. - Foi um tombinho insignificante. Apenas parece-me que tenho o p esquerdo algum tanto magoado.
      - No creia, papai - atalhou Adelaide. - Olhe como est plido; ele que ainda agora estava corado!
      - No se incomode, minha senhora;  efeito do susto - disse Belmiro.
      - Nada! No creio. O senhor pisou-se muito; vamos j lev-lo para casa. Eu o ajudo a caminhar. Vamos.
      Dizendo isso, a moa oferecia o brao ao estudante.Com que prazer no ia ele aceitar to grata e carinhosa oferta... Mas no o consentiu o casmurro do major.
      - Anda da, menina! -  disse, afastando brandamente a filha e chegando-se a Belmiro. - Tu no tens fora. D-me um dos braos, moo, e o outro a qualquer dos 
seus colegas. Vamos! Encoste-se bem em mim; pode largar o peso, que aqui vai pulso de homem. Deus nos livre de que um desastre venha aguar a festa em um dia de reunio 
em minha casa! Vai adiante, menina, e manda preparar uma boa sangria de vinho com acar.
      - Diabos me carreguem, se esse marralheiro no se deixou cair de propsito para se tornar objeto dos cuidados e solicitudes da famlia, e pernoitar aqui em 
casa do major! Mas deixe-o estar, que em vez de achar l h de sair tosquiado. Mas - continuou ele em voz alta, dirigindo-se ao major no intuito de despoetizar completamente 
a queda de Belmiro -, meu caro major, perdoe-me; o vinho no convm de modo algum neste caso;  muito excitante e vai agravar a inflamao; ainda uma vinagrada, 
v feito. O que  porm de rigor em todos os casos de queda,  um laxante de leo de rcino.
      - Est enganado, meu caro. J fui muladeiro, como sabe; j levei muito tombo, e tenho tratado um sem-nmero deles em meus camaradas e pees, e sei o que fao. 
Deixe o moo por minha conta; mas h de me ficar em casa hoje, e amanh est pronto para ir  aula.
      - Tem carradas de razo, meu caro major - replicou Belmiro. - Deixe l o Azevedo com seus laxantes, e vamos  sangria de vinho.
      - Pois l se arrumem - tornou o Azevedo. - Com o estmago cheio de jabuticabas, teremos uma boa carraspana seguida de uma tremenda indigesto; alm de queda, 
coice. Esse Belmiro, com suas extravagncias,  sempre um terrvel desmancha-prazeres.
      - No se assuste com as agoureiras predies do Azevedo, senhor major. Ele tem a imaginao sempre sinistra e propensa ao lvido e ao fnebre;  a mania. Apenas 
chupei o caldo de uma dzia de frutas, e apesar da queda, sinto-me com excelente disposio para jantar.
      - E h de jantar - disse o major. - A dieta, nestes casos, no tem o menor cabimento.
      Nessas conversas Belmiro, dependurado ao brao do major e do Silva, chegou, coxeando,  casa, onde imediatamente foi instalado em uma boa cama.
      Da a instantes Adelaide entrou, trazendo, com suas prprias mos, a Belmiro um copo de vinho com gua e acar.
      - Mil graas, minha senhora - disse Belmiro depois de ter empinado o copo de sangria. - Jpiter nunca bebeu mais delicioso nctar, e nem por mos de mais encantadora 
Hebe.
      - Deveras! Como est potico e mitolgico o nosso Belmiro! - exclamou Azevedo, a quem esta cena no estava agradando muito. - Querer comparar-te a Jpiter, 
quando no passas de um Vulcano coxo e estropiado?!
      - E isso que te importa, Azevedo? Ests com inveja? No tens razo; a cada um a sua vez, meu amigo. Ainda h pouco, eu tambm tinha bastante inveja de ti, 
quando l no pomar comias as frutas colhidas por ns, e escolhidas, lavadas e oferecidas, pelas mos delicadas de D. Adelaide. Bem sei que no passo de um pobre 
diabo; mas tem pacincia, meu caro! No posso deixar de considerar-me um deus, quando tenho a fortuna de ser servido pelas mos de um anjo.
      Esta rplica de Belmiro foi muito festejada e aplaudida pelos estudantes, menos por Azevedo, que mordeu os beios, e pelo major e as moas, menos por Adelaide, 
que corou e baixou os olhos.
      - Meus senhores - disse o major - nada de galhofas com doentes! Deixemos o Sr. Belmiro em sossego, enquanto ns vamos jantar. Ele tambm deve jantar; mas vou 
mandar trazer para aqui mesmo sua comida.
      - Oh! major, para que tanto incmodo? Encostado ao brao de qualquer posso ainda pr-me em p e ir at  sala de jantar.
      - Ests doido, meu amigo? No deve hoje mexer-se da, se quer sarar depressa;  o que lhe digo, vamo-nos, meus senhores!
      Retiraram-se todos alegremente, deixando Belmiro a ss no quarto a espera de sua refeio, e fazendo mil reflexes sobre sua singular situao.
      - Oh! -  pensava o pobre rapaz, riscando castelos no ar. - Se fosse a prpria Adelaide que me viesse trazer o jantar!... Oh! que gosto, que glria para mim, 
e que motivo mais para fazer o Azevedo estalar de inveja!... Mas...  impossvel!... No devo esperar tanta honra... Este meu tombo foi providencial; pode ainda 
produzir melhor efeito do que eu espero. Ela... ela... depois de minha abenoada queda, tem para comigo tais atenes e cuidados!... No posso crer que seja s por 
mera compaixo e esprito de caridade. Encontrei s vezes os olhos dela fitos em mim de um modo! Mas o diabo do cravo caboclo, que eu dei a ela, e ela deu ao Azevedo!... 
Aqui h um mistrio qualquer, que me faz arder o miolo, e que hei de decifrar seja como for. Aquele Azevedo  um refinadssimo velhaco, um embusteiro sem parelha... 
Mas hei de dar-lhe um vomitrio em paga do laxante que quis aplicar-me... Indiscreto e gabola como , sempre h de revelar alguma coisa.
      Neste ponto de suas graves meditaes, foi Belmiro interrompido pela chegada de sua refeio, que com grande pesar seu, em vez de lhe ser apresentada por sua 
encantadora Hebe, lhe foi trazida em uma grande bandeja por uma preta velha, que se retirou sem dizer palavra.
      O jantar esteve alegre e folgazo, como era de esperar entre convivas de to excelente humor, sentados em frente de quatro lindas raparigas, tendo ao lado 
o major, que as animava com as palavras e o exemplo, fazendo desaparecer qualquer sombra de acanhamento. A conversao foi-se animando ao tinido dos copos e da baixela 
de prata e porcelana; os motejos, as pilhrias, as gargalhadas expandiam-se folgadamente em derredor da mesa recheada de saborosas iguarias e vinhos preciosos. Vieram 
depois os versos, as anedotas, e por fim fizeram-se numerosos brindes ao som de coretos, que os estudantes entoavam  goela solta em honra do major, do tenente Andr 
e da formosura das niades presentes.
      Mastigando automaticamente em seu quarto solitrio as iguarias que lhe trouxeram, Belmiro escutava a algazarra do festim, e ouvia muitas vezes o seu nome pronunciado 
no meio de galhofas e pilhrias de companhia, que  sua custa soltava longas e gostosas gargalhadas.
      - Quando eu vi o Belmiro despencar-se do alto da jabuticabeira e tombar de rijo no cho, com as crinas desgrenhadas e todo desengonado, pensei ver um mono 
baleado pelo caador.
      - E eu pensei que era um galho arrancado pelo furaco.
      - Aquilo  um original muito esquisito - acrescentou desdenhosamente o Azevedo. - Nunca vai  funo alguma, que no faa uma dessas falcatruas.
      - Eu a princpio - disse uma das filhas do Tenente Andr - fiquei muito assustada quando o vi estendido no cho. Mas depois que se foi erguendo todo sarapantado, 
com a roupa toda suja e amarrotada, me deu uma vontade de rir, meu Deus!...
      E abafou com o leno uma risadinha chocha.
      - E eu tambm, mana - disse outra -  quase rebentei para no soltar uma risada. Ele fez uma cara mesmo de cachorro que quebrou panela!!...
      - Com efeito! - interrompeu Adelaide, em tom de risonha e fagueira repreenso. - No sei por que se acha graa de um tombo por menos perigoso que seja.
      - Uma queda sempre  ridcula, minha senhora - disse Azevedo.
      - Ah! Sr. Azevedo! - continuou Adelaide -  o senhor  bem mal agradecido; e as senhoras tambm, minhas amigas. Perdoem-me se lho digo; no se enfadem comigo. 
Foi em meu servio, das senhoras, e do seu tambm , Sr. Azevedo, que o pobre moo levou tamanha queda. E ainda por cima esto a escarnec-lo!?...
      - Oh! oh! l por isso no, minha senhora - exclamou a maioria dos estudantes - l estvamos ns tambm para servi-las com o mesmo zelo e diligncia, e para 
isso no nos foi preciso destroncar o p. Se era um moleiro, no se metesse em cavalarias altas.
      - Ora!... senhores!... - interrompeu Adelaide. - Eu o vi subir e descer com tanta agilidade!... Foi um desastre, que poderia acontecer a qualquer outro.
      L de seu quarto, Belmiro, ainda que no pudesse ouvir tudo distintamente, compreendeu maravilhosamente o sentido da altercao.
      - Bravo! - exclamou ele consigo. - Adelaide  por mim!... Seja embora o mundo inteiro contra mim!... Que me importa!... Sou feliz, ao menos hoje!...
      Adelaide, no obstante mostrar-se sempre risonha e acessvel a todos os outros estudantes, e em particular a Azevedo, ao menos naquele dia  pensava muito em 
Belmiro, pobre provinciano simples e negligentemente trajado, que mais parecia um caipira, que um estudante. Adelaide, no sei porque, achava-lhe um no sei o que, 
que revelava uma adorao ntima, sincera e profunda.
      Viera-lhe  mente a caprichosa idia de conversar a ss com Belmiro, e ela era moa de tmpera a no deixar de satisfazer a um dos seus menores caprichos. 
Conversara a ss tanto tempo com Azevedo, que muito era que conversasse tambm com Belmiro! Ente o primeiro servio e a sobremesa achou o pretexto para retirar-se 
da mesa, e disfaradamente dirigir-se ao quarto do enfermo. Se dissimulou seus passos, no foi com receio do pai, que cheio de complacncia e confiana no lhe tolhia 
o menor movimento em casa, mas para furtar-se s vistas maliciosas e escrutadoras dos estudantes, e principalmente de Azevedo, que a no perdia de vista.
      Belmiro estava no melhor de suas cismas amorosas, quando ouviu rugir um vestido de seda pelos corredores, e aps instantes entrar-lhe pelo quarto a figura 
deslumbrante e arrebatadora de Adelaide. Foi como uma apario sobrenatural, que o teria feito cair fulminado, se no estivesse estendido na cama com o brao acotovelado 
sobre o travesseiro. Abriu bem os olhos, passou a mo pela testa para convencer-se que no estava sonhando ou delirando, e com olhar radiante de beatitude ficou 
embasbacado a olhar para a moa.  verdade que no deixava de ter um ar algum tanto apalermado; mas a moa nem reparou nisso, e foi logo lhe dirigindo a palavra.
      - Ento, como vai o p, Sr. Belmiro? - disse ela.
      - Do p, minha senhora, vou melhor... mas... muito mal do corao.
      - Como assim?... Pois o tombo tambm lhe ofendeu o corao?
      - Oh! minha senhora, no quer entender-me?
      - Pois que quer o senhor que eu entenda?
      - Ah!... no tenho nimo de lhe dizer.
      - Diga, diga; no faa cerimnia... se lhe falta alguma coisa...
      - No; nada me falta.
      - Pois ento o que  que o aflige?...
      - Permite que lhe diga uma coisa?...
      - Diga, e j, pois bem v que no posso demorar-me...
      - Pois bem, a senhora foi a causa, inocente,  verdade, do tombo que levei!
      - Que me diz! Eu? Eu, a causa do seu tombo? Exclamou Adelaide, recuando um passo.
      - Sim, a senhora! Mas no se enfade comigo, e no se aflija com to pouco. Esse tombo foi para mim uma fortuna.
      - Oh! cada vez o entendo menos.
      - Eu lhe explico tudo, minha senhora. Quando a senhora ficou a ouvir as prosas de Azevedo, enquanto eu e meus companheiros subamos s jabuticabeiras, eu no 
os perdia de vista, e ficava a morder-me de inveja do meu companheiro. Mas quando a senhora, tirando dos seus cabelos a flor, que eu lhe tinha dado, a entregou ao 
Azevedo, no fui mais senhor de mim, perdi a cabea, no sabia onde punha o p, e querendo desde, pises em falso e dei comigo em terra!...
      - Ah! meu Deus! mas eu no podia adivinhar, e nem eu me lembrava que foi o senhor que me deu semelhante flor.
      - Deveras? Isso por um lado me entristece, mas por outro me consola.
      - Eram os senhores todos a oferecer-me flores. Eu as ia pondo sem reparar, uma no peito, outra na boca,  guisa de palito, outra no seio, outra no cabelo... 
Fiquei com medo de morrer abafada debaixo de tantas flores.
      - Oh! minha senhora!...
      - Escute ainda. O Sr. Azevedo pediu-me a flor que eu trazia no cabelo. Quando eu a tirei da cabea, e vi que era... que era...
      - Um cravo caboclo?
      - Sim, senhor. Por que razo o senhor escolheu para mim uma flor to feia?
      - Feia, minha senhora? No lhe acho razo. Na cor, na forma e no perfume me parece uma das mais mimosas.
      - Pode ser; mas eu no gosto dela.
      Ah! queira perdoar-me; mas eu tambm no adivinhava...
      - Pois bem! - disse Adelaide, apresentando a Belmiro um vaso de flores, que estava sobre uma mesa. - Escolha aqui uma flor qualquer, e me de para por na cabea 
em lugar da outra, e me perdoe se sem querer fui a causa do seu tombo.
      - Perdoar eu, minha senhora? Perdoar o que, se s tenho motivo para render-lhe infinitos agradecimentos? Se no fosse esse tombo, teria eu a ventura de estar 
aqui com a senhora recebendo tantas provas de interesse e de... de... compaixo?
      Dizendo isto, o estudante tirou do vaso uma rosa, que entreabria com todo o vio e frescor, e a entregou a Adelaide, depois de ter deposto nas ptalas da flor 
uma beijo soberanamente buclico. Adelaide prendeu-a cuidadosamente nas tranas, e despediu-se com um sorriso, que at hoje no sabemos que expresso tinha.
      - Bendito tombo! - exclamou Belmiro no mais lrico e entusistico arroubo, levantando as mos ao cu, logo que se esvaram o som das passadas e o rugir das 
sedas de Adelaide. - Tombo imortal! tombo Homrico! tombo digno de uma epopia! Graas a ti eu, o terceiranista mal amanhado, meto hoje em um chinelo meus guapos 
e vaidosos companheiros. No, tu no foste uma queda; foste uma verdadeira ascenso para as regies olmpicas! Tu me ergueste ao empreo nas asas do amor e da esperana. 
Tomara j ver as caras de asno com que ho de ficar meus colegas!... Como j me estou rindo interiormente  custa deles!... Com seus ditinhos, lisonjas, galanteios 
e namoros delambidos, no conseguiro o que eu consegui com um simples tombo! Mas no quero por modo algum que saibam do meu triunfo. Nem por sombras comprometer 
o nome puro da minha suave e encantadora Adelaide! Nosso amor deve ser misterioso e puro como a lmpada de um santurio. Revel-lo a estes devassos seria at uma 
profanao.
      Nestes beatficos devaneios, veio interrompe-lo o Azevedo, que lhe entrou pelo quarto com ar zombeteiro e triunfante.

Captulo VII

Sem Ttulo

      - Ol! meu sonso!... Ento, como vais desse p? - disse Azevedo, sentando-se  beira da cama. Anda l! bem feito!... Quiseste ficar assim uma espcie de acrobata 
para agradar s meninas, e eis o que te aconteceu! Objeto de riso e compaixo... Deves reconhecer que ests fazendo uma triste figura!...
      -  verdade, Azevedo, bem triste... ai! meu p...
      - Manhoso!...
      - Oh! no! Est doendo deveras...
      - No di nada, magano... Pensa que no te compreendo? Tu te deixaste cair para te tornares objeto de ateno, visto que a tua figura no  - aqui entre ns, 
no te agastes comigo - no  das mais atrativas.
      - Ah! meu Deus, eu deixar-me cair! E esta!... Que lembrana!... S tu poderias ter idia to mefistoflica. Mas juro-te que, se essa idia me viesse ao esprito, 
e eu adivinhasse que produziria to bons resultados, eu era capaz de p-la em prtica.
      - Resultados... Que resultados pateta? Inspiraste compaixo, e nada mais. Se visses como na mesa nos divertimos todos  tua custa!... E na verdade, sem o episdio 
de tua queda, a funo no teria corrido to divertida. Ela veio dar-lhe uma sainete admirvel...
      - Deveras? Muito estimo... Ao menos a minha queda serviu para alguma coisa.
      - Quando te levantaste todo sarapantado, vermelho como um camaro e cheio de folhio, no fazer idia da figura que fizeste... Parecias um jacar. Uma das 
moas disse que ficaste com cara de laranja azeda...
      - Ora! que me importam as sandices daquelas saloias! Uma vez que D. Adelaide...
      - Oh! D. Adelaide... Essa foi quem mais se riu...
      - Que me importa! Essa pode rir-se de mim, ou para mim. Em que tudo me d gosto. Adoro-a, porque  uma divindade. S a presena dela  para mim um gozo inefvel. 
Mereo-lhe compaixo?  quanto me basta.
      - Ah!... e por isso caste! Mas no penses que c hs de pernoitar sozinho, para te entreteres a teu gosto com a tua divindade. J tomei minhas medidas. C 
fico para te fazer companhia. J falei ao major, que aprovou a minha idia. E assim ficas tu, e eu tambm fico; tu aleijado e desprezado, e eu querido, so e idolatrado...
      - Ficar? Que bom!... Rendo-te tambm da minha parte infinitos agradecimentos. Que noite terrvel eu teria de passar sozinho neste quarto... Mas, dize-me c 
uma coisa: se, como dizes, ela me despreza e nenhum caso faz de mim, por que  que assim te mostras meu rival, e rival enraivado e ciumento?
      - Ciumento? Eu ter cimes de ti? Que fatuidade! No compreendes que tua enfermidade  apenas um pretexto, de que me prevaleo, para ficar tambm junto dela? 
 noite, ters ainda o prazer de presenciar nosso namoro, como j presenciaste de dia. O primeiro foi talvez a causa de perderes o equilbrio e destroncares o p. 
O segundo te h de curar;  cura homeoptica.
      - E tens certeza de que ela corresponde sinceramente, Azevedo?
      - Oh! se tenho... Pois no viste? E se queres uma prova, aqui est - disse Azevedo, tirando do bolso um cravo caboclo, que apresentou bem perto dos olhos de 
Belmiro.
      - Conheces esta flor?
      - Oh! se conheo - respondeu Belmiro desorientado e querendo orientar-se. Ofereci  D. Adelaide um cravo semelhante a este, quando estivemos no jardim. Ser 
o mesmo?
      - O mesmssimo, meu palerma. Como tiveste a imbecilidade de oferecer  D. Adelaide semelhante flor?
      - Pois que tem de mau essa flor?  to bonita, e parece-se tanto com ela!...
      - Pois  por isso mesmo,  pateta! Fizeste-lhe um terrvel epigrama.
      - Epigrama! Como assim? - replicou Belmiro, embasbacado.
      - Fica sabendo, meu simplrio, j que no tens penetrao para coisa alguma, que D. Adelaide, a despeito de sua cor sofrivelmente tisnada, tem fumos de branquidade 
e fidalguia; acredita piamente que seu sangue no tem mescla alguma de africano nem caboclo... Se no s de todo idiota, bem podes compreender que s a palavra - 
caboclo - lhe di mais nos ouvidos do que te di esse p...
      - Ah!... no sabia disso. 
      - No sabias, mas bem o sei eu, e no h em S. Paulo quem o ignore. Vou agora pr-te ao fato da linhagem do nosso anfitrio. O major  caboclo quase puro-sangue, 
como bem est revelando o seu todo. A respeito de sua procedncia, s se sabe que  natural de Curitiba e filho de um cigano, e nada mais. Quanto ao lado materno, 
a estirpe de D. Adelaide procede ainda de mais baixa estopa. A me dela, de que o major h muito tempo  vivo, segundo a voz geral, no passava de uma linda mulata, 
filha de uma negra mina, e foi alforriada na pia batismal.
      - O que ests a dizer, Azevedo, no  possvel. Tudo isso pode ser mera inveno de alguns desafeioados.
      -  a pura verdade. Todo o povo de S. Paulo sabe muito bem disso, s o major no quer que isso assim seja. Quanto  filha,  bem possvel que realmente ignore 
sua ilustre genealogia, que o pai ter tido todo o cuidado de ocultar-lhe. O major pretende ser descendente de Bartolomeu Bueno e parente chegado dos Andradas. Hs 
de reparar que no fala neles sem dizer - o primo Jos Bonifcio, o primo Antnio Carlos, etc. Essa balda de fidalguia  nele de tal melindre, que ai! daquele que 
com a mais ligeira aluso, mesmo sem querer, a tenha ofendido!...
      A estas palavras, Belmiro a principio ficou aterrado; mas imediatamente lembrou-se que Adelaide, com delicada generosidade, j lhe tinha perdoado a involuntria 
ofensa, e recobrou toda sua seguridade.
      
      - Esta balda - continuou Azevedo - ele a comunicou, ou antes a inoculou no esprito de sua filha, quer pelo sangue, quer pela educao. Eis a por que, com 
o teu desastrado cravo caboclo, sem querer vibraste contra ela o mais acerado epigrama.
      - Ora esta!... E eu pensava em lisonje-la!... Se tivesse de fazer-lhe uma poesia, infalivelmente havia de compar-la ao jambo, e  rola dos pomares, e coloc-la 
a par de Moema ou de Lindia.
      - Pois eu que lhe conheo a balda a comparo sempre ao lrio,  neve, ao marfim, e creio que, se lhe desse mesmo beios e olhos brancos, no se enfadaria tanto, 
como com essas tuas cores amorenadas.
      Belmiro sacudiu os ombros como quem diz -  que me importa.
      - Mas escuta, Azevedo - disse ele, olhando de esgoela para seu interlocutor - ainda h pouco vi de relance D. Adelaide passar por ali rapidamente, e pareceu-me 
que trazia na cabea uma outra flor... uma rosa, se no me enganei.
      - Justamente! uma rosa mal aberta;  smbolo, que escolhi para ela, e dei-lhe em troco do teu mal-aventurado cravo caboclo.
      Aqui Belmiro, a muito custo, pode conter o riso, e contentou-se com rir-se mentalmente  custa da mentira do Azevedo.
      - Bem -  disse ele -  quem me avisa meu amigo ; daqui em diante, serei mais acautelado.
      - Perdes teu tempo - replicou Azevedo. Uma paulista, e sobretudo uma paulista da tmpera de D. Adelaide, nunca perdoa um desacato destes.
      - Mau  isto! - murmurou Belmiro, fazendo ainda extremos esforos para no rir-se, e teria desatado uma gargalhada s bochechas de Azevedo, se subitamente 
o quarto no fosse invadido pelo resto da companhia, que ali se instalou alegre e folgadamente em uma tagarelice nunca interrompida at o pr do sol, hora em que 
os estudantes se despediram, ficando o Belmiro e o Azevedo. O major fez-lhes os mais obsequiosos oferecimentos, e disse-lhes modestamente que quando quisessem passar 
mal uma tarde, viessem  sua casa, que lhe dariam muito prazer. A famlia do Tenente Andr, como era da vizinhana, ficou ainda.
 
Captulo VIII
Influncia de um violo

      A rivalidade, nascida nessa tarde entre os dois estudantes, era efmera e frvola, como de ordinrio so todas as idias e sentimentos que se geram no crebro 
escaldado e no corao bandoleiro dessa espcie de gente. Fundava-se ela por um lado a caprichosa veleidade de Azevedo, que, mais por vaidade do que por amor, e 
em razo de suas antigas relaes na casa, se julgava com uma espcie de direito adquirido  predileo da moa; e por outro, na imaginao impressionvel e mrbida 
sensibilidade de Belmiro. Este - natureza ardente e apaixonada, nutrida na solido entre sonhos de volpia infinda, ficara profundamente impressionado pela provocadora 
beleza de Adelaide, e julgava ter encontrado nela a encarnao ideal de seus sonhos. Acorooado pelas provas de afeio que ela lhe dera, j ousava alimentar na 
fantasia as mais rosadas esperanas. Adelaide era formosa, rica e filha nica, e parecia disposta a am-lo; a idia de casamento lhe esvoaava j pela mente com 
suas asas de ouro e azul, e o fazia entontecer de contentamento.
      Oh! era um sonho brilhante!... Se tal sonho se realizasse, a poesia, de mos dadas com o amor feliz, as artes, as letras, as cincias, lhe iam abrir de par 
em par as portas de ouro de seus templos magnficos, e ento, adeus pobreza, adeus Academia, adeus enfadonhos e empoados livros de direito! Que importava que, na 
genealogia de sua amada houvesse, como dizia o Azevedo, mescla de sangue caboclo e africano? Se realmente ela participava das duas raas, era evidente que deixara 
com seus ascendentes o que nelas h de ruim, grosseiro e imperfeito, e s herdara o que porventura nelas h de bom, de belo e de perfeito. Por fim, que significava 
aos olhos de um jovem poeta e filsofo sectrio de J. J. Rousseau, alguma gota de sangue servil que circulasse nas veias de Adelaide? A divisa do filsofo de Genebra 
- liberdade, igualdade, fraternidade, no admite tal mcula.
      Azevedo, que j h muito entretinha relaes com o major e fazia a corte  filha, que sempre acolhera com fagueira amabilidade suas homenagens, no tinha hesitado 
em levar seus amigos a casa deste sem o menor receio de encontrar em nenhum deles um rival que lhe pudesse fazer sombra. Foi portanto com bastante descontentamento 
e despeito, e mesmo com cime, que notou o interesse e ateno que comeava a merecer da moa aquele de seus colegas, de cuja concorrncia menos tinha que recear.
      Por isso, procurava por todos os meios expor ao ridculo a pessoa e a queda de Belmiro, a qual com grande desgosto seu o ia tornando cada vez mais o objeto 
da ateno e solicitude de Adelaide. Foi pois com esse fim que o maligno estudante, pungido pelo despeito e pelo cime, teve a satnica idia de no deix-lo pernoitar 
s em casa do major.
      O feitio porm ia saindo contra o feiticeiro. Retirados os mais estudantes, e depois de noite fechada, reuniram-se de novo as famlias do major e do Tenente 
Andr no quarto em que se achavam Azevedo e Belmiro. Depois de muita palestra banal, aconteceu cair a conversao sobre a msica.
      - Adelaide toca piano e canta sofrivelmente - disse o major. - Se no fosse a doena do p aqui do amigo poderamos ir  sala, para ouvirmos um pouco...
      - Qual piano, papai! - atalhou Adelaide com modstia. - H que tempo eu nem abro o meu piano!... Nem sei mais como se toca. Cantar?... Nem falar nisso! H 
quinze dias to endefluxada, que me no  possvel levar de vencida dois compassos sem tossir...
      Aqui ela provocou uma tossezinha manhosa para justificar-se.
      - Mas - prosseguiu ela - o Sr. Azevedo, que  da corte, deve de certo saber bastante msica, e talvez queira tocar alguma coisa. 
      A estas palavras Azevedo, que, no obstante sua brilhante imaginao e inteligncia superior, nada petiscava de msica prtica nem terica, mudou de cor, e 
apesar de seu grande desembarao e presena de esprito, sentiu-se algum tanto desapontado. Quanto no daria ele naquele instante para saber dois dedos de msica 
e piano!... Com que prazer no deixaria Belmiro sozinho no quarto com o seu p destroncado, enquanto ele iria para a sala divertir-se com a companhia. Mas no tinha 
ainda perdido as esperanas; contava ainda, a poder de instncias e rogos, seduzir Adelaide a ir para a sala sentar-se ao piano.
      - Eu, minha senhora - respondeu ele com alguma hesitao -  no deixo de apreciar msica, mas nunca me apliquei a esse estudo, nem tenho jeito algum para semelhante 
arte. Gosto muito da msica dramtica nos teatros da Corte. Isso  bom aqui para o amigo Belmiro, que  o menestrel obrigado e indefectvel em todos os pagodes e 
serenatas de estudantes. Canta que nem um besouro, mas infelizmente no sabe tocar seno o clssico violo.
      - Bravo! que bom! - exclamou Adelaide, batendo palmas de contentamento. - Ento, o senhor toca violo?
      - Algum tanto, minha senhora - respondeu Belmiro.
      - Pois temos a um muito bom e novo, que papai comprou para mim... Gosto muito do violo; acho mais bonito do que o piano. Tenho tambm o mtodo; s me falta 
um mestre. O senhor toca por msica?...
      - Sim senhora.
      - Oh!... eu tambm desejo aprender por msica... Lucinda, vai buscar meu violo. Que belo!  escusado irmos  aula, para tocar violo; no  preciso o senhor 
mover-se da... No  assim, sr. Belmiro?
      - s mil maravilhas! - exclamou o major tambm contentssimo. - A Adelaide j me tem quebrado os ouvidos com tanto piano, que j ando aborrecido. Vamos l! 
tragam j o violo! O senhor, decerto, canta tambm suas modinhas... Estas moas tambm cantam, e o senhor pode acompanh-las.
      O Azevedo foi pelos ares com essa nova fase, por que ia passar - por culpa sua! - aquela reunio. Dava a mil diabos o momento em que se lembrara de falar em 
violo. Ia ficar esquecido a um canto, ao passo que seu rival, que j era alvo de tantas atenes, ia se tornar com mais esta exibio o verdadeiro heri de festa, 
pois bem sabia que Belmiro tocava magistralmente o violo e possua excelente voz, sonora e apaixonada.
      Oh! mas ele no adivinhava que na casa havia um violo. Assim, querendo deprimir o seu rival, ps-lhe nas mos uma arma com que iria acabar de suplant-lo.
      A escrava apareceu, trazendo um rico violo, encordoado de novo, que Adelaide tomou e foi pessoalmente entregar a Belmiro, que o recebeu com ares de um verdadeiro 
trovador. Da a momentos o quarto retumbou ao som dos mais harmnicos e maviosos acordes. O major, Adelaide, o Tenente Andr e suas filhas vieram logo em frente 
da cama, onde Belmiro, como um Apolo em seu carro triunfal, empunhava o meldico instrumento. Os prprios escravos vieram apinhar-se  porta do quarto para escutarem. 
Azevedo sentia calafrios e procurava, em vo provocando conversaes banais, distrair a ateno das moas dos magnficos e melodiosos arpejos, enquanto Belmiro deixava 
os dedos errarem como a descuido pelas cordas do instrumento.
      - No nos h de dar o gosto de cantar tambm alguma coisa? - perguntou Adelaide.
      - Oh! minha senhora, tenho uma pssima voz: o Azevedo, quando lhe disse que canto como um besouro, disse a pura verdade.
      - No acredito, perdoe-me; apesar de o dizer o Sr. Azevedo, que bem sei como gosta de caoar. Cante sempre; do contrrio nenhuma destas minhas amigas ter 
nimo de cantar.
      - Pois bem, no me farei de rogado. Obedeo, porque enfim de contas o zumbido de um besouro no  l das coisas mais desagradveis de se ouvir. Espero que 
as senhoras com suas vozes suaves destruiro depois o mau efeito do meu canto.
      Belmiro limpou a goela, harpejou um pouco com os olhos fitos no teto, baixou-os depois, e com voz sonora, expressiva e apaixonada, cantou uma dessas modinhas 
lagrimosas, repassadas de queixas, ais de suspiros, que ento, como at hoje, estavam em voga.
      Ao terminar, bravos e palmas acolheram o cantor. Adelaide ficou enlevada, e depois, dirigindo-se a Azevedo: 
      - Ento? que tal acha? Confesse que, se os besouros cantam assim, vale bem a pena t-los na gaiola  nossa janela.
      - Decerto, minha senhora - respondeu Azevedo algum tanto desconcertado - principalmente esse, que  j um besouro domesticado. Eu j sabia que o Belmiro no 
canta mal; mas se a senhora ouvisse um meu patrcio e colega, chamado Couto... Oh! que rapaz prodigioso!... A  que era ver o que  percia, habilidade e perfeio. 
Se eu soubesse que a senhora  to apaixonada pela msica, e especialmente pelo violo, j o tinha trazido aqui. Mesmo no Rio passa por uma notabilidade. Se o major 
permite...
      - Por que no? - atalhou o major. - Pode estar certo que todo aquele que aqui for apresentado pelo senhor, ser sempre bem recebido.
      - No duvido - disse Adelaide - que esse Sr. Couto seja o que o senhor diz; mas enquanto c no vem vamos ouvindo aqui o Sr. Belmiro. Que dizem, minhas amigas?
      -  exato - respondeu uma delas. - O Sr. Belmiro tem uma voz bem bonita. Cante mais uma modinha agora sou eu quem lhe peo. 
      O Belmiro no teve mais descanso, cantou at s dez horas da noite, e quase esgotou seu repertrio de modinhas e lundus. Azevedo, para quem aquele sarau musical 
se ia tornando o mais abominvel dos suplcios, colocado entre Adelaide e as filhas do Tenente Andr, no cessava de importun-las com chacotas e epigramas contra 
o pobre Belmiro, procurando distrair-lhes a ateno.
      - Se ao menos ele no fizesse aqueles trejeitos de mono velho - ia ele cochichando  direita e  esquerda. - Minha senhora, por quem , no lhe olhe para a 
cara, porque assim se destri todo o efeito da audio. Eu achava mais prudente que o tivessem feito cantar atrs de alguma porta... Que berro desentoado deu ele 
agora!... Nem um touro a bramir... E agora.... ouam que melria! Eu me derreteria em pranto, se no fosse a figura do cantor.
      As filhas do tenente, que no tinham o mesmo esprito, nem nutriam os mesmos sentimentos da filha do major, no deixavam de aplaudir o Azevedo com risotas 
abafadas e momos mofadores. Como no seria assim? Desejavam captar as atenes do estudante, decerto para indeniz-lo da indiferena de Adelaide, que lhe respondia 
umas vezes com o silncio, e outras com um - "Ora!... deixe-me ouvir".
      - E ento?...  chegada ou no a sua vez minhas ricas? - disse o major, dirigindo-se s filhas do Tenente Andr. - Tambm queremos ouvi-las. O Sr. Belmiro, 
alm de doente, j deve estar cansado.
      As filhas do tenente, depois de muito instadas e rogadas, foram-se como que deixando arrastar para junto de Belmiro entre momos e cados, e cada uma esgoelou 
como pode a modinha, que graas  desafinao e falta de compasso, puseram os ouvintes em debandada e o acompanhador em torturas. Todavia, obtiveram de Azevedo entusisticos 
aplausos, que por cortesia foram confirmados por todos.
      Chegou a vez de Adelaide.
      - Agora - disse Azevedo, dirigindo-se a ela - compete  senhora fechar esta filarmnica com chave de ouro.
      - Nesse caso, deve ser com a mesma com que foi aberta. - retorquiu ela, olhando para Belmiro.
      - No, senhora - acudiu este. - j  tarde, e ser-nos-ia muito agradvel adormecer aos acentos da voz de um anjo.
      Adelaide no podia recusar-se; foi sentar-se no leito ao p de Belmiro. O pudor virginal radiava encantador em toda sua figura; os olhos baixos nadavam em 
luz meiga; as faces ardiam em rubor; os seios empolavam-se a ofegarem de enleio e timidez. Quando, sentada bem junto de Belmiro, lhe falava em voz baixa, quando 
seus hlitos se confundiam, e suas faces quase se tocavam, enquanto Belmiro apalpava de leve as cordas do instrumento, ensaiando e cantarolando com ela  meia voz 
a cano, que ia executar, Azevedo quase estourando de inveja e de cime no pode conter um de seus costumados remoques.
      - Deixe-te de charlatanices musicais, meu Belmiro! - exclamou ele. - Faze a senhora cantar. Se no te atreves a acompanh-la, fica a em paz, e ns iremos 
ouvi-la ao piano.
      - No, senhor - redargiu Adelaide. - H de ser aqui mesmo. No estou acostumada a acompanhar-me ao piano, e o Sr. Belmiro acompanha maravilhosamente no violo. 
      Azevedo amuou-se e no disse mais palavra. Adelaide cantou uma linda canoneta, em que brilhou mais pela beleza de sua figura que pelo timbre fresco e argentino 
de sua voz, do que pelo bom gosto e mestria da execuo.
      - Naturalmente - disse ela a Azevedo, apenas terminou - o senhor, que comparou o Sr. Belmiro a um besouro, agora l em sua mente me est comparando a uma cigarra.
      - Oh! pelo amor de Deus, minha senhora, no profira mais tal blasfmia! No h o menor paralelo. A senhora dispe de uma voz deliciosa; o que lhe falta  escola. 
Se a senhora quisesse tomar algumas lies de canto com o meu amigo Couto, de quem h pouco lhe falei, em pouco tempo estaria cantando de modo a fazer inveja a qualquer 
prima-dona...
      - Oh! obrigada! - interrompeu Adelaide. - No tenho essas pretenses. Se meu pai consentisse que o Sr. Belmiro me desse algumas lies de violo...
      - E por que no, minha filha?A dvida  o senhor querer tomar esse incmodo.
      - Com muito prazer - acudiu Belmiro. - No tardamos a entrar em frias, e como no vou  provncia, pouco me custa vir c algumas vezes.
      - Aceitamos - disse o major com mostras de satisfao. - Toda vez que quiser dar um passeio a esta casa, o receberemos com muito prazer.
      No  preciso dizer em que deplorvel estado esse ajuste final deixou a nobre alma de Azevedo. Se Belmiro adormeceu entre vises de ouro e rosas, Azevedo apenas 
dormiu sono agitado, com o peito comprimido pela pesada manopla do despeito e do cime, meditando torvas e sinistras vinganas.

Captulo IX

Conspirao

      No dia seguinte, Belmiro apresentou-se na Academia coxeando e quase arrastando a perna, dependurado ao brao do Silva, um de seus companheiros de casa. Estava-se 
no fim do ano letivo, e, crivado de pontos como ele se achava, o pobre jogral no podia dar mais falta sem arriscar-se muito a uma reprovao. Eis a razo por que, 
apesar da viva oposio do major e sua filha, viera ao romper do dia para a cidade em companhia de Azevedo, e resignara-se a apresentar-se na Academia naquele lastimoso 
estado, atraindo a ateno de seus colegas e de toda a classe acadmica. Bem desejava ocultar os acontecimentos, pretextando algum reumatismo, calo, pereba ou qualquer 
outro incmodo; mas ali estavam o Azevedo e os mais companheiros de pagode, que no deixariam de divulgar todo o acontecido e com todas as minudncias. Imediatamente 
Belmiro e o seu Cirineu se viram rodeados de uma turba curiosa e investigadora.
      Azevedo, ao voltar da chcara do major, depois de ter levado seus companheiro at a porta de sua casa na Rua da Constituio, dirigiu-se para a sua, depois 
de lhe ter aconselhado e recomendado muito que no faltasse  aula. Nesse dia Azevedo foi para a Academia mais cedo do que lhe era mister; ia de nimo a por em prtica 
a vingana que de noite havia premeditado. Consistia ela em arrebanhar e prevenir uma scia de garotos seus conhecidos a fim de expor o Belmiro em plena Academia 
a mais solene e cruel das caoadas. Pretendia assim tomar cabal desforra da derrota, por que passara na vspera, e burlar para sempre o recente namoro de seu colega.
      Logo que viu Belmiro entrar no largo da Academia, adiantou-se a ir oferecer-lhe tambm o seu brao, aparentemente com mostras de cuidado e interesse, mas realmente 
tom-lo a sua conta, e levar a efeito seus satnicos desgnios.
      Para logo uma nuvem de estudantes, que cada vez mais ia se condensando, formou-se em derredor deles,  e quase os abafavam debaixo de um chuveiro de exclamaes, 
chufas e perguntas.
      - Que diabo tem o Belmiro no p? Levou alguma trepada?...
      - Ah! coitado! No v ser algum reumatismo.
      - Ora! qual reumatismo! Isso h de ser algum coice hein, Belmiro?
      - Nada! d c o p, deixa ver. Quem sabe se  algum bicho apostemado.
      A tantas perguntas, que se atropelavam sem dar tempo  resposta, Belmiro conservava-se silencioso, e Azevedo, com um riso sardnico e certo piscar de olhos, 
dava a entender que ali andava qualquer coisa de misterioso. Conservou-se de propsito calado por muito tempo, at que se aumentasse consideravelmente a roda dos 
curiosos. Ento, como para se ver livre de tantas importunaes, comeou a desenrolar a histria da funo da vspera e do tombo de Belmiro.
      - C o manago - dizia ele - quis se fazer de menino para dar nas vistas e agradar s belas, e tentando trepar aos ltimos galhos de uma jabuticabeira, ai! 
coitado! pobre cavaleiro da triste figura! no melhor da festa, faltaram-lhe as pernas, e desabou l de cima como um pedao de cu velho, ou antes como um mono mal 
atirado, e veio cair redondamente a meus ps e de D. Adelaide, que quase morreu de susto com tal brincadeira.
      Entre estrondosas gargalhadas, o Azevedo foi continuando nesse gosto a narrar e comentar os acontecimentos da vspera.
      Belmiro, que quando se achava entre seus ntimos sempre tinha algum esprito e desembarao, achava-se completamente tolhido no meio daquela saraivada de ditos 
e apupadas de tanta gente, que mal conhecia. Debalde invocava a imagem da formosa Adelaide, lembrando-se da preferncia com que, no dia antecedente, o havia distinguido; 
debalde forcejava por mostrar-se calmo e sobranceiro s chufas e motejos dos acadmicos. Cada vez mais perturbado, suando e rubro como lacre, no sabia articular 
a mnima rplica. Para cmulo de males, seu p doente no lhe permitia efetuar uma pronta fuga, nico meio de esquivar-se ao fogo cruzado de tantos olhares petulantes, 
de tantos risos galhofeiros: foroso lhe era suportar a p firme toda essa mortificante metralhada.
      - Mas isto ainda no  tudo - continuou Azevedo, cujo despeito no se limitava s  pessoa de Belmiro, e estava talvez ainda mais ntimo e profundo contra 
a inocente Adelaide. - H ainda mais uma coisa; coisa assombrosa, a que decerto vocs no querero dar crdito...
      - Mas que coisa? Fala, Azevedo!
      - Coisa que a mim mesmo custa acreditar, posto que meus olhos vissem, meus ouvidos ouvissem...
      - Mas que coisa? Fala com mil diabos, Azevedo!
      - Eu j lhes digo; tenham pacincia. O caso  que a pobre da moa, mordida no sei de que gosto depravado, mostrou-se toda apaixonada por este mono, que aqui 
vedes!   
      - Deveras? No  possvel! Ou tu ests caoando conosco, ou ento ela o debicava.
      - No  caoada, sou eu que vos afiano e juro...
      - Qual! qual! no  possvel, queres nos debicar tambm, Azevedo.
      -  a pura verdade. Tratou-o com todo o mimo, e  noite, como l havia um violo, o ps a cantar, o que acabou de embasbac-la.
      - No, no, no  possvel; no posso acreditar - insistiram quase todos.
      - E por que no? - exclamou do meio da turba um segundanista quase imberbe, puxando as pontas de uns bigodinhos ainda em embrio. - Nisso nada h que admirar. 
Conheo perfeitamente a tal D. Adelaide e a sua procedncia.  na verdade uma bonita mocetona; mas tem os instintos da raa. O sangue africano, que lhe gira nas 
veias, faz com que no tenha l muito bom gosto na escolha dos amantes. O ano passado, entrei em relaes com o Major Damsio, pai da sobredita, e um dos mais extravagantes 
originais, que tenho conhecido, e comecei a apaixonar-me realmente pela filha. Mas logo percebi que com ela perdia meu tempo e minhas finezas. Talvez vocs visse 
por l um sujeitinho vivo, esbelto, um caboclo de olhos cintilantes, assim  maneira do gacho...
      Azevedo e Belmiro olharam um para o outro de um modo significativo, e de feito se lembraram que viram por vezes, de relance, girando pela casa do major, um 
caipira, ainda moo, esbelto e de bonita presena, a que no deram muita ateno, e julgaram ser algum hspede de pouca importncia, ou algum arrieiro do major. 
Entretanto, no deixaram de refletir que durante sua estada na chcara, o tal moo aparecia e desaparecia a mido com certo ar desconfiado e sombrio.
      - E  verdade - disse Belmiro. - No te lembras, Azevedo, de ter visto l esse sujeito?
      - Perfeitamente e por sinal que nos no olhava com bons olhos. Mas que tem esse sujeito, capataz ou arrieiro, como me parece, com D. Adelaide? - continuou 
Azevedo, dirigindo-se ao supramencionado segundanista.
      - O que tem? - respondeu este. - Nada;  simplesmente o seu amante.
      - No creias tal - replicou visivelmente molestado por essa revelao o Azevedo, que ao menos, at  vspera daquele dia, se julgara na posse exclusiva da 
afeio de Adelaide, e no podia acreditar na existncia de um rival de to baixa extrao. - Quem te disse isso?
      - Ningum, meus olhos viram. No sou to asno, que no perceba o amor onde ele existe. Afirmo-lhes; esse capataz  o amante de Adelaide, e o que mais  amante 
amado.
      - Mas quem  ele? Ser algum primo?
      - Qual primo!  um domador de burros, que o major trouxe de Curitiba. Mas isso que importa? Se o rapaz  caboclo, o major tambm o , e demais disso  cigano 
de pura raa, como todo mundo sabe: l com l, cr com cr.
      - Cuidado com tua pele, meu Belmiro! - exclamou um da turba. - Repara quem pretendes tirar do lance... Tens um valento pela proa; esses curitibanos no so 
para graas.
      Assim continuaram por algum tempo os motejos daquela turba desalmada  custa do major, de sua filha e do curitibano; motejos de que o prprio Azevedo j no 
estava gostando muito. Quanto a Belmiro, esse, com o corao ainda a palpitar com a terna recordao dos mimos de Adelaide, sentia revoltarem-se as entranhas, e 
estava a ponto de sair em campo para desafrontar a reputao de gentil paulista, to pblica e atrozmente atassalhada por aquela horda de maldizentes. Conteve-se 
porm nos recantos de seu natural acanhamento, refletindo que aquilo bem podia ser o comeo de uma aventura em que, sem o pensar e sem o querer, iria representar 
uma das principais figuras, e envolver-se talvez em bem maus lenis. Obedecendo, pois, no s  inflexo como  sua prpria ndole, entendeu que melhor seria no 
tomar parte alguma na discusso, e nem sair a campo qual novo D. Quixote a romper lanas por uma Dulcinia, que apenas conhecia da vspera.
      Uma palavra de Azevedo, palavra calculada e adrede insinuada nos ouvidos de Belmiro para os devidos efeitos, o fez subitamente mudar de deliberao.
      - Covarde - disse-lhe ele, ao ouvido. - Pois deixas assim ser profanado e atassalhado por esta corja de biltres o nome daquela que ainda ontem, vendo-te pela 
primeira vez, te tratou com tanta distino e carinho? Ah! se ela o souber!...
      Belmiro corou at os olhos; compreendeu que era mesmo desairoso e at ignbil da sua parte no dizer uma s palavra em desafronta daquela que lhe havia testemunhado 
tanto afeto e predileo, e chamando em seu auxlio a pouca presena de esprito, que ainda lhe restava:
      - Meus amigos - disse - no devemos fazer juzos temerrios...
      - A temos moralidade! Fora o pregador! fora o namorado sermonista... Por a no vai bem!
      Com estas e outras exclamaes abafaram a voz de Belmiro.
      - Deixem-no falar, com mil diabos! - gritou o Azevedo, zangado. - Atendam, que at agora ainda no proferiu palavra.
      - Pois bem, meus senhores - exclamou Belmiro um pouco animado com o auxlio que Azevedo parecia prestar-lhe. - Posso afianar-lhes que todos esses ditrios, 
que andam assoalhando contra o major e sua filha, no passam de miserveis e indignos aleives. Se o senhor duvida - acrescentou, dirigindo-se ao moo de bigodinho 
- pode ir conosco l no domingo. O major autorizou-nos a convidarmos quem quisermos; e ter ocasio de reconhecer que tudo isso no passa de um desprezvel embuste, 
filho talvez do despeito de algum que tomou tbua.
      Oh! oh! como est arrogante o malandro! - retorquiu o mocinho do bigode, tomando para si a carapua. - Havemos de ir sem dvida, e para isso no preciso de 
sua apresentao; eu tambm conheo o major, e no  de ontem. Juro que hei de disputar palmo a palmo o terreno no s aqui ao amigo Belmiro, como tambm ao tal 
mequetrefe de capataz. Meu Belmiro, emprazo-te para domingo! - terminou, batendo-lhe no ombro.
      Nesse momento, a sineta da Academia batia um quarto depois de dez horas; era tempo de Belmiro, Azevedo e muitos outros que ali se achavam entrarem para as 
aulas, pelo que dissolveu-se naturalmente aquele ajuntamento, que j ia tomando um carter tumulturio.
      Terminadas as aulas, enquanto Belmiro se retirava lentamente para casa, ao brao de seu companheiro, o infatigvel e maligno Azevedo, contentssimo com o resultado 
da sua trama, que excedera mesmo  sua expectativa, deixou-se ficar na Academia, combinando com alguns companheiros os meios de pregar outra caoada, ainda mais 
que cruel, ao Belmiro no domingo prximo, na prpria casa do major.
      Cumpre notar que o despeito de Azevedo no tinha s por alvo o seu colega, estendia-se tambm a Adelaide, ao major, ao curitibano e a todos aqueles que tivessem 
concorrido para perturbar os horizontes, at ali to serenos, de seu tranqilo namoro. Projetava promover, seno um escndalo, na casa do major, ao menos tal desaguisado, 
que havia de perturbar todas as suas relaes e desarranjar por muito tempo todos os namoros presentes, passados e futuros de Adelaide. Para esse fim, no podia 
contar muito com a cooperao dos companheiros de casa de Belmiro, quase todos amigos e comprovincianos deste, e demais pouco prprios para empresas dessa ordem. 
Convidou, portanto, outros companheiros mais apropriados, entre os quais figuravam o Couto - o violonista notabilidade - e o moo dos bigodinhos. No se esqueceu 
tambm de recomendar muito ao Belmiro que por maneira alguma faltasse  funo de domingo. 
      
Captulo X

Nova Provocao

      Posto que sejamos inimigos mortais de todo o gnero de maledicncia, foroso nos  gozar ainda um pouco na pele do Major Damsio. Se bem que no deixasse ele 
de ter alguns bons instintos, e certo fundo de honradez e cavalheirismo, todavia sua nmia filucia, unida a muita ignorncia, o tornava um personagem algum tanto 
ridculo, e s vezes at mesmo odioso, prprio para servir de joguete entre as mos de estudantes no pouco desenfreados e libertinos. Sua balda de fidalgo e branco 
sem mescla se revelava a cada instante nos modos, nas palavras e nas aes, tratando com revoltante desdm a todas as pessoas de cor e de condio humilde. Parecia 
ignorar que em S. Paulo todo o povo conhecia sua baixa linhagem, que o pblico maligno e desapiedado ainda mais procurava rebaixar como para puni-lo de sua estlida 
presuno. Talvez mesmo que,  fora de mentir  sua prpria conscincia, se lhe encasquetara nos miolos a convico ntima e profunda de que era realmente fidalgo, 
em conseqncia de uma dessas monomanias quixotescas, de que se do no raros exemplos. Se esse fraco se limitasse somente  sua pessoa, o mal no seria to sensvel; 
ele porm se refletiu na educao de sua filha e veio a influir de modo lastimoso em seus ulteriores destinos.  
      Imbuda em todos os preconceitos e parvoces do pai, no tendo tido outro mestre seno ele e alguns preceptores lisonjeiros e fceis, que lhe deram algumas 
lies superficiais de msica, dana e desenho e algumas noes de francs, faltou inteiramente  Adelaide a educao moral e religiosa. Formosa e dotada de bastante 
esprito e inteligncia, teria sido uma das mais perfeitas criaturas, se no fosse a falsa e m educao que lhe perverteu consideravelmente a excelente ndole de 
que a dotara a natureza. Para cmulo de males, ainda no bero havia perdido sua me, e a nica mulher, a que ficara confiada a guarda da pobre menina, era uma velha 
tia celibatria, irm do major, mulher ignorante e quase idiota, que passara a vida a rezar e criar galinhas, e da qual Adelaide fazia tanto caso como de suas escravas. 
      O major - no sem bastante fundamento - fazia de sua filha o mais elevado conceito no s como formosura, mas tambm como um modelo de elegncia, graa e inteligncia, 
e a colocava muito acima de todas as celebridades do mundo elegante daquele tempo em S. Paulo. Como Adelaide j tinha completado os seus dezesseis anos, o major 
no podia deixar de pensar em casa-la; to ilustre raa no devia extinguir-se em sua filha e era preciso escolher um noivo digno dela. Ora, o corpo acadmico era 
justamente um viveiro de noivos na altura de suas aspiraes. Uma mocidade brilhante e esperanosa freqentava a Academia; uns ricos, outros fidalgos de sangue azul, 
outros com a aristocracia do talento tinham suspensa sobre a fronte a aurola de um esplendido futuro. O major no ignorava que era especialmente dessa classe que 
saam os deputados, senadores, ministros, bares, condes e marqueses. Estava tambm intimamente convencido de que era bastante mostrar-lhes a filha, para ficarem 
todos morrendo por ela e a disputarem com encarniamento a posse de to inaprecivel tesouro. Portanto, e nesse intuito, tratava de relacionar-se com o que havia 
de mais ilustre e prestigioso nessa classe, procurando especialmente os da Corte, e evitando com a maior cautela pessoas de cor equvoca. Entretanto, de envolta 
com esses jovens de famlias distintas, no deixavam de ser admitidos em sua casa alguns estudantes pobres e obscuros, mas notveis pelo talento, principalmente 
se se distinguiam por alguma aptido artstica ou se eram poetas, pois o major e sua filha eram apaixonados pela poesia: Adelaide, sobretudo, era muito lida em romances.
      O que todos no podiam suportar era a intimidade de mulatos ou caboclos.
      Belmiro pouco mais ou menos j adivinhava qual o motivo por que Azevedo havia convidado novos companheiros, e instava tanto com ele para que no faltasse ao 
passeio de domingo; desconfiava que outra no podia ser a sua inteno, seno, de mos dadas com seus diablicos companheiros, promover todos os meios de exp-lo 
 mais solene irriso em presena de Adelaide. Na companhia de seus amigos e comensais, dispunha ainda de alguma presena de esprito para fazer face s caoadas; 
mas com gente estranha, perdia-se de todo, e sua perturbao bastaria para que fizesse o mais triste papel. Quanto mais refletia, mais se convencia que lhe no era 
possvel resistir  conspirao que contra ele se armava. Por outro lado, atormentava-o irresistvel desejo de tornar a ver aquela que lhe havia roubado o corao. 
Toda a noite, passara a cismar com ela. Fora to meiga para com ele; testemunhara-lhe tanto interesse e simpatia! No seria grande a indelicadeza de sua parte deixar 
de comparecer ao primeiro convite? Mas como arrostar a petulncia daquela legio de garotos, que o Azevedo havia arrebanhado para o acabrunharem ao peso de motejos 
e caoadas?
      Nesse estado de indeciso, adormeceu e acordou o irresoluto Belmiro na noite de sbado para domingo. Acordou e levantou-se muito cedo, e a primeira resoluo, 
que as auras matinais lhe inspiravam, foi que no devia comparecer. Antes uma retirada honrosa, do que uma derrota vergonhosa - pensou ele.
      E para se esquivar s importunaes do Azevedo e mais companheiros, logo que se levantou, foi amoitar-se em casa de um estudante, seu amigo, que morava nas 
vizinhanas. Era desero algum tanto vergonhosa; mas antes isso, do que ser vtima de caoadas e pilhrias pesadas em presena de uma mulher amada.
      Na hora aprazada - onze para meio-dia - em vo procuraram Belmiro; ningum sabia onde se alapardara. Azevedo deu a mil diabos a fuga de sua vtima; a vingana 
escapava-lhe das mos de um modo lastimoso. 
      - Ah! raposa matreira - exclamava ele. - Mas deixa-te estar que mesmo sem a tua presena, hei de preparar-te uma cama, com que no te hs de dar mal. Olhem 
o sonso!... Tem convite de um homem de importncia e de uma menina bonita, e esconde-se como um urso bravio! Mas pela falta de um companheiro no devemos perder 
o pagode, de ele no que der. Vamos, meus amigos!
      Azevedo levava o seu menestrel, o Couto, grande violonista e cantor de primeira ordem, e com ele e os mais companheiros contava passar um dia cheio de regalado, 
e portanto, rogando mil pragas a Belmiro, puseram-se alegremente a caminho para a casa do major.
      Belmiro, entretanto, no ficou tranqilo, e logo que soube que a comitiva de Azevedo tinha partido, comeou a achar feio e ridculo o seu procedimento. Demais 
a mais, gravemente namorado, como realmente se achava, comeava a sentir fisgar-se-lhe ao corao a farpa do cime.
      - No! - dizia consigo. - No devo deixar de comparecer. Adelaide, com minha ausncia, ficar fazendo fraca idia de mim; pensar que fiz pouco caso de suas 
atenes, ela que as merece tanto, e me entregar ao desprezo, que realmente merecerei, se l no for... Sou deveras um amante bem frio, tosco e pusilnime!... Ter 
medo de meia dzia de peralvilhos, s porque se trajam com algum primor e sabem dizer a moas meia dzia de banalidades e parvoces adocicadas?!... Ora!... Tambm 
o Azevedo  um dandy de primeira ordem, e anteontem, sem no menor esforo e quase sem querer, o pus fora de combate!... Vamos! vamos!... Ao menos ficarei sabendo 
se a deferncia, que teve comigo, foi um capricho de momento ou d por causa da minha queda, ou se  mesmo coisa mais sria.
      Nessa resoluo, dirigiu-se a casa, vestiu-se  pressa e o melhor que pode, e encontrando ainda encilhado o animal que lhe tinham preparado, enforquilhou-se 
nele, e dirigiu-se para a chcara do major.
      Ao avistar a casa de Adelaide, o corao lhe palpitou com violncia, como o do soldado que vai entrar em renhido combate, do qual no sabe se sair vivo ou 
morto, vencido ou vencedor. Ia se expor a um terrvel tiroteio, do qual para sair vitorioso s esperava o auxlio de uma pessoa, e essa pessoa era Adelaide. 
      Achou a companhia instalada no salo em animada e alegre conversao. O Azevedo levara, alm de dois ou trs companheiros de Belmiro, mais seis ou sete novos 
amigos, jovens elegantes, primorosamente trajados, afeitos s maneiras cerimoniosas dos sales. Um deles, se bem que igual aos outros na elegncia e no trajo, era 
de cor bastantemente fusca e tisnada, e no rosto e no cabelo apresentava o tipo o mais pronunciado de um verdadeiro tupi. Era este o grande cantor, excelente msico, 
que o Azevedo tinha inculcado no intuito de eclipsar a Belmiro.
      Azevedo e seus companheiros receberam Belmiro com uma exploso de cumprimentos irnicos, que atordoaram.
      - Ainda bem vieste, meu caro Belmiro. Que falta nos ia fazer!...
      - Por que razo eclipsaste na hora da partida? Mas vais melhor do p?... 
      - Oh! felizmente c o temos!... Oh! insigne trovador!...
      - Bem-vindo sejas, meu Belmiro!... disse por sua vez o Azevedo, tocando-lhe no ombro - Se faltasses, faltava-nos o ar, a luz, a vida... Mas olha que daqui 
em diante no  mais permitido destroncar o p.
      Belmiro nada respondia; notou, porm, que o major naquele dia tratava seus hspedes com mais reserva e cortesia, e mesmo com certa frieza, que no condizia 
com as maneiras francas e familiares com que os recebera da primeira vez; mas no podia atinar com o motivo de semelhante procedimento.
      Adelaide foi a ltima que se dirigiu ao recm-chegado.
      - Pensava que no vinhas mais - disse ela depois de cumpriment-lo - e j estava ficando com raiva do senhor.
      - Eu no podia deixar de vir, minha senhora; um transtorno insignificante me fez demorar um pouco; espero que me desculpe.
      - Uma vez que apareceu, est desculpado. Meu pai havia de ficar bem aborrecido, se o senhor no viesse.
      - Oh! decerto - acudiu o major - muito apreciamos a sua companhia, e havemos de apreci-lo tambm hoje no violo.
      - L por isso no, meu caro major; nenhuma falta eu faria; a est o nosso amigo Couto, que o vai fazer esquecer-se.
      - Oh! o senhor! - replicou o major, inclinando-se com cerimoniosa gravidade para o Couto. - Havemos de ter o gosto de ouvi-lo tambm.
      - Toco alguma coisa, senhor major - retorquiu o Couto - seno admiravelmente como o nosso incomparvel Belmiro, sempre sirvo e no me fao de rogado. Mas creio 
que seria para todos ns muito mais agradvel ouvir a Sra. Adelaide que, segundo dizem meus amigos, possui uma voz maravilhosa.
      - No  tanto assim - replicou Adelaide. - Canto alguma coisa; mas no sou mestra. Tenho muito pouco estudo.
      - Isso nada importa - disse o Couto, levando a sua cadeira para bem junto da moa e assentando-se com grande familiaridade ao p dela. - O que mais se aprecia 
so os dons naturais que a senhora pode aperfeioar com o exerccio e a direo de um bom mestre.
      Adelaide corou toda perturbada, e procurou disfaradamente afastar algum tanto sua cadeira da de seu interlocutor. O major, por seu lado, enfiou e mordeu os 
beios com impacincia ao ver aquele fusco trovador chegar-se com tal desembarao e bafejar to de perto a sua idolatrada Adelaide.
      - No duvido - disse esta, respondendo ao Couto - mas no tenho pretenses a ser grande cantora; canto para distrair-me. 
      - Ah! mas isso  ser muito egosta; quem dispe de uma bela voz tem o dever de cantar tambm para distrair e encantar aos outros.
      - Perdo, meus senhores - interveio o major impacientando. - Deixemos a msica para depois; so horas de irmos s frutas. Vamos, senhores, vamos para o pomar.
      - Prontos! - responderam os estudantes levantando-se. E todos, precedidos pelo major e sua filha, se dirigiram ao pomar pelo caminho que j conhecemos.
      A nada ocorreu de interessante; somente o major, escarmentado com o que acontecera a Belmiro, no consentiu mais que os estudantes subissem s jabuticabeiras, 
e mandou servir as frutas j colhidas por seus escravos. Este fato, alm de mostrar-se o major nessa ocasio muito mais frio e cerimonioso em seu trato, concorreu 
grandemente para tornar a funo pouco animada, e bastantemente desenxabida. Azevedo e seus apaniguados em vo procuraram divertir a companhia, chasqueando  custa 
de Belmiro. Adelaide pouco apreo dava a suas pilhrias, no as aplaudia, mostrava no entende-las, e s vezes at parecia desaprova-las. Muito ao contrrio do que 
pretendiam, ela como que de propsito mostrava-se solcita e bondosa para com Belmiro, dirigindo-lhe muitas vezes a palavra e oferecendo jabuticabas, que ela mesma 
colhia.
      Isso desconcertava completamente o Azevedo, que via ir-se malogrado de modo deplorvel todo o plano de sua conspirao. Seus companheiros, igualmente, foram-se 
sentindo cada vez mais desanimados e at mesmo despeitados, principalmente o Couto, a quem Adelaide tratava com uma indiferena, que s vezes cheirava a desdm.
      Ao jantar, por efeito das libaes, os espritos se animaram, e a conversao tomou algum calor. Os ditrios e epigramas choveram ainda contra Belmiro, que 
os recebia impassvel  sombra do olhar benigno e protetor de Adelaide. Ufano com a vitria, que sem o mnimo esforo o ia alcanando contra seus companheiros, ia 
cobrando sangue-frio e audcia, que lhe no eram naturais.
      - Ests amuado hoje, Belmiro! - disse-lhe um deles - Falas to pouco!... Ser ainda efeito do tombo que levaste?
      - Nem disso me lembro mais - retorquiu Belmiro. - Mas  que quando vocs falam no fica tempo a ningum para dizer uma palavra.
      - Oh!... oh!... Podes falar, podes soltar alguma das tuas sandices; prometemos presta-te toda ateno.
      - Obrigado!... Podem continuar a desfiar suas prolas; no meio delas minhas sandices vo produzir muito mau efeito.
      - No sei que o Sr. Belmiro diga sandices - acudiu Adelaide com adorvel ingenuidade - mas se as diz,  com tal graa, que no parecem tais.
      Com um olhar expressivo, Belmiro manifestou a Adelaide a sua gratido.
      - Meus senhores! - bradou o dono da casa, de copo em punho. - J temos feito muitos brindes; agora peo-lhes que faamos um especial ao meu amigo, insigne 
violonista, o Sr. Belmiro!
      Esse brinde foi correspondido com sinceridade por Adelaide e alguns poucos amigos do estudante, mas pelo resto dos convivas com atordoadores hurras, misturados 
com gargalhadas, que no podiam exprimir nem prazer, nem entusiasmo.
      Est bem claro que ele foi levantado pelo major mui de propsito para humilhar o Couto, cuja cor lhe fazia arrepiar os cabelos.
      Azevedo desesperava ao ver irem-se malogrando uma por uma todas as suas tentativas para ridicularizar e por fora de combate o seu rival. Adelaide o amparava 
com sua gide no era possvel atingi-lo. S lhe restava uma esperana na ocasio de se tocar e cantar. Sabia quanto Belmiro era acanhado, e se bem que soubesse 
tocar violo e cantar com algum gosto e perfeio, s o fazia raras vezes e entre pessoas com quem j tivesse contrado alguma familiaridade. Portanto, exp-lo a 
cantar em pleno dia, de violo em punho, no meio de uma sala cheia de pessoas, que ele bem sabia estarem mais dispostas e debic-lo do que a apreci-lo, era o maior 
dos suplcios que podiam infligir-lhe. De feito, mesmo para os mais desembaraados, haver provocao mais cruel do que ser condenado a cantar de dia bem claro, 
em uma pequena sala cheia, de face para todos, que, com os olhos fitos na cara do cantor, lhe observam todos os movimentos e de ouvidos atentos esto  espera que 
ele abra a boca? E principalmente quando no auditrio h uma pessoa, diante da qual nos seria dolorosssimo fazer um mau papel? Isso  para fazer suar sangue e por 
em torturas o mais delambido cmico de profisso. Era nessa terrvel arena que Azevedo e seus comparsas esperavam ver o pobre Belmiro completamente aniquilado sob 
o peso do ridculo.
      Depois de uma breve passeio pelo jardim, onde se serviu o caf, os convivas se reuniram na sala de visitas. Era chegada a hora dos entretenimentos musicais. 
Por instigao de Azevedo, o Couto lanou logo mo do violo, e com notvel percia e agilidade executou lindas peas, que encheram o auditrio de prazer e admirao. 
O major, porm, e sua filha apenas o aplaudiram com muita frieza; reproduzisse ele as harmonias dos coros anglicos, a sua cor tisnada lhes fazia parecerem speras 
e desentoadas as mais suaves notas, que extraa das cordas do instrumento.  
      Senhores - disse o Couto - eu estou tocando somente para preludiar;  o bom que se cante alguma coisa. Quem principiar?
      - O Belmiro! o Belmiro! - exclamaram todos os estudantes, que para isso j se tinham combinado.
      -  verdade; nada mais justo, mesmo para corresponder ao brinde com que ainda h pouco o honrou o senhor major.  preciso que cante. Ande, vamos a isso! dizia 
o Couto, entregando o violo a Belmiro.
      Esse enfiou e enrubesceu at a raiz dos cabelos; mas tinha formado firme e inabalvel propsito de no cantar, e por esse fim j tinha estudado em escusa, 
que alis parecia ser muito atendvel.
      Tinha tido febre e insnia em conseqncia da leso no p. Sentia vertigens a toda vez que falava mais alto e com alguma vivacidade, e por conseguinte muito 
menos lhe era possvel cantar.
      -  manha!  manha! - exclamaram os estudantes. - No admitimos desculpa. No acredite, minha senhora; podemos afianar-lhe que est de perfeita sade. A senhora 
no reparou como ele comeu e bebeu com invejvel sede e apetite?
      - Pode-se estar de sade para comer e beber, e para muitas outras coisas mais, e no se estar de sade para cantar - replicou tranqilamente Belmiro.  
      - Ora! No se faa rogado! Vamos, tome o violo e cante! - retrucaram os estudantes, acercando-se de Belmiro e apresentando-lhe o violo com um ar quase ameaador.
      - No, decididamente no; no posso. Peo desculpa ao senhor major e  Sra. D. Adelaide - disse Belmiro, lanando a esta um olhar de splica.
      - De nossa parte, Sr. Belmiro - respondeu ela - est dispensado; no queremos agravar seus incmodos s para nos dar prazer.
      - Oh! sem dvida! - confirmou o major. - Guarde-se para quando estiver de todo restabelecido. Ento, sim, no havemos de poup-lo.
      O Azevedo naquele instante teve mpetos de arrojar-se ao gasnete do major e de Belmiro e esgan-los ali mesmo, e de passar pelo menos uma furiosa descompostura 
em Adelaide a despeito de toda a sua formosura.
      O Couto esperava que, visto o Belmiro ter sido dispensado, o major ou sua filha lhe rogassem para cantar. Mas nem um nem outra se lembraram ao menos de dirigir-lhe 
a palavra. Com este desencanto, que era quase um desacato, o Azevedo foi s nuvens. Nunca pensou que o menestrel, a quem tanto havia preconizado, fosse to cruelmente 
menosprezado. Entretanto, ele e seus companheiros, mesmo para dar uma diverso ao desapontamento e despeito que os molestavam, tomaram a seu cargo o instar com o 
Couto para que cantasse alguma coisa. Este, que mais que ningum se achava enfadado e de mau humor, acedeu de m vontade  splica dos companheiros, e entoou uma 
canoneta e alguns lundus chulos e bem pouco prprios da boa companhia. Isso acabou de indisp-lo com o major, que dava a perros a lembrana, que teve seu amigo 
Azevedo, de trazer-lhe  casa semelhante tapuia, como l de si para si o qualificava.
      Por fim os estudantes, menos o tapuia, que no podia nem queria disfarar o seu despeito, rodearam Adelaide e rogaram-lhe com muita instncia para que cantasse 
qualquer coisa. No lhe foi possvel recusar-se.
-A senhora decerto vai acompanhar-se ao piano, no  assim, D. Adelaide? - perguntou-lhe Azevedo.
-No, senhor; prefiro o violo. O Sr. Belmiro me far o favor de acompanhar.
      Esta ltima bomba atordoou e fez perder toda a esperana ao Azevedo e a todos os seus companheiros.
      Adelaide cantou, e Belmiro acompanhou uma modinha, que s eles dois ouviram, mas que afinal todos aplaudiram ex-officio.
        J o sol se inclinava rbido sobre a serra das Cantareiras, e desmaiava seu vivo fulgor, engolfando-se nos difanos vapores da tarde. O sol estava a despedir-se 
do nosso hemisfrio, os convivas do Major Damsio ansiosos por despedir-se de seu hspede, e este tambm no menos aflito por v-los de costas.
      O major, entretanto, no quis despedir os seus convivas sem dar-lhes uma satisfao, e como no podia d-la  face de todos, chamou de parte para esse fim 
o Azevedo, com quem tinha mais antigas relaes e maior familiaridade.
        - Desculpem-me - disse-lhe ele - se hoje no os tratei no mesmo tom de familiaridade. Veio gente nova, e alm disso o senhor trouxe consigo um sujeito que, 
perdoe-me lhe dizer, no condizia muito com o resto da companhia. Que necessidade tinha o senhor de fazer c aquele tapuia?
- do Couto que V. S. quer falar? - perguntou Azevedo, formalizando-se.
-Sim, senhor, o tal tocador de violo.
        -Oh! senhor major, que susceptibilidade a sua!  um quartanista, um moo muito distinto, bem educado e inteligente... Quanto  cor  talvez to branco...
      Azevedo ia talvez dizer - como V. S. - mas conteve-se a tempo.
        - Como muita gente que anda por a campando de branca e de fidalga... - continuou, concluindo a frase. Demais, senhor major, a cor  um acidente.
      - Ser um acidente - interrompeu o major - no duvido, mas h certas misturas que repugnam.
        - Ah!... - murmurou Azevedo, completamente atnito e desafinado.
      -  preciso haver mais cuidado na escolha dos companheiros, meu amigo.
      - Eu o trouxe apenas como um insigne msico, que poderia dar algumas lies  senhora sua filha.
      - Nesse caso o meu capataz tambm toca e canta menos mal; e eu havia de p-lo a ensinar minha filha?...
      -Oh! no h o menor paralelo... Mas desculpe-me, senhor major; no sabia que os seus melindres aristocrticos chegavam a tal ponto.
      - Se h melindre, no  para com o senhor, meu caro amigo; esta casa est sempre s suas ordens, e de seus amigos, contando que...
      - Muito obrigado! - atalhou Azevedo. E despediu-se do major, ficando um pouco abaladas as suas relaes de amizade.


Captulo XI

Uma revoluo dentro de um pedacinho de papel

      Os estudantes se retiraram descontentssimos com o resultado do passeio. O Azevedo principalmente levava na alma o mais entranhado rancor, tanto contra Belmiro, 
como contra o major e sua filha. Em conseqncia, Belmiro teve de agentar pelo caminho todos os efeitos do mau humor de seus companheiros. Foi bode expiatrio, 
sobre o qual iam descarregando sem cessar os desapiedados golpes da clera, que lhes atearam na alma os desdns de Adelaide e as impertinncias do major. Teve de 
ouvir as mais terrveis imprecaes contra o pai, e as mais cruas e desbragadas apreciaes a respeito da filha. Analisando-a detalhadamente, emprestavam-lhe todos 
os defeitos imaginveis e no reconheciam nela nem graa, nem beleza, nem esprito.
      Azevedo, logo ao sair, tinha contato aos companheiros, menos a Belmiro, toda a conversao, algum tanto misteriosa, que tivera com o major ao despedir-se; 
mas f-lo com cuidado e segredo, para que no chegasse aos ouvidos da vtima. Isso reunido  frieza e cerimoniosa com que foram tratados, levou ao cmulo o despeito 
e indignao dos rapazes. Estimavam muito ao colega, e a desfeita, que lhe foi irrogada, doeu-lhes como se fosse feita a todos, e juraram castigar a filucia e petulncia 
do major do modo o mais cruel que pudessem.
      Vamos a escutar um pouco a edificante conversao, com que a trote largo se iam entretendo pelo caminho.
      - Que saloia desenxabida, meu Deus!... Eu pensei que a tal Adelaide to decantada fosse outra coisa. No corpo  uma almanjarra desengonada, cheia de requebros 
desengraados.
      - E no esprito... Oh! no esprito ainda  pior:  uma lesma!
      -  uma foca.
      -E que bigodes de granadeiro tem ela! No repararam?
      -L quanto aos bigodes, passe; mas que ventas! Parecem duas trombetas! Bem se lhe esta vendo a raa.
      -E que gosto aprimorado!... Namorar-se aqui do nosso Belmiro!
      -De certo assim devia ser, por achar nele um outro palerma, que no despregava dela os olhos, como um co a namorar um pedao de carne.
      - Que dois!... Deus os fez e o diabo os ajuntar talvez.
      - Mas ns os separaremos;  uma obra de misericrdia, no devemos consentir em semelhante namoro.
      - Qual namoro! - acudiu o moo de bigodinhos, que j conhecemos - Vocs deveras tem a simplicidade de acreditar que ela esteja realmente namorada do Belmiro?
      - No menos as aparncias...
      - Pois so aparncias e nada mais. No viram por l rondando o tal biltre do arrieiro ou o capataz? No repararam, quando ele passava por perto de ns, como 
fitava nela uns olhos de fogo, e como abaixava ela os seus, cheia de confuso?
      - Oh! isso  verdade. Uma vez que o tal magano se achou em nossa presena, ela se mostrou por tal sorte inquieta e perturbada, que parecia estar sentada em 
uma cadeira de espinhos.
      - E o mais  que o rapazola no deixa de ter uma bonita figura; vale cem vezes mais do que o Belmiro. Que olhos negros cintilantes! Que fisionomia expressiva! 
Que talhe esbelto e vigoroso!  um Cacambo, um Adnis americano.
      - E  mesmo. No seu gnero,  um dos mais lindos e vistosos rapazes que tenho visto. Cuidado, Belmiro! Tem pela frente um guapo competidor.
      - Querem saber uma coisa, meus amigos? Creio que j percebi a ttica da moa. Ah! que raposa matreira no  a tal Sra. Adelaide!
      - Ento o que ?
      - Vocs ainda no atinaram com a razo por que, no meio de toda a rapaziada luzida que lhe faz a corte, escolheu o sorna do Belmiro para objeto de suas predilees?...
      - Ainda no.Qual ?
      -  porque  ele o menos prprio para inspirar cimes ao namorado de casa.
      - Oh! deve ser isso mesmo. Pobre Belmiro! No s mais que um pau de cabeleira!
      - isto, podem ter toda a certeza. Quando o sujeitinho se mostrar agoniado com a menina, esta lhe dir ingenuamente: tenho d e simpatia por aquele pobre moo. 
Ele facilmente acreditar, e eis a tudo explicado...
      Foi por esta maneira que os estudantes vieram por todo o caminho, retalhando o corao de seu infeliz colega com alfinetadas de cime, que lhe doam mais que 
todas as outras caoadas. De feito, ele tambm havia notado certos sintomas, que faziam crer que as observaes de seus companheiros no eram totalmente destitudas 
de fundamento, e por isso, pensativo e silencioso, marchava como uma sombra entre seus grrulos companheiros, levando para a casa as mais desencontradas impresses. 
Por um lado afagavam-lhe a imaginao, como um bando de borboletas matizadas de azul e ouro, as lembranas das demonstraes inequvocas de afeio que lhe dera 
Adelaide; por outro, lhe fazia horrendas esgares a petulante e desalmada caterva dos colegas, que lhe moviam mil dificuldades. No eram porm ainda estes que mais 
o aterravam; j por duas vezes os tinha suplantado sem grande dificuldade; e o que mais dolorosa impresso lhe causava era a existncia do rival domstico, sem dvida 
o mais formidvel de todos, e que bem via no ser pura inveno de seus colegas.  verdade que tambm compreendia otimamente o major, todo enfatuado de fidalguia 
como era, no podia consentir em tal amor. Mas que importava isso se tal amor existia, e existiria deveras?
      Assim oscilava perplexo o esprito de Belmiro, mas inclinando-se sempre a crer que semelhante amor era uma quimera, a que a inveja maliciosa de seus colegas 
e a nmia susceptibilidade de seus prprio cime davam algum vulto. Esse jovem curitibano era um pobre rapaz estimado na casa e nada mais. Nesta convico, ainda 
que mal baseada, entendeu que devia continuar a freqentar a casa do major, esperando que os acontecimentos viessem a desenlear to intrincada situao.
      Encerradas as aulas e durante o tempo dos atos acadmicos, Azevedo e seus comparsas tiveram tempo de sobra para combinar e realizar seu plano de vingana. 
O Couto, a quem no foi possvel conservar-se por muito tempo oculta e singular preveno do major contra ele, em razo da cor, posto que afetasse ignorar ou desprezar 
esse incidente, foi mais encarniado em promover a mais terrvel cruzada contra o pretendido fidalgo.  verdade que nunca mais ps os ps na casa deste, mas por 
fora preparava os elementos e aulava os companheiros com atividade incansvel e satnica habilidade. Com repreensvel esprito de libertinagem, continuaram eles 
a freqentar, em grupos de quatro, cinco e mais, a casa do major, de cujo fraco achavam-se bastantemente inteirados, acatando-lhe sempre a alta linhagem e rodeando 
a filha de todo gnero de lisonjas e sedues, prprias, seno para perverter-lhe o corao, ao menos para lhe estontear a cabea. No digo que quisessem arrasta-la 
 perdio; mas desejavam leva-la a ponto de cair em alguma indiscrio ou fraqueza - por exemplo uma carta, uma entrevista - para dar mote a maledicncia, coisa 
que tambm nada tem de louvvel.
      Com a repetio dessas reunies escolsticas em sua casa, Adelaide foi-se habituando e mesmo tomando certo prazer em receber homenagem a tantos e to guapos 
adoradores. Como porm a todos prestasse igual ateno e tratasse com a mesma amabilidade, nenhum deles ganhava terreno de modo que fizesse desanimar aos outros. 
Nenhum deles podia jactar-se de receber dela a mais leve demonstrao de preferncia,   exceo de um s, e esse era Belmiro. Este, entretanto, pobre e obscuro 
provinciano, era o que menos convinha s ambiciosas e aristocrticas vistas do major. Por sua parte tambm Adelaide, conhecedora das baldas do pai, e nelas profundamente 
imbuda, bem compreendia que ele jamais acharia de bom gosto a escolha de semelhante noivo.
      E qual ser a razo perguntar o leitor - porque, a despeito disso, o distinguia ela entre os seus companheiros, mostrando-lhe, sem reserva, especial simpatia 
e predileo?...
       tempo j de destruir o engano, que porventura ainda exista, a respeito da natureza da afeio que Adelaide consagrava a Belmiro. Mesmo em abono da honra 
e reputao da moa, cumpre-nos aqui declarar que a afeio to francamente revelada no era nem um capricho de loureira, nem tampouco resultado de uma paixo amorosa; 
era simples sentimento de benevolncia, que lhe inspirava o provinciano e suas maneiras lhanas e despretensiosas, e por sua ndole um pouco menos maligna que a de 
seus colegas. A infeliz moa fora fadada a amar uma s vez, e j amava; mas tinha a triste convico de que esse amor nunca poderia ser feliz. Ela mesma iludida, 
como vivia, a respeito da procedncia de sua linhagem, esforava-se em vo por arranca-lo do corao. Em razo da pouca idade e da educao negligente que ia tendo, 
no podia deixar de ser faceira e leviana; mas no o era a ponto de desconhecer que a sociedade tem exigncias, a que ningum pode eximir-se, e que seu pai jamais 
consentiria que ela desposasse pessoa abaixo de sua categoria. Vendo-o franquear sua casa aos estudantes, logo atinou que ele pensava em deparar-lhes um noivo digno 
dela. Com o corao ocupado desde a infncia com a imagem de um s, no sabia nem queria escolher entre tantos e to elegantes mancebos, que todos os dias lhe eram 
apresentados.
      Estava convencida que, tarde ou cedo, teria de aceitar um noivo de alta hierarquia, fosse qual fosse, e seria arrastada ao altar de himeneu como vitima de 
obedincia filial e das convenincias sociais. Era um sacrifcio doloroso, mas,  fora de considera-lo como inevitvel, j se tinha resignado a ele.
      Portanto, no podendo apaixonar-se por nenhum dos pretendentes, que com boas ou ms intenes a cercavam de homenagens, Adelaide, talvez mesmo para procurar 
uma diverso  posio difcil em que se achava, entregava-se, ingnua e francamente, ao sentimento de simpatia que Belmiro lhe havia inspirado, sentimento que, 
mal interpretado, fazia arder a cabea a este e raivar aos outros de inveja e de cime.
      Assim, nesse negcio quase todos andavam mais ou menos enganados. Belmiro julgava ser amado, e apenas merecia alguma simpatia e considerao, e seus companheiros, 
quando em ar de chacota lhe diziam isso em caminho, bem longe estavam de pensar que diziam a pura verdade. O major e sua filha estavam intimamente convencidos de 
que os estudantes disputavam com ardor a posse do corao da rica e formosa herdeira daquele nobre solar, quando estes, pela maior parte, desde o dia em que o major 
se desouve at certo ponto com Azevedo e seu sqito, s tinham em vista desmoronar aquele castelo imaginrio, e com brbara malignidade expor ao ridculo no s 
o pai, como tambm o nome de sua infeliz filha, que por certo no merecia semelhantes desacatos. Alguns deles tiveram a audcia de fazer chegar s mos de Adelaide 
cartas amorosas, que ela teve a prudncia e a discrio de queimar sem dar resposta alguma. Havia contudo um ou outro que, sinceramente apaixonado pela beleza e 
atrativos da moa, empregava de boa-f seus esforos para ganhar-lhe o corao, e que, fechando os olhos  sua genealogia, estava disposto a pedir-lhe a mo de esposa; 
mas esse mesmo no era mais bem sucedido.
      A Adelaide, a Adelaide - eis o nome que mil vezes se ouvia repetir nos crculos nos dandys acadmicos de S. Paulo. Era um namoro espantoso; Adelaide era um 
astro rodeado de mirades de satlites. Quanto verso da mais vaporosa e requintada, quanta carta da mais acrisolada, ardente, profunda e frentica paixo tinha de 
ler, e que lhe eram entregues como por encanto!... A moa via-se atarantada;acreditou-se uma deusa, que tinha por dever aceitar o culto e adorao universal. Assim 
o fez, e foi isso talvez sua salvao. Divindade sobranceira e sem caprichos, no quis em seus altares sacerdotes privilegiados, aceitando com igual benignidade 
as oblaes e o incenso de todos.
      Desgostosos por fim e desanimados, os falsos adoradores de Adelaide, por no terem conseguido, depois de dois meses de inteis tentativas, que ela - servindo-nos 
de uma expressiva alocuo popular - pusesse o p em ramo verde, deliberavam tomar vingana por outro meio mais cruel e mais positivo. Suprimiram completamente as 
visitas a casa do major, mas faziam l chegar alguns nmeros de jornais contendo epigramas ferinos, cuja aluso era bem manifesta. O major os lia com prazer, porque 
lhes no compreendia o alcance; mas Adelaide bem lhes compreendia a ponta acerada. Entre eles foi uma poesia intitulada - A rosa e o cravo caboclo - em que se aludia 
de modo bem claro, mas com delicadeza, ao incidente, que conhecemos, dado entre Azevedo e Belmiro. O major achou-a lindssima, e riu-se; mas Adelaide arrepiou-se 
e estremeceu. Como porm era concebida em termos delicados e ornada de imagens graciosas, Adelaide calou-se e abafou dentro dalma certas apreenses, que no deixavam 
de inquieta-la. 
      Um belo dia, porm, Adelaide recebeu das mos de uma velha escrava um mimoso e perfumado papelzinho, e julgando ser uma dessas missivas apaixonadas, com que 
seus inmeros amantes costumavam importuna-la, abriu-o sem escrpulo, e comeou a l-lo, para depois consumi-lo, como era seu costume, na pira ardente, no direi 
do seu desprezo, mas de sua indiferena. Essa missiva, que era annima, no pode ter o mesmo destino. Dentro desse papelzinho perfumoso e acetinado estava contida 
uma terrvel bomba, que devia estourar com grande estrondo, e, fazendo horrvel conflagrao, produzir completa mudana nos destinos de Adelaide. Era uma poesia 
em forma de lundu, na qual se punha em pblico e raso a genealogia de Adelaide, tendo por guizo o seguinte estribilho:

Mas por essa desventura
No chores, linda menina;
Nasce a prola da lama,
Nasce do esterco a bonina.

    Bem se v que esse modo de consolar no podia agradar muito  Adelaide. A princpio, enrubesceu at  raiz dos cabelos, e pouco depois sua linda tez morena ficou 
plida como a cera de uma tocha funrea; suas pupilas negras se incendiaram, lanando chispas como as da cainana ofendida; seus seios ofegaram violentos como mar 
tempestuoso. Ela, acostumada a ser o alvo de todos os mimos e adoraes, nunca pensara nem mesmo na possibilidade de to feroz ultraje.
    - Lucinda! - gritou ela, chamando pela escrava, que lhe entregara o papel, a qual imediatamente apareceu. - Toma esta carta... tu te enganaste... Quem foi que 
a trouxe? Isso seguramente no  para mim.
    -  mesmo para sinhazinha -  respondeu a escrava. O moleque, que trouxe esse papel, falou assim: -  para sinh Adelaide, filha do Sr. Major Damsio.
    - Ah! meus Deus, ser possvel! - exclamou a moa, levando as mos aos cabelos. - Meu pai!... Chama depressa meu pai... ele h de vingar-me!
    - Que  isso, sinhazinha?! O que  que mec tem, que est zangada?
    - No  nada, Lucinda - respondeu secamente a moa. - Anda!... Vai chamar meu pai.
    Da a instantes apareceu o major.
    - Que temos de novo, minha querida?
    - Olhe, meu pai; olhe o que se atrevem a escrever para sua filha - disse ela, apresentando, com mo convulsa, o papel, que o pai tomou e comeou a ler com avidez. 
 medida que ia lendo, os olhos do major se injetavam, convertendo-se em duas poas de sangue, e as cordoveias do pescoo batiam-lhe como bordes de rabeco feridos 
em valente pizicato.
    - H de morrer como um perro vil!... - bradou, dando um furioso murro sobre a mesa, junto  qual Adelaide se achava sentada. - H de morrer o insolente, que 
teve o atrevimento de... Ol! - quem foi que te trouxe este papel, minha filha?
    - Foi Lucinda.
    -  l, Lucinda!...
    Lucinda imediatamente apareceu, espavorida.
    - Crioula, quem foi que entregou este papel  sinhazinha?
    - Fui eu, sim senhor.
    - Quem trouxe?
    - Foi um moleque.
    - Que moleque?
    - No sei, no, senhor.
    - Como se chama?
    - No sei, no senhor.
    - De quem ?
    -No sei, no senhor.
    -No, no, no, no sei, no sei, no sei! E esta! Pois  preciso saber, maldita! Vai, corre j atrs do moleque que aqui trouxe este maldito papel. Anda... 
No  percas tempo; traze-o j aqui agarrado. Seno... anda, cachorra tinhosa! Anda, demnio dos meus pecados!...
    O major berrava estas palavras espumando em fria, e espescoceando desapiedadamente a pobre rapariga. Enquanto ele continuava a vociferar feito um possesso, 
Adelaide escondeu a cabea sobre a mesa entre os braos e desatou a chorar, e Lucinda, toda atarantada pelos berros e pescoes do major, foi-se escorregando dali 
para fora sem compreender nada do que se passava, e tratou logo de esconder-se no mais recndito canto da cozinha. Houve silncio de alguns instantes, enquanto a 
filha soluava e o pai bufava como um boi no lao.
    - Meu pai! - disse por fim Adelaide, levantando o rosto banhado em copioso pranto. Estava encantadora ento. A raiva tinha-se desafogado em lgrimas, e achava-se 
restabelecida a harmonia de suas graciosas feies, que a clera por momentos havia transtornado. Se a vissem naquele instante os estudantes, que a tinham levada 
a tal extremo, ter-se-iam prostrado aos ps dela, atassalhados de remorsos e implorando perdo. - Meu pai, bem me estava agourando o corao que essa corja de estudantes 
malcriados havia de nos pregar alguma; eu no gostava nada de semelhantes reunies.
    - Nem todos, minha filha; isso no vem seno de gente ruim e de baixa ral; e no pode ser doutro seno daquele co tinhoso, daquele esconjurado tapuia que o 
Azevedo aqui nos trouxe um dia.
    - No duvido; mas seja de quem for, meu pai, isso no deve ficar sem castigo. Ah! meu Deus! meu Deus ! que desaforo... Pelo amor de Deus, meu pai, no abra mais 
sua porta a semelhante canalha.
    - Eu, minha filha! ... Deus me ofenda!... No quero v-los mais nem pintados.
    - Mas no basta s isso, meu pai; uma afronta destas no pode ficar sem vingana...
    - Sim, no pode; dizes bem, minha filha. O maroto h de pagar ao menos com uma boa sova de pau... J se viu maior desaforo! Esses estudantinhos cuidam que podem 
zombar do mundo inteiro!... Ho de conhecer se o Major Damsio Augusto de Aguiar e Andrada  da laia deles... H de se descobrir quem foi o brejeiro infame... Hei 
de falar ao compadre Tobias... A polcia h de indagar... Hei de falar tambm aos lentes... H de haver congregao... reprovao... expulso mesmo!... Arre! No 
se insulta assim uma famlia distinta!...
    - No, no meu pai -  interrompeu a moa. - Com esse espalhafato vamos de mal a pior. Ento  que vamos virar peteca na mo desses biltres. No diga nada ao 
padrinho, nem aos lentes, nem a ningum. Eu mesma hei de descobrir quem foi o desaforado que me mandou esses versos, e hei de vingar-me.
    - Tu, menina?
    - Eu mesma.
    - Cala-te a, criana!... Mas como?...
    - Deixe por minha conta.
    - Pois sim... V l se descobres, e conta certo que a mo, que escreveu essas sandices, nunca mais pegar na pena para escrever coisa nenhuma desta vida.

Captulo XII
Conrado

      Agora nos  indispensvel dar ao leitor mais intimo e completo conhecimento de um personagem, de quem at aqui s nos temos ocupado acidentalmente, mas que 
tem de representar um dos mais importantes papis no desenvolvimento dos sucessos que temos de historiar. Queremos falar do jovem capataz ou camarada do Major Damsio, 
a quem os estudantes, alis sem fundamento algum slido, mas s por pura malcia, atribuam relaes amorosas com a filha do patro. Conrado - tal era o seu nome 
- era natural de Curitiba. Uma feita, em que Damsio ali fora comprar mulatas, encontrou o pobre menino na idade de onze a doze anos, rfo e desvalido, mas j traquejado 
na escabrosa lida de camarada muladeiro. gil e vigoroso, j sabia atirar um lao com toda a destreza, pegar um burro xucro, passar-lhe os arreios e doma-lo como 
o mais destemido peo. Era o tipo de um lindo e genuno gacho.
      Damsio teve ocasio de apreciar o prstimo e atividade do adolescente, e encantado de sua extraordinria habilidade e  desembarao, como tinha preciso de 
um camarada, o chamou a seu servio. Alm de sua habilidade profissional, Conrado se tornava recomendvel por sua ndole dcil e bondosa, e ainda mais por sua dedicao 
e zelo no servio do patro, cuja afeio com o andar dos tempos foi captando de mais a mais.  
      Chegado em S. Paulo e instalado em casa do major, Conrado era considerado em conta algum tanto menos que um filho, porm bastante acima de simples camarada. 
Colocado debaixo do mesmo teto com a filha do major, a formosa e interessante Adelaide, viva e mtua inclinao para logo os ligou, concorrendo todas as circunstancias 
para cimentar entre eles uma dessas afeies intimas e profundas que jamais se extinguem, laos que no se podem romper sem o mais doloroso sacrifcio;  assim que, 
de tnues e quase imperceptveis filamentos, aglomerados durante sculos, se forma o amianto, que nem o fogo pode consumir. Conrado era companheiro, o guarda, ou 
antes o aio, que sempre acompanhava a menina, quando esta ia  escola ou a qualquer passeio. Por esse tempo ainda o Major Damsio no tinha feito da chcara sua 
residncia favorita, e morava no centro da cidade, onde tinha o negcio de fazenda seca. Quando, ao voltar da escola, Adelaide se sentia fatigada, Conrado dava-lhe 
o brao, e s vezes o mesmo, quando fazia mau tempo, a carregava aos ombros j bastantemente vigorosos. Em todos os passeios, espetculos e divertimentos de qualquer 
espcie, o pequeno gacho fazia parte da limitada famlia, que se compunha do major  e sua filha, uma mucama e um moleque fardado de pajem, figurante que ele, a 
bem do decoro de sua alta linhagem, nunca dispensava. Essa vida em comum e a imprevidente tolerncia do major, que quase os equiparava deixando-lhes ampla liberdade 
de brincarem e passarem juntos, fomentaram em breve tempo a mais afetuosa intimidade entre os dois meninos, que passavam os dias rindo e folgando no suave abandono 
dessa quase fraternal unio.
      Conrado no sabia ler nem escrever. O major, que no pequeno curitibano s queria ter um bom capataz, ignorante e egosta como era, no curou de cultivar-lhe 
a inteligncia, e s ambicionando aproveitar seus bons servios, nem mesmo se lembrou de faze-lo freqentar a escola. Entretanto, o rapazote sentia-se mordido de 
inveja, quando via sua gentil patroazinha abrir um livro qualquer e l-lo com desembarao, ou tomando uma pena entre os dedinhos rosados passear a mo delicada por 
sobre o papel, deixando nele gravado o pensamento. Sendo mais velho do que ela, ficava sumamente envergonhado, e ardia em desejos de tornar-se nesse particular igual 
quela a quem tanto bem queria. Um dia, manifestou a Adelaide o pesar que o acompanhava por no poder aprender a ler e a escrever.
        -Ora!  to fcil! - disse-lhe a menina. - Se voc quer, eu te ensino, e voc fica sabendo tudo o que eu j sei e o que eu for aprendendo daqui por diante.
      Conrado aceitou o oferecimento como um presente do cu. Aprender alguma coisa, e aprender com aquela linda criaturinha, a quem tanto idolatrava, era o mesmo 
que ser introduzido no paraso pelas mos de um anjo. Inteligente e vido de saber, o curitibano em pouco tempo fez progressos que admiraram sua pequena mestra, 
que alm do ensino lhe ministrava tambm o papel, tinta, penas, exemplares, etc. Conrado aproveitava-se com avidez de todos estes favores, e no perdia tempo. Pelo 
caminho da escola, em casa nas horas vagas, a ss ou junto com Adelaide aplicou-se por tal modo, quem em poucos meses igualou-se e veio a tornar-se superior  mestra. 
Para isso contribuiu o ser ele homem, mais velho dois anos, de inteligncia mais robusta, e entregar-se ao estudo com muito mais ardor do que a jovem mestra, a qual, 
como quase todas meninas, apenas considerava como um passatempo entre as bonecas e os doces. Em aritmtica principalmente, Conrado ganhou logo grande superioridade 
sobre Adelaide, de modo que trocaram-se da em diante os papis, vindo o discpulo a ser mestre, e isso com grande contentamento de ambos, sem a menor sombra de 
inveja nem rivalidade.
      Passaram-se assim dois anos, durante os quais Conrado deslizou vida serena e inocncia e felicidade em companhia de sua gentil patroazinha, sem inquietaes 
no presente e com os olhos fechados ao futuro. Passou-se mais um ano. Conrado havia completado os dezesseis anos, e Adelaide achava-se entre os treze e os quatorze. 
O vu da inocncia comeava a adelgaar-se ante os olhos dos dois adolescentes; atravs das flores do presente j comeavam a entrever vagamente os espinhos do futuro. 
Conrado principalmente j no desconhecia a natureza do afeto que o ligava  sua gentil mestra e patroa, e compreendia vagamente que aquelas doces relaes at ali 
entretidas no poderiam continuar por muito tempo; que uma grande distncia na ordem social separava o rfo desvalido, camarada ou capataz da rica e ilustre herdeira 
de uma famlia distinta. J previa uma dolorosa e inevitvel separao, e uma nuvem melanclica lhe pairava sobre a fronte, evolvendo-a em cismas de desalento e 
amargura. Adelaide, mais nova ainda, no sentia bem o peso de sua situao; mas o sentimento instintivo do recato ia por si mesmo impondo um freio s infantis e 
ingnuas expanses que costumava ter com seu companheiro de infncia. J ela no freqentava mais a escola, e o major havia definitivamente fixado a sua residncia 
na chcara. Conrado, j tendo entrado no perodo da puberdade, era com mais freqncia empregado por seu patro, que nele tinha toda a confiana, apesar de sua pouca 
idade, em servio de muladeiro, negcio em que ainda continuava, mais por inclinao do que por interesse. Desejava tambm que o seu jovem capataz empreendesse algum 
negcio por sua prpria conta a fim de ir comeando algum peclio que lhe garantisse o futuro, e para esse fim j o tinha abonado com certo nmero de bestas.
      Esses afazeres motivaram freqentes ausncias, e os dois meninos j no se viam tanto a mido, e bem raras ocasies tinham de se falarem. A sala do major abria-se 
s vezes a famlias distintas, e a nobres cavalheiros, que o iam visitar e fazer a corte  formosa e interessante Adelaide. O infeliz Contado, simples e humilde 
camarada, no podia tomar lugar no meio de to ilustre companhia, e tinha de morder aos beios de raiva e de despeito, quando o major s vezes o chamava para trazer 
um copo de gua a algum jovem elegante, que se repoltreava ufano junto de sua jovem patroa. Alm disso, Adelaide tinha mestres de msica, dana, desenho e francs, 
cujas lies lhe consumiam largas horas, e Conrado, que no podia tomar parte delas, amaldioava do fundo dalma todos esses professores, e bem quisera manda-los 
a todos os diabos.
      Este afastamento inevitvel em que novas circunstancias vieram coloca-los, enchia de angustias e amarguras o corao do pobre rapaz. Adelaide, de ndole mais 
leviana e volvel, se bem que no perdesse o afeto que consagrava ao seu camarada de infncia, achava todavia distrao bastante no piano, no estudo e nas homenagens 
e gabos, que recebia na sala de visitas. A vaidade afagada lhe enchia a imaginao de sonhos dourados e fazia com que adormecesse algum tanto o sentimento ntimo 
e profundo, que desde a infncia lhe germinara no corao. O mancebo, a quem no escapava essa modificao no procedimento de Adelaide, sentia apertar-se-lhe o corao 
entre as garras da mais cruel angstia.
      Um dia, estavam ambos no jardim. Adelaide, sentada em um banco de pedra, aspirava negligentemente o aroma de algumas flores, que Conrado colhera para ela, 
passeando olhares vagos pela imensa perspectiva, que se desdobrava a seus olhos, envolta nos difanos vapores de uma tpida e serena tarde de agosto. As vastas lesrias, 
que se estendem pelas margens do Tiet, verdejavam alm, ampla e viosa tapearia, marchetada aqui e acol por moita de coqueiros e bananeiras, no meio das quais 
alvejava sorrindo uma casinha, como branca pomba atufada em ninho de musgo. Adelaide, com o pensamento absorto em vagas cismas, parecia comprazer-se  em acompanhar 
com as vistas as voltas da corrente preguiosa do rio atravs das balsas verdejantes. Conrado, em p, colocado em respeitosa distncia alguns passos atrs dela, 
a contemplava com um olhar repassado de melancolia, que exprimia a um tempo o mais terno enlevo e o mais amargurado desalento. Ela estava resplendente de beleza; 
surgia-lhe o busto por entre as moitas de flores, que a circundavam, como o de uma hamadrade nos bosques da Arcdia, ou como fada que sai do seio das flores para 
alar-se s regies etreas. Os raios do sol poente, amortecidos pelos vapores da atmosfera resvalando-lhe pelo rosto, matizavam sua tez morena e acetinada com uns 
reflexos dourados.
      Conrado, contemplando-a, cuidava estar vendo um anjo que, abrindo as asas, ia iar o vo para o cu e desaparecer para sempre a seus olhos, e, todo embebido 
naquela viso que o fascinava, no via, no ouvia mais nada. Adelaide, tambm profundamente distrada, no olhava para ele. Um suspiro mal abafado a despertou; volveu 
de sbito as vistas para o mancebo, que no teve tempo de enxugar suas grossas lgrimas que lhe rolavam silenciosas pelas faces.
      - Que tens, Conrado? - exclamou Adelaide, consternada e comovida. - Que tens, que ests assim a chorar?!...
      - Eu?...  verdade!... - balbuciou, perturbado, o pobre moo. - Sim, eu estava mesmo a chorar.
      -Mas por que, meu Deus?...
      - Ah! nem eu sei... Uma coisa, que eu mesmo no sei explicar, uma idia triste veio me apertar o corao. Eu estava olhando para a patroa, bonita como est, 
mas to calada e pensativa, e estava me parecendo que era o meu anjo da guarda, que estendia as asas para o cu, e me ia abandonar para sempre; fiquei triste, e 
as lgrima me acudiram aos olhos.
      - Eu tambm nada tinha de alegre em meu corao, Conrado. Meus olhos se estendiam por essas vrzeas e nada viam; no sei que pensamento sinistro me passava 
pela mente.
      Dizendo isso,  moa tirou de seu ramalhete uma perptua, levou-a  aos lbios, e, entregando-a a Conrado, retirou-se precipitadamente. 
      Ela tambm tinha necessidade de chorar.

Captulo XIII

Comea a desiluso

      Conrado e Adelaide continuaram a amar-se, mas com essa paixo triste, reservada e resignada que no amortece, mas antes pelo contrrio se fortifica e afervora 
com as contrariedades; que estremece, mas no desalenta, com as apreenses do futuro. No podiam e nem se animavam a dar franca expanso a um amor, cujas funestas 
conseqncias entreviam vagamente. Posto que jovens, eram inteligentes e tinham tino bastante para calcular as contrariedades e desgraas, que os aguardavam no futuro. 
Eis por que os encontramos acabrunhados de tristeza na cena do jardim. Vagos pressentimentos comeavam a enturvar com uma ligeira nuvem de melancolia essas frontes 
juvenis, at ali to serenas e radiantes de felicidade.
      Depois que o major teve a desastrada mania de atrair  sua casa uma chusma de estudantes, bem se pode compreender em quantas novas torturas as inquietaes 
e cimes fariam estorcer-se o agitado corao do mancebo.
      No podia escapar  sua penetrao o motivo que levava seu patro a promover essas freqentes reunies de estudantes de classes elevadas; para ele era evidente 
que o major tinha em vistas ajeitar entre eles um bom marido para a menina. Para cmulo de angstia ele bem percebia que sua vaidosa patroa se deixava inebriar nos 
turbilhes de incenso que a envolviam, e ao menos na aparncia abandonava-se de bom grado ao enlevo das sedutoras homenagens, que todos os dias lhe eram depostas 
aos ps. Contar os dias de tribulao que passou, e as noites de angustiosa insnia, que levou nessa quadra fatal, seria uma jeremada sem fim.
      No dia em que Adelaide recebera a carta fatal, que conhecemos, Conrado estava em seu quarto, solitrio, dando livre curso s suas mgoa e cuidados, quando 
ela entrou rpida e inesperadamente com a fisionomia alterada e mais rubra que de ordinrio, trazendo na mo um papel, que amarrotava entre os dedos convulsos. O 
simples fato de apresentar-se ela sozinha em seu quarto j era um motivo de surpresa para Conrado, onde Adelaide depois que se tornara moa, entrava raras vezes, 
e sempre acompanhada por algum. A singular expresso do gesto arrebatado e a fisionomia transtornada da moa fizeram subir de ponto sua estranheza.
      - Que  isso, patroa?... O que h de novo?! - exclamou, levantando-se bruscamente da cama, onde se achava meio reclinado com a face encostada sobre a mo.
      - O que h, o senhor vai ver j, se quiser ler esse papel - respondeu com um acento spero e convulso, entregando o papel a Conrado - Leia, mas s para si; 
poupe a meus ouvidos semelhantes infmias. Que insolncia, meu amigo!... Que ultraje!...
      Estas palavras - meu amigo - que na expanso de sua clera escaparam aos lbios de Adelaide, soaram como um hino mavioso aos ouvidos de Conrado. Travou do 
papel e comeou a ler com vida curiosidade os versos injuriosos, de que fizemos meno.  difcil explicar as impresses mltiplas e encontradas, que semelhante 
leitura suscitou de chofre no esprito do mancebo. Por um lado, no podia deixar de indignar-se contra a audaciosa petulncia do perverso, que no hesitara em insultar 
a uma linda, inofensiva e cndida donzela, arrancando lgrimas de despeito e vergonha queles olhos formosos, pelos quais era capaz de dar a vida. Conhecesse ele 
o autor de to miservel procedimento, que iria sem hesitar, naquele primeiro mpeto de clera , cravar-lhe uma bala na cabea.
      Por outro lado, porm lhe parecia que aquele injurioso papel era o prenncio de inevitvel ruptura entre o major e os estudantes, que dali em diante achariam 
sempre trancadas as portas da casa e no poderiam mais requestar sua querida patroa. Era um peso que lhe tiravam de cima do corao, e quase bendizia o maligno estudante, 
que teve a satnica lembrana de enderear a Adelaide to insultuoso pasquim. O pobre moo, portanto, depois da leitura, que fez lentamente para dar tempo  reflexo, 
viu-se em supremo embarao, e ficou longo tempo silencioso sem saber o que devia dizer a sua jovem patroa.
      - Ento, que me diz a isto?... - perguntou, impaciente, a moa, que esperava da parte de Conrado uma exploso de invectivas e ameaas ferozes - No acha um 
desaforo inqualificvel, um atentado, que no pode passar sem castigo?...
      -- verdade, minha bela patroa; isto  revoltante, e no meu entender no pode partir seno dessa corja de estudantes, que o patro velho tinha a imprudncia 
de chamar para a casa.
      - Disso estou eu certa; no me diz nada de novo - atalhou Adelaide, com enfado. - O que eu desejava saber era qual deles foi que teve a petulncia...
      - Isso h de ser custoso - replicou o mancebo. - Eram tantos, e cada qual mais insolente...
      - No creia nisso. A nenhum deles maltratei, para dar-lhes o direito de me desfeitearem assim. Suponho que isso no pode proceder seno daquele maldito bugre, 
muito feio e muito fusco, que queria a todo transe ser meu mestre de msica. Como o tratei com o desprezo, que merece, assentou de vingar-se por esse modo infame.
      - Pode ser que sim e pode ser que no. A patroa no podia fazer igual agrado a todos eles; bastava mostrar mais agrado a um, para que os outros ficassem despeitados. 
A patroa no sabe com que gente perversa lidava!...
      - Mas eu nunca mostrei preferncia a nenhum - retorquiu a moa, erguendo a fronte com altivez. 
      - No diga isso; perdo, minha bela patroa, mas s vezes, mesmo sem se querer, conversa-se mais com um do que com outro. Eu penso que o autor destes versos 
tanto podia ser o bugre, de que a patroa falou, como o tal Sr. Azevedo, esse antigo amigo do patro, que ultimamente tambm andava emburrado em razo do... da amizade, 
que a patroa mostrava ao sonso do sr. Belmiro.
      At Conrado iludia-se e tinha cimes do pobre Belmiro! 
      - No sei, mas  preciso saber - respondeu Adelaide, com precipitao. - Fosse l qual fosse, -me absolutamente necessrio saber quem foi.
      - Isso h de ser bem difcil, minha bela patroa, porque entendo c para mim que foi toda essa corja, que de comum acordo dirigiu-lhe essa desfeita.
      - No; isso no  possvel... Diga-me uma coisa: o senhor no tem relaes com algum desses estudantes? No costuma ir a casa deles?...
      - Por desgraa minha tenho ido, quando o patro tem a maldita lembrana de mandar-me com algum recado ou carta de convite. 
      - Pois bem,  quanto basta. Nada lhe custa ir a casa de um ou outro, escutar o que se diz, puxar um ou outra conversa... Por este meio por fora havemos de 
saber quem foi, e ... ah!...
      Adelaide interrompeu-se, exalando um suspiro de indignao.
      - E depois, patroa? - perguntou respeitosamente Conrado.
      - E depois... eu julgo que o senhor me tem bastante afeio, no  assim?
      - Oh! muita! muita! - exclamou o mancebo, quase caindo aos ps de Adelaide.
      - Portanto, no consentir que fique sem vingana semelhante ultraje feito  sua patroa, no  assim?
      -Sim, sem dvida; mas o que quer a patroa que eu faa?...
      - Que me vingue.
      - Bem! estou pronto... Mas como e de quem hei de vinga-la?... Se ao menos eu conhecesse o autor desse miservel papel, eu iria procurar at o fim do mundo; 
tenho um bom cavalo, um clavinote e um par de garruchas, que nunca negaram fogo, nem erraram o alvo...
      - No, no; no  preciso que mate, basta uma sova de chicote, ou umas bofetadas, em lugar bem pblico, na cara do insolente.
      - Oh! senhora, eu preferiria dar um tiro, ou uma estocada!... Mas se eu nem sei qual  o insolente...
      - Ah!... hesita, no tem nimo!... - replicou Adelaide, com melanclico desdm. - Eu julgava que o senhor me tinha algum afeto, que se doa de minhas afrontas; 
mas agora vejo o contrrio. Adeus!
      E Adelaide, voltando as costas com um gesto desdenhoso, ia retirar-se.
      -Perdo, minha querida patroa; escute-me ainda um instante. Eu quero, eu devo mesmo dizer-lhe certas coisas, que talvez lhe esfriem esses desejos de vingana; 
mas tenho tanto medo de enfad-la! - disse Conrado, embargando-lhe a sada.

      - Certas coisas!... Que certas coisas so essas? Ficarei enfadada se, se no me disser.
      Antes de ouvir a resposta de Conrado, cumpre-nos interromper aqui o dilogo entre os dois jovens, para dar certas explicaes necessrias para compreender 
o seguimento do mesmo.
      Conrado h muito tempo, e sem o querer, j sabia que a pretendida fidalguia do Major Damsio no passava de fumo, que s existia em sua cabea, fatuidade que 
se lhe encasquetara nos miolos e aderira a eles por modo tal, que com o andar dos tempos  se transformara em conscienciosa e profunda convico. Talvez algum, para 
lisonje-lo ou zombar com ele, aproveitando-se da fraqueza de seu esprito, tomara o trabalho de persuadi-lo, que ele era descendente genuno do tronco dos Buenos 
e dos Andradas. Um dia, nas ruas de S. Paulo, um homem vendo passar o jovem curitibano, e atrado por sua bonita figura, querendo talvez toma-lo a seu servio, travou 
com ele conversao e perguntou-lhe com bom modo quem e donde era, e em que se ocupava. O adolescente respondeu franca e lisamente a todas as perguntas, e declarou 
que estava empregado como camarada em casa do Major Damsio.   
      - Oh! muito bem! est otimamente arranjado - disso o tal homem. - O major  excelente pessoa; s tem o defeito de ser um fanfarro muito tolo, que tem fumaas 
de branquidade e fidalguia, que nunca teve; mas l isso  uma sandice, que a ningum prejudica...
      - Como! - exclamou o rapaz muito surpreendido. - Pois ele no  mesmo branco e fidalgo, como diz?
      - No creia tal - respondeu o homem. - Que  aqui em S. Paulo que no sabe que ele  filho de um cigano e de uma ndia guarani, que foi peo ou domador de 
burros, e que se casou com uma mulata da casa de um figuro, que foi quem o fez gente, e que teve dela uma filha, que... essa, sim,  fazenda fina. 
      Conrado no contestou, mais a princpio no quis dar inteiro crdito ao dito desse homem, e da em diante, em vez de ser interrogado, era ele quem interrogava 
com jeitosa precauo a uns e a outros, procurando esclarecer-se sobre a verdadeira genealogia do patro. De todos em geral ouviu a confirmao do que lhe dissera 
seus primeiro interlocutor, e ficou plenamente convencido que a aristocrtica estirpe de sua idolatrada Adelaide tinha um dos seus troncos imediatos na senzala do 
cativo e outro na barraca ambulante do cigano e na taba do selvagem. Essas revelaes a princpio no deixaram de molesta-lo, no porque antevia com mgoa extrema 
e cruel humilhao por que teria de passar o corao da pobre moa, quando chegasse ao conhecimento de sua verdadeira origem, como tarde ou cedo teria de acontecer.
      Entretanto, tambm no podia deixar de comprazer-se no ntimo da alma por ver sua querida patroa apeada desse aristocrtico pedestal, em que a fanfarronice 
do pai pretendia coloca-la, vendo assim destruda em seu esprito a barreira que parecia separ-los.
      - Somos iguais - refletia ele - se  que no sou superior, pois no me consta que meu bero resvalasse pela senzala. A superioridade, que existe,  portanto 
s da riqueza; mas eu sei trabalhar, e um dia posso tambm tornar-me rico.
      Essas reflexes vinham dar mais azo e mais livre expanso  paixo do mancebo, at ali to tmida e concentrada; sentia porm que Adelaide estivesse ainda 
em to completo engano a respeito de sua genealogia, e como no tivesse nimo para desiludi-la, esperava que algum feliz acaso viesse fazer cair-lhe a venda dos 
olhos. Quando a viu rodeada dessa turba de moos elegantes que o major costumava reunir em casa, mil vezes teve mpetos de ir declarar-lhe tudo; mas continha-se 
imediatamente; receava com todo o fundamento no ser acreditado; semelhante revelao podia ser tomada at como um insulto, e o menos, que lhe poderia acontecer, 
seria ser enxotado ignominiosamente da casa. O caso, portanto, nesta ocasio, fazendo chegar s mos de Adelaide o horrvel pasquim dos estudantes, vinha servi-lo 
de um modo que ultrapassava todos os seus desejos e esperanas.
      Agora que o leitor j se acha inteirado de quais eram essas certas coisas, que Conrado tinha tanto medo de revelar  patroa, prossigamos no dilogo, que deixamos 
interrompido.  
      -Certas coisas! - exclamou Adelaide. - Por que no as diz? Pode falar sem rebuo.
      - No sei se devo dizer... A patroa promete que no se enfadar?
      - Pior  tanto rodeio; isto mata-me a pacincia. Agora quero absolutamente que me diga que coisas so essas.
      - Mas a patroa promete...
      - Prometo tudo; tudo que quiser - atalhou Adelaide, impaciente. - Vamos ao caso.
      - O caso, minha bela e querida patroa, perdoe-me se lhe falo com franqueza, o caso  este...  que...
      Conrado hesitou ainda; a cruel revelao ficava-lhe entalada na garganta sem ousar querer aos lbios.
      -  o que, meu Deus? - gritou a moa, batendo o p, e mordendo os beios de impacincia. - Acabe com isso, seno vou-me embora, e nunca mais falo com o senhor.
      Essa terrvel ameaa acabou com toda a hesitao de Conrado!
      - O caso  - disse ele resolutamente, que isto que dizem os versos no deixa de ser verdade.
      - Verdade!... Isso verdade!... At o senhor... O senhor tambm atreve-se a... a insultar-me!... Ah! - exclamou Adelaide, empalidecendo com os olhos fuzilantes 
de clera.
      - Bem sabia eu que ia mago-la - replicou o mancebo, consternado - mas perdoe-me, minha boa e linda patroa; no sou eu que o digo;  o povo todo desta cidade.
      - O povo todo... E como o senhor sabe?
      - Sem o querer, minha senhora; no me leve isso a mal; todos por a dizem a quem quer ou no quer ouvir que a fidalguia do patro no passa de ridcula fanfarronada, 
e atestam tudo quanto est escrito nesse maldito papel.
      - Basta, basta Sr. Conrado! Faltava-me ainda esta triste vergonha para tornar-me a mais infeliz das criaturas!
      Dizendo isso, Adelaide deixou-se cair sobre um tamborete, que ali estava junto a uma mesa, e escondendo o rosto entre os braos, desatou a chorar.
      - No chore, minha patroa. Que  isso!... Ah! meu Deus, quanto me arrependo de lhe ter contado semelhantes mexericos!... Quem d importncia a tais falatrios?! 
Tudo isso sem duvida no passa de pura inveno de alguns maldizentes e invejosos, que no gostam do patro, por ser possuidor de uma boa fortuna e pai da moa mais 
bonita que pisa nas ruas de S. Paulo. E que importa que o seu sangue no seja de Fidalga? Nem por isso a patroa deixa de ser quem , a mais bela, a mais nobre, a 
mais encantadora das moas... Ah! por quem ! no continue a chorar assim! Desastrado que eu fui!... Perdoai-me, minha linda patroa; essas lgrimas, que est chorando, 
me parece que so espremidas do meu corao.
      Estas palavras que Conrado proferia, todo consternado e confundido, procurando consolar Adelaide, no produziam sobre ela a menor impresso, e parecia mesmo 
que ela nem as ouvia. Levantou-se, plida e trmula, e sem dizer mais nada ia retirar-se.
    - Est mal comigo? - perguntou timidamente o mancebo.
    - No, - respondeu Adelaide com tristeza - mas bem v que a notcia que me traz nada tem de agradvel. Quero saber, se sou isso mesmo que o senhor diz.
    - Perdo, patroa; no sou eu que digo;  o povo.
    - Pois bem, seja assim. Quero e hei de saber se  verdade o que diz o povo.  bom que cada um conhea o seu lugar.
    - Ah! minha senhora, no h motivo para se afligir tanto - continuou Conrado, tentando ainda um esforo para atenuar o efeito do golpe doloroso, com que acabava 
de fulminar a vaidade da moa - O nascimento nobre ou obscuro  coisa que nada significa em nosso pas. Se formos apurar a gerao de muita gente grada que por 
a anda blasonando fidalguia, h de se ver que os troncos, de que descendem, no so em nada melhores do que o da patroa. Em nossa terra  uma sandice querer a gente 
gloriar-se de ser descendente de ilustres avs;  como dizia um velho tio meu: - no Brasil ningum pode gabar-se de que entre seus avs no haja algum que no tenha 
puxado flecha ou tocado marimba. O talento, a bondade, e principalmente a riqueza,  que do importncia s pessoas. A patroa, alm de rica,  boa, pura e bela como 
um anjo, e por isso h de sempre ocupar na sociedade uma posio brilhante...
    -Brilhante!... Ah! sim! servindo de chacota ao povo e de joguete aos estudantes!... Ditas essas palavras, Adelaide retirou-se bruscamente, deixando Conrado entregue 
 mais ansiosa inquietao.
    - Que ir ela fazer? - ficou ele pensando - cheio de arrependimento e tremendo pelas conseqncias da revelao que acabava de fazer. - Se vai levar tudo aos 
ouvidos do patro, estou perdido! Desarrozoado como  ele, principalmente neste particular, vai fazer uma estralada de mil demnios, e por certo no serei eu o poupado, 
eu que lhe machuquei o melindre, que pisei em cheio no rabo da cainana!... Ah! permita Deus que tal idia no passe pela cabea de Adelaide!

Captulo XIV

Cai de todo a venda

      Eram de todo infundados por este lado os receios de Conrado. Adelaide, saindo do quarto de seu jovem camarada, correu imediatamente para seu aposento a fim 
de coordenar seus idias agitadas, cobrar alguma calma e refletir sobre o meio que empregaria para ter pleno conhecimento da verdade a respeito da sua genealogia, 
que agora via ameaada de ser de sbito arrojada do solar da mais alta fidalguia  pocilga das senzalas. Tinha toda confiana em Conrado, e dava inteiro crdito 
s suas palavras; mas, no caso melindroso de que se tratava, teve certos motivos para desconfiar e tornar-se incrdula. Cismou que o moo, no podendo elevar-se 
at ela pelo lado da gerao, levado talvez tambm por cime e despeito, queria rebaixa-la at a si.
      Adelaide no levou muito tempo a refletir; veio-lhe logo  lembrana a preta Lucinda, a escrava mais antiga do major, cozinheira, copeira e quase mordoma da 
casa desde tempos imemoriais, e que impreterivelmente devia saber a genealogia dos progenitores de sua sinh moa. Foi logo procura-la e, depois de uma breve conversao 
e rodeios preliminares, comeou o interrogatrio.
      -Voc conheceu bem mame, no  assim, Lucinda?
      - Como no, sinh? Por sinal que era uma mocetona bonita mesmo, sinhazinha  o retrato dela.
      - E minha av, a me de mame, voc tambm conheceu?...
      - Ah! essa conheci tambm... era... 
      A preta hesitou e calou-se.
      - Quem era? Fala! No sabes de que famlia era? - insistiu Adelaide.
      - No sei, no, sinhazinha; branco  que sabe dessas coisas.
      - Nem sabes me dizer se era de boa gente?
      - Ah! sinhazinha, pois o sinh velho havia de casar com gente ruim?...
      - Pois escuta, Lucinda; eu j ouvi dizer que papai  filho de um cigano, e que a defunta mame foi forra na pia.
      - Cruz! Ave Maria! - exclamou a preta, arrepiando-se toda, mas com certo risozinho expressivo, que a seu despeito significava muito. - Quem   que anda contando 
essas candongas a sinhazinha?... No sei disso no; cruz!
      - Voc bem sabe, Lucinda;  porque no quer me contar.
      - Qual, sinhazinha; isto  mexerico de gente que no tem que fazer. E sinhazinha que importa com isso agora?... Deixa a boca do mundo falar. Sinh  rico, 
no  assim? Sinhazinha  bonita, prendada, e eu no vejo a na cidade moa nenhuma que lhe chegue aos ps. Tira isso da imaginao, sinhazinha.
      Adelaide era de esprito fino e atilado; compreendeu perfeitamente as respostas evasivas e o riso ligeiramente sardnico da velha escrava; para ela no existia 
mais dvida alguma; o que o povo assoalhava a respeito de sua ascendncia era a pura verdade. Foi violento e profundo o desgosto que sentiu ao ter a certeza da humildade 
de sua procedncia, mas no foi de muita durao. O major tambm ficou sumamente acabrunhado com a chacota dos estudantes e jurou pelas cinzas de seus antepassados 
nunca mais abrir sua porta a nenhum deles, nem mesmo que viesse recomendado pelo compadre Tobias. O pobre Conrado estava como esmagado sob o peso da nova e tormentosa 
crise, por que passara a casa do patro, crise ocasionada a princpio pelo pasquim dos estudantes, e agravada depois pelas indiscretas revelaes que fizera  patroa. 
Ouvia os passos do major, a passear de um para outro lado pelas salas e corredores da casa e a resmungar com voz carregada frases de indignao, que no podia bem 
ouvir, e esperava, aterrado, as conseqncias do despeito e da clera do pai e da filha. Adelaide tambm deixava de aparecer, e se havia recolhido, triste e amuada, 
a seu aposento a fim de chorar a ss a injria e humilhao por que passara. Tudo isso vinha avivar a inquietao do mancebo, que, apesar de lhe ter Adelaide asseverado 
que no estava mal com ele, nem por isso deixava de nutrir as mais aflitivas apreenses.
      Os leitores notaram por certo o desplante e seguridade com que Adelaide pedira a seu pai que deixasse por sua conta o negcio dos estudantes; viram tambm 
como esse esprito de vingana achou-se desapontado e encolheu as asas com as revelaes de Conrado e as respostas evasivas de Lucinda.
      - Ento, minha filha, que fizeste? - perguntou o major, no dia seguinte,  sua filha, vendo que ela nem tocava em semelhante assunto. - No me pediste que 
deixasse por tua conta o castigo dos biltres que te insultaram?
      -  verdade, papai! - respondeu a moa, com ar constrangido - mas depois refleti que mexer nessa porcaria era dar-lhe vulto e importncia, que ela no merece. 
Tranquemos a porta a essa canalha, fiquemos em nosso canto e deixemos o mundo falar. Tudo o mais  desafiar escndalos, que nos viro encher de maior vergonha ainda.
      - Como?! - replicou o major, empertigando-se. - Eu amuar-me a um canto e consentir que vivas tambm sepultada na obscuridade, a ti que, por teu nascimento, 
tua formosura e tuas prendas, nasceste para brilhar no mundo! No faltam homens de todas as classes e de todas as condies, que at se daro por muito honrados 
em freqentar nossa casa; homens sisudos, doutores, mdicos, militares, e no essa corja de farroupilhas e pelintras, libertinos sem moral nem religio. No! nunca! 
nunca!... E tudo isso s por causa de um biltre insolente, que nos mimoseou com um papel sujo!... Oh! no, no, mil vezes no!... Que no conhece o major Damsio 
Augusto Bueno de Aguiar e Andrada?
      - Sim, meu pai; no duvido do que diz; mas todos esses figures sero tambm capazes de nos atirar lama  cara no dia em que eu no quiser corresponder ... 
Oh! meu pai, deixemos de nos intrometer nem com estudantes, nem com fidalgos; fiquemos sossegados em nossa casa, e deixemo-nos de bazfias. Cada um deve conhecer 
o seu lugar; no h coisa pior do que andar alardeando fidalguia, mesmo para quem a tem.
      Estas palavras penetraram como lminas de gelo no corao do major, que encarou a filha de alto a baixo, cheio de espanto e confuso. Era a primeira vez que 
a ouvia falar com tanto desembarao, tendo em pouca conta e como que pondo em dvida a nobreza de sua linhagem. Quem teria transtornado assim as idias da menina? 
No podia capacitar-se de que a simples leitura de um miservel pasquim a levasse a descrer da alta procedncia de sua genealogia. Entretanto, percebeu que a iluso, 
em que pretendia mant-la, tendia evidentemente a desvanecer-se, e isso era a mais horrvel das provaes por que podia passar a fatuidade do major.
      - Ento, desconheces a  nobreza do teu nascimento? - perguntou ele, querendo sondar o esprito da filha.
      - No desconheo, e nem conheo, meu pai; e o melhor seria mesmo nada saber.
      A esta rplica, curta e incisiva, o major nada ousou objetar, e embuchou todo amuado e de mau humor.
      Desde esses dia, a casa do major mudou completamente de aspecto; a alegria, o movimento e a vida que at ento ali reinavam foram substitudos por um silncio 
monstico, por uma solido quase absoluta. A porta da entrada estava sempre trancada, e no se via mais, s tardes, o bom do major emoldurado em seu alpendre de 
trepadeiras, fumando tranqilamente o seu havana, esperando a chegada de algumas dessas visitas, que com sua conversao costumavam suavizar-lhe as horas do quilo.
      Assim passou-se cerca de um ms, durante o qual a chcara do major parecia jazer em muda e aptica inao, e quem por ali passasse pensaria que os habitantes 
dela estavam de nojo pela morte de algum dos membros da famlia.
      O autor e os cmplices do insolente e horrvel atentado, que ps por terra a aristocrtica prospia do major, nunca mais lhe puseram os ps em casa; outros 
estudantes, porm, alheios a essa trama satnica, ma adoradores apaixonados de Adelaide e pretendentes s suas graas, l lhe foram bater nos ferrolhos. Mas Adelaide 
no lhes apareceu, e o major os tratou com to cerimoniosa frieza, que saram com a firme resoluo de nunca mais l voltarem.
      Belmiro tambm, que seduzido por falazes aparncias ainda nutria algumas lisonjeiras iluses, lembrando-se do convite, que tivera para dar lies de violo 
 menina, animou-se a ir um dia  casa do major. No foi bem mais sucedido que os outros, Adelaide foi tambm invisvel para ele, e o pai s apareceu para declarar-lhe 
positivamente que a filha no queria mais estudar violo, e que de mais a mais estava resolvido a cortar todas as suas relaes com estudantes. Belmiro, que estava 
ao fato das ocorrncias, mas que realmente no tomara parte nelas, antes reprovara alta e categoricamente o procedimento de seus colegas, comeou a balbuciar algumas 
frases, tentando em vo justificar-se; seu discurso foi atalhado in limine, e teve de retirar-se como os outros, inteiramente desapontado e desencantado. No dia 
seguinte, comps e atirou s auras da publicidade algumas estrofes descabeladas, repassadas de fel e desespero, em que prometia suicidar-se. Mas no consta que cumprisse 
a promessa, nem tampouco que seus versos fossem lidos por Adelaide.
      Antes de terminar este capitulo, no  indispensvel declarar que, assim como Belmiro, nenhum dos outros seus companheiros, que no comeo desta histria achamos 
reunidos na casa da Rua da Constituio, teve parte na cruel vindita, com que alguns desalmados procuraram desforar-se dos desdns da filha do major.
      O Azevedo tambm no foi entrado nessa trama, pois quando ela se deu, j se achava ausente em frias.
      - Ento, como vai a tua Adelaide? - perguntou ele, em maro do ano seguinte, a Belmiro, com quem se encontrou na Academia.
      - A minha Adelaide!... To minha quanto tua.
      - Sim?! Ento no prosseguiste com o teu namoro?... Pois  pena; ia to bem encaminhado...
      - Ora, deixe-te disso, Azevedo? Se foste tu mesmo que atrapalhaste tudo!...
      - Como! Eu?...
      - Ora, como!... Apresentando l o Couto.
      - Pois que tinha o Couto?
      - Que tinha?!... No te faas assim desentendido.
      - Ah!...  verdade!... Agora me lembro; o major, que  todo afidalgado, no gostou...
      - Pois bem, hs de tambm estar lembrado que, no primeiro dia que l fui, dei a D. Adelaide um cravo caboclo, caso de que muito te aproveitaste para manter-me 
 bulha.
      - Isso  verdade.
      - Pois sim; tu fizeste pior. Eu dei-lhe flor cabocla, mas mui linda e mui cheirosa, e tu lhe ofereceste um verdadeiro caboclo de carne e osso, que a dizer-te 
a verdade, no  dos mais lindos, e para que? Para seu mestre de msica!... Confessa que fizeste aquilo por despeito e de propsito para achincalhar a moa.
      - No, meu Belmiro, acredita-me; como vi que ela gostava muito de msica, foi s para tirar-te essa vantagem que apresentei o Couto, compreendes?... Eu queria 
reconquistar a posio de que ias me desalojando.
      - E com isto produziste a mais temvel das crises. O meu cravo caboclo foi o prlogo desse drama; o teu violonista caboclo produziu o  entrecho; o pasquim 
dos estudantes trouxe o terrvel desenlace.
      - Qual pasquim?... Conta-me isso.
      Belmiro contou ento a historia do abominvel epigrama e da ruptura completa de relaes, que produziu entre a famlia do major e os estudantes.
      - Agora  escusado l ires mais - terminou. - nem o major nem Adelaide querem ver mais estudantes nem pintados.
      - Melhor! - disse friamente Azevedo. - Tambm aquelas viagens j me iam enfadando, e roubavam-se muito tempo.
      Assim pois, tanto o major e sua filha como eu e o leitor, daqui em diante, ao menos por muito tempo, vamos nos ver livres de estudantes.

Captulo XV

Mudana completa de situao

        Grave e profunda modificao comeou a operar-se desde essa poca no esprito e no corao de Adelaide. Com o cruel desencanto que sofreu, tendo a certeza 
que seu bero, longe de ter sido embalado entre as galas da aristocracia, se escondia na mais humilde obscuridade, ela, acostumada a ser sempre idolatrada, recebendo 
quotidianamente as lisonjeiras homenagens de gentis e ilustres cavalheiros, no fez pequeno sacrifcio para acomodar-se com o novo gnero de vida de recolhimento 
e solido, que a si prpria tinha imposto, contrariando as vistas paternas. Mas no durou muito tempo esse estado de angstia e prostrao; seu esprito vivaz e 
feliz e vigorosa organizao no eram feitos para sucumbir ao peso de qualquer desgosto.
        Tinha ela inteligncia bastante clara, e sabia filosofar maravilhosamente, e bem depressa compreendeu que lhe no era mais possvel contraria a sorte, boa 
ou m, a que nascera destinada.
        A conscincia humana  como um tanque cujo fundo no se pode ver, quando a gua est turvada e revolta, mas sim quando, em estado de perfeita inquietao, 
se mostra em toda a sua serenidade e limpidez.  assim que Adelaide, depois que se recolheu  vida do silncio e do repouso, livre das distraes, que lhe arrebatavam 
o tempo, e das inquietaes, que lhe alvoroavam o esprito, pde ler distintamente, no fundo do seu corao, o que realmente ai se achava gravado em caracteres 
indelveis. Reconheceu que amava muito a seu companheiro de infncia, que fora esse amor que a tinha preservado de ligar-se por laos mais ntimos a algum dos amantes 
que at ali a tinham galanteado, e que somente a considerao da pretendida desigualdade de posio social fizera com que at ali ela, procurando iludir-se a si 
mesma, tentasse em vo esquivar-se  influncia desse sentimento, que desde a infncia havia germinado e pelo decurso do tempo lanado razes profundas em seu corao. 
Agora que as revelaes de Conrado acabavam de nivelar as condies de ambos, no tinha mais de que corar, consagrando os afetos de sua alma a um homem que era seu 
igual. A esperana de um amor feliz a bafejava, e parecia-lhe possvel conseguir que se pai, desistindo de suas loucas pretenses aristocrticas, firmasse enfim 
a felicidade de ambos consentindo em seu casamento. Em conseqncia, suas relaes com o jovem camarada foram se tornando menos tmidas, e mais assduas e afetuosas. 
Adelaide tinha o corao propenso ao amor e  ternura, e um temperamento vigoroso e ardente, sobre o qual a sensualidade exercia naturalmente grande domnio. No 
isolamento, a que se viu condenada, parte por foras das circunstncias, parte por sua prpria deliberao, essas qualidade ou defeitos, em vez de se refrearem, 
desenvolveram-se em toda a sua plenitude, porque acharam para isso j predispostos condies e elementos os mais favorveis.
        As freqentes reunies, que se davam em casa do major, de uma sociedade espirituosa e alegre, faziam profcua diverso s tendncias do organismo de Adelaide; 
mas logo que elas faltaram, sua natureza ardente, sangunea e exuberante de seiva juvenil, entregue a si mesma, teve de ir cedendo  imperiosa influncia das sedues 
do sensualismo e dos sonhos inebriantes do corao. 
        Tinha um corao sequioso de amor; o objeto desse amor j h muito estava escolhido, vivia junto dela, e fora embalado em sua imaginao desde os sonhos 
inocentes da puercia.
       -H males que vem para o bem - disse ela um dia ingenuamente a Conrado.
       -  verdade; mas a que vem isso agora? - perguntou este.
       - Pois no compreende?...
       - No.
       - No tempo em que eu me julgava fidalga, lhe queria bem,  verdade; mas tinha no sei que receio ou vergonha de lhe falar nisso. Isso, pode acreditar que 
era muito contra a minha vontade; eu vivia constrangida, e era bem infeliz, porque julgava que estava condenada a casar-me com quem meu pai quisesse; estudante, 
doutor ou fidalgo. Isso para mim era um suplcio, se bem que no deixasse de divertir-me  custa dessa gente que se reunia aqui em casa. Hoje no; sou outra; j 
sei quem sou. O senhor me entende, creio eu.
       - Oh! sim, sim, creio que sim! - exclamou o mancebo em uma efuso de jbilo que mal podia comprimir. Se no estou enganado no modo de entender suas palavras, 
minha querida patroa, sou a criatura mais feliz deste mundo.
       - No se engana;  isso mesmo que o senhor pensa - respondeu corando Adelaide, e ia retirar-se; mas Conrado a deteve, e, travando-lhe da mo, beijou-a com 
ardor.
       - Oh! mil graas! - dizia o mancebo, apertando com indizvel emoo entre as suas a mo que Adelaide lhe abandonava. - Mil graas!... No faz idia do quanto 
me torna feliz.
        Depois desta singela e ingnua declarao de amor, feita por meias palavras, os dois jovens se entregaram sem constrangimento  expanso de um sentimento 
que, de dia em dia, se tornava mais intimo e extremoso, conquanto procurassem cuidadosamente ocult-lo aos olhos do major, que, entretanto, no era muito perspicaz 
para surpreender os segredos do corao.
        Adelaide era como o leitor j sabe, de uma beleza plstica e mais provocadora. O seio trgido, sempre arfando em mrbida ondulao, parecia o ninho da ternura 
e dos prazeres; o olhar, a um tempo cheio de meiguice e de fogo, como que derramava fulgores divinos sobre toda a sua figura; as faces rseas os lbios purpurinos 
eram como esses pomos vedados, que no paraso seduziram os progenitores da humanidade e ocasionaram sua primeira culpa; e o porte dotado de elegncia natural, com 
suas voluptuosas ondulaes e meneios graciosos pareciam estar cantando eternamente o hino de amor e de volpia; as feies, no muito corretas, eram animadas por 
uma fisionomia de to encantadora expresso, que impunha a adorao, sem dar tempo  observao.
        Conrado, tambm dotado pela natureza de um porte esbelto e vigoroso, de uma fisionomia simptica e expressiva, de maneiras lhanas e atrativas, com sua tez 
de um moreno delicado, seus olhos negros e cheios de fulgor, havia-se tornado um dos mais belos e amveis mancebos, um tipo acabado desses geis e garbosos gachos, 
que vagueiam pelos descampados pampas das regies argentinas. Era enfim, como bem o havia dito um estudante, um verdadeiro Adnis americano.
        O major, ora trancado em seu gabinete, ora na quinta dirigindo o trabalho dos escravos, parecia esquecido que tinha em casa uma filha de dezesseis anos em 
companhia de um bem apessoado rapaz de dezenove a vinte, e ou porque tivesse nela absoluta e cega confiana, ou porque no compreendesse quo melindroso e frgil 
vaso  a honestidade de uma donzela, no nutria a menor apreenso. A tia Eullia, irm do major, essa era de todo incapaz de compreender o que se passava em torno 
dela, e s cuidava em dar milho s galinhas e em rezar. A velha escrava Lucinda, a nica que talvez j maliciava alguma coisa a respeito das relaes entre os dois 
jovens, nenhum interesse nem obrigao tinha de embaraa-las... Debaixo de to felizes auspcios e com tantas facilidades, os amores de Adelaide e Conrado deram 
em resultado o que deixo o leitor adivinhar.
        Conrado, moo dotado pela natureza dos mais nobres sentimentos, cheios de honra e pundonor, tinha at ento adiado o pedido, que pretendia fazer ao major, 
da mo de sua filha, e isso de acordo com ela. Pretendiam, antes de dar esse passo, preparar o terreno, procurando desvanecer as bazfias e prejuzos aristocrticos 
do velho, e por meios brandos e suasivos reduzi-lo a sentimentos mais cordatos e razoveis. Coitados! quanto se enganavam!... Mal pensavam que era isso uma empresa 
absurda e quase impossvel. Mas nutriam essa esperana, e isso os desculpa.
        Depois de sua falta, porm, Conrado compreendeu e fez sentir  sua amante que no convinha haver mais dilatao, e que era foroso resolver quanto antes, 
de um modo franco e expedito, as dificuldades de sua situao. O que mais afligia ao mancebo era seu estado de pobreza; pouco possua para abalanar-se e pedir a 
mo da filha de to opulento negociante. Era isso s o que o humilhava, porque s nisso consistia sua inferioridade; quando ao mais, estava pronto a apresentar-se 
ao major como igual a igual, embora com isso tivesse de ofender as estlidas veleidades aristocrticas do patro. Refletindo nisso, tomou uma resoluo inspirada 
por seus nobres sentimentos. 
        Muitos negociantes e muladeiros, simpatizando com o seu modo de proceder, sua honradez e atividade, tinham-lhe por diversas vezes oferecido a bolsa, para 
que negociasse por sua prpria conta. O rapaz porm tudo havia rejeitado at ali, pretextando diversos motivos, mas realmente pelo simples motivo que ele no declarava, 
de no querer abandonar a casa do pai de sua querida patroa. As circunstancias agora eram outras; tinha chegado a ocasio de aproveitar-se dos generosos oferecimentos 
de seus amigos.
        Depois de ter comunicado todos os seus planos a Adelaide, que os aprovou, apresentou-se ao Major Damsio.
        - Patro - disse ele - eu j estou homem feito; preciso tratar do meu futuro; o patro quase que no trata mais de negcios; a minha estada aqui no lhe 
 mais de utilidade alguma; e bem vejo que s por pura afeio e generosidade que me conserva em sua companhia. O patro tem sido para mim um verdadeiro pai, e portanto 
 meu dever pedir sua licena para me deixar sair em negcio por minha prpria conta.
       - Sim!?... No acho mau isso - replicou o major, com ar verdadeiramente paternal - mas o que vai fazer? Onde pretendes ir?
       - A Sorocaba ou Curitiba comprar uma boa mulada.
       - Deveras!... Mas com que dinheiro?
       - O patro no se embarace com isso; tenho quem me abone.
       - E por que no me vieste pedir? Ou em dinheiro ou em abono, bem sabes que eu no era capaz de negar-te.
       - Sei disso, patro, e beijo-lhe as mos, mas j lhe tenho sido bastante pesado, e no tive nimo de importuna-lo.
       - V feito; porm se precisardes de mim em qualquer ocasio, conta comigo, Conrado. Bastante falta me vais fazer; mas no quero atrapalhar a tua carreira. 
s rapaz esperto, e tenho esperana de que bem depressa hs de fazer fortuna.
       - Deus o oua, patro; mas no pense que me despeo por uma vez de sua casa; apenas der conta de meus negcios, bem ou mal sucedido,  aqui mesmo que hei 
de vir apear-me.
       - Sers sempre bem recebido. Quando te vais?...
       - Hoje; agora mesmo.
       - Que pressa!... Pois bem!... Deus te ajude. Adeus!...
       - At  volta, patro.
        Um momento depois, Conrado e Adelaide se abraavam, despedindo-se s escondidas, e vertiam no seio um do outro lgrimas amargas entre vagas esperanas e 
pungentes receios no futuro. Amavam-se como sempre, mas j no eram felizes como dantes. A verdadeira felicidade consiste na serenidade da alma, que resulta da inocncia 
; s quem no v nas sendas do passado nem um s ponto escuro pode encarar com tranqilidade e confiana os horizontes do futuro. Todavia, a esperana ainda os no 
havia abandonado e bafejava-lhes a mente com lisonjeiros sonhos de felicidade.
        
      Captulo XVI

       O Hspede
       
        Passaram-se uns meses de cruel angustia para Adelaide, e de fragueira e incansvel atividade para Conrado. A desditosa moa sentia agitar em seu seio o fruto 
da fraqueza que cara, fatal circunstncia que vinha agravar muito sua precria e melindrosa situao.
        Desde que a casa do major se fechou  sociedade, Adelaide se foi habituando a certo gnero de vida de recluso e isolamento, que a triste circunstncia, 
que acabamos de declarar, veio tornar no s cmoda e agradvel, como mesmo necessria. Seu trajo j no lhe merecia os mesmo cuidados e preocupaes de outrora. 
Seus enfeites, rendas, flores e fitas h muito jaziam esquecidos no fundo do guarda-roupa. O piano, esse alegre e grrulo intrprete das alegrias e emoes de outros 
tempos, tinha emudecido para sempre. Somente o jardim lhe merecia ainda alguns cuidados e atenes. Ali descia ela s vezes pela manh ou pela tarde, envolvida em 
uma longa mantilha, o rosto e toda a parte anterior do corpo cobertos com um vu, trajo pitoresco, de que mesmo algumas paulistas de distino usavam ainda naquele 
tempo, e ali passava algumas horas de saudade e melancolia entre suas flores queridas, nicas companheiras de sua solido.
        O major, homem que s tinha a susceptibilidade da fidalguia, e que desconhecia completamente a delicadeza dos outros sentimentos e paixes do corao humano, 
nem de leve suspeitava o verdadeiro motivo desse melanclico recolhimento, a que a filha se condenava, e julgando ser ainda o despeito e ressentimento em razo dos 
apodos e pasquins dos estudantes, esperava que o tempo viesse por termo a esse triste estado de misantropia e displicncia.
        Vendo porm que, com o decurso do tempo, longe de minorar agravava-se de mais em mais esse estado de tristeza e retraimento, comeou a inquietar-se com justa 
razo, e com o fim dar-lhe alguma diverso, props passeios e distraes, a que Adelaide obstinadamente se recusou.
        Desanimado e desgostoso com tanta relutncia o major, cedendo s sugestes de seu gnio bronco e atrabilirio, que nada compreendia das fraquezas e suscetibilidades 
do corao feminino, intimou um  dia a sua filha, em tom brusco e terminante, que escolhesse de duas uma, ou casar-se com um bom marido, que ele no teria muito 
trabalho em encontrar, ou recolher-se a um convento. A este novo golpe, Adelaide ainda resistiu, e a muito custo pde obter de seu pai que lhe desse tempo para refletir 
e dar-lhe uma resposta definitiva.
        Passado um ms, pouco mais ou menos, depois desta solene intimativa, em que uma bela tarde de setembro, apeava-se  porta do major Damsio um garboso mancebo 
que, pelos trajos e pela comitiva que o acompanhava, parecia um rico viajante, que vinha visit-lo ou pedir-lhe hospedagem. Vinha montado em um lindo cavalo pampa, 
ricamente arreado  moda curitibana, com um socadinho e todos os mais jaezes cobertos de prataria. O jovem viandante trazia tambm  moda dos guascas um pala listrado 
atirado ao ombro, botas de mateiro e chilenas de prata, chapu preto de feltro, e pendente ao punho um desses bonitos chicotes com o cabo coberto de um lindo e delicado 
tecido de prata, admirvel industria dos habitantes de Sorocaba, Curitiba e Rio Grande do Sul; um cinturo de marroquim apertava-lhe o talhe esbelto. O mancebo era 
gentil figura, e envergava com natural elegncia e desembarao todo esse trajo pitoresco e original. Acompanhavam-no um pajem preto, trajando vistosa libr, e dois 
camaradas rebarbativos, com suas garruchas pendentes ao aro, lao  garupa e comprida faca presa ao cinturo. Logo se via que era um rico muladeiro.
        Apenas anunciou-se a chegada do rico hspede, o major, segundo seu costume afvel e hospitaleiro, f-lo entrar para o seu gabinete, onde no se achava. Foi 
grande a sua surpresa, quando, no belo e elegante mancebo, que com tanto aparato se apeava  sua porta, reconhecendo o seu jovem capataz, o bom e fiel Conrado. Deu-lhe 
mil parabns, f-lo sentar com toda a delicadeza e cortesia, felicitando-o do fundo da alma pelo rpido e prospero sucesso de suas especulaes.
       - Ao que parece, disse-lhe o major, em tom  de benvola zombaria, medindo-o com os olhos de alto a baixo - fizeste dentro de seis meses, o que muitos no 
conseguem fazer em seis anos.  
       -  verdade, meu caro patro; comprei uma bonita mulada de mil cabeas, que andei vendendo pelas provncias de Minas e do Rio de Janeiro. A mono era excelente; 
havia muita falta de animais; vendi quase tudo  vista e a bom dinheiro, de modo que realizei de lucro lquido uns vinte e tantos contos de ris.
       - Bravo! Em to pouco tempo! Bonito negcio! - exclamou o major, entusiasmado. - Daqui por diante, quero ser teu scio... Se continuas nesse andar, em pouco 
tempo ests milionrio.
       - Foi Deus e o meu bom anjo que me favoreceram.
       - E no pretendes continuar com o negcio?
       - Por certo; mas antes de tudo tenho de fazer um pedido muito srio e muito importante ao patro. Se nesse pedido eu no for atendido, no sei o que hei de 
fazer, porque nesse caso tambm pouco me importa ser rico ou pobre.
       - Pois fala, rapaz, no te acanhes; bem sabes que no meu possvel estou sempre pronto a te servir- disse o major, repoltreando-se em seu assento, com ar protetor, 
sem nem de leve desconfiar em que delicada tecla o mancebo ia tocar.
        Conrado, no auge do embarao, no ousava fazer de chofre uma declarao, da qual dependia todo o sossego e felicidade de sua vida, e procurava em vo proferir 
algumas frases preliminares, que prevenissem e preparassem o nimo do major, o qual nenhum motivo tinha para julgar favorvel  sua pretenso. Mas a emoo e o receio 
naquela melindrosa conjuntura, por tal forma lhe perturbavam o esprito, que, nada podendo fazer, se resolveu a prescindir de prembulos e rodeios, articulando seu 
pedido nua e simplesmente.
       - O pedido que desejo fazer-lhe, senhor major,  a mo de sua filha - disse com voz trmula de emoo. - Bem sei que, por minha humilde posio, a no mereo; 
mas desde pequenos eu e ela nos queremos, e eu da minha parte farei por alcanar posio honrosa na sociedade e tornar-me digno...
       - Basta! - interrompeu o major, com um brado horrvel, pondo-se de p num salto, hirto, ofegante, e de viseira carregada, mudando subitamente de tom e de 
maneiras. - Basta!  acusado dizer-me mais nada. No quero passar pelo desgosto de dar a resposta que merece esse seu pedido. Faa-me de conta que o senhor nada 
me disse a esse respeito, e mudemos de conversa.
       - No  possvel, senhor major - replicou o mancebo, levantando-se tambm e tomando um tom e atitude resoluta. No  possvel; eu preciso absolutamente de 
uma resposta qualquer. No lhe fiz h mais tempo esse pedido por muitas razoes, e principalmente porque ainda muito moo no podia ter posio nem fortuna, que compensasse 
a humildade do meu nascimento; mas hoje, que pouco mais ou menos dou provas do que valho, julgo-me com algum direito a pedir a mo de sua filha, e desejo saber se 
ma concede ou no.
       - No! no! mil vezes no! - bradou o major, em um violento acesso de clera. - Que outra resposta poderia esperar de mim o Sr. Conrado?
        O mancebo estremeceu como se ouvisse o estalar de um raio. Ningum melhor do que ele conhecia a balda de fidalguia do patro, essa singular monomania que 
lhe obcecava o esprito e neutralizava completamente alguns bons instintos de seu corao; mas ignorava ainda a que extremos ela podia chegar. Bem sabia ele que 
o Major Damsio, por efeito de uma cegueira quase voluntria, se julgava descendente das mais ilustres e antigas famlias paulistanas; mas notando tambm o extremoso 
amor que consagrava  sua filha nica, tinha esperanas de que no quereria, contrariando suas afeies, sacrificar a um vo caprichoso a sua felicidade. 
        Deps de alguns instantes de silencio, Conrado procurando dominar seu despeito e agitao, perguntou ainda com tom civil e respeitoso:
       - O patro no me poder dizer qual o motivo por que de maneira alguma quer consentir em meu casamento com a senhora sua filha?...
       - Ainda pergunta? - disse o major fitando no mancebo um olhar arrogante e furibundo.
       - Pergunto, sim senhor, porque desejo saber - respondeu Conrado, com toda a calma.
       - Pois deveras no sabe?
       - No, senhor.
       - Pois fique sabendo de hoje em diante que um pobre peo, a quem por misericrdia estendi a mo em Curitiba, s porque hoje possui algumas patacas, no pode, 
nunca poder ser pretendente  mo da filha do Major Damsio Augusto Bueno de Aguiar e Andrada!...
       - Mas senhor major, atenda que no sou eu s que quero e desejo esse casamento; ela tambm o quer, e disso depende a sua felicidade.
       - Ela o quer!... quem lhe disse isso? Duvido que a filha do Major Damsio queira se casar com o ex-capataz de seu pai.
       - Se duvida, pode perguntar a ela mesma.
       - Bem;  o que vou fazer, e se ela disse que sim, no  mais minha filha.
        O major com movimento frentico, tocou uma campainha; apareceu uma escrava, que por sua ordem foi chamar Adelaide, a qual da a instantes compareceu. Vinha 
ela embuada em sua longa mantilha com o competente vu pela frente, traje que ela constantemente trazia no s para encobrir o seu estado de gravidez, como tambm 
para no devassar a olhos estranhos a tristeza e abatimento de sua fisionomia. J sabia da chegada de Conrado; seu corao batia com violncia; em to crticas conjunturas, 
era extrema a sua emoo; ia-se jogar uma cartada, em que se tinha de decidir de todo o seu destino e fruto de seus furtivos amores se lhe agitava extraordinariamente 
no seio, como se pressentisse tambm toda a angstia da terrvel catstrofe que se preparava. Cumprimentou a Conrado com um triste mas gracioso sorriso; quando porm 
fitou seu pai, e notou a torva e ameaadora expresso de sua fisionomia, todo o seu sangue refluiu ao corao, seus olhos se turvaram, empalideceu de um modo assustador, 
e para no cair viu-se obrigada a sentar-se na primeira cadeira que encontrou. Estes sintomas de aflio e angstia no puderam ser notados em toda a sua intensidade 
por Conrado e muito menos pelo major, no s porque era escassa a luz que reinava no gabinete como tambm porque o vu de Adelaide no deixava bem parecer as alteraes 
de sua fisionomia. Em razo tambm dessas circunstncias e da ansiosa agitao em que se achava o esprito de Conrado, este nem suspeitou o estado melindroso em 
que se achava sua adorada patroa.   
       - Adelaide - disse o major sem dar ateno ao estado de perturbao em que se achava a filha - o Sr. Conrado, que neste momento diz que pretende a sua mo, 
vem pedi-la. Consentes nisso?
       - Se no  do desagrado de meu pai - respondeu a moa com voz trmula e alquebrada -, com muito gosto...
        O major no permitiu que a filha continuasse, e interrompeu-a com o seu terrvel e fulminante - basta!
       - No  e nunca ser do meu agrado - continuou ele com voz sacudida. - Nunca esperei que minha filha desprezasse as homenagens de tantas pessoas de alta hierarquia 
para abaixar sua vista sobre um criado da casa! Oh! isto  uma vergonha! Pensa bem no que dizer e no que pretendes fazer, minha filha!... Queres encher de desgosto 
e de vergonha os ltimos dias de teu velho pai!?
        Adelaide nada ousou responder; escondeu o rosto na matilha, soluando e chorando amargamente. Conrado a custo podia conter sua indignao, mas querendo tentar 
ainda meios prudentes e conciliadores:
       - Senhor major - disse ele, em tom ainda um tanto submisso e respeitoso -  no vejo motivo algum poderoso para que V. S. se oponha por esse modo ao nosso 
casamento. Sou de humilde nascimento,  verdade; infelizmente no conheci nem pai nem me; s sei que eram pobres, mas no me consta que tivessem ndoa alguma em 
sua vida. Mas o homem faz-se a si mesmo, e eu, pelo que o senhor major tem visto, posso ainda e tenho boas esperanas de alcanar na sociedade uma posio to vantajosa 
quanto a sua, senhor major.
       - Deixemo-nos de vos palavrrios, Sr. Conrado - replicou o major, num tom spero e seco. - Acho at indigno de mim e de minha filha estar discutindo semelhante 
assunto. Minha filha nunca se h de casar com um capataz. O que eu disse, disse.
        A indignao de Conrado tocava ao seu auge, sua pacincia estava quase exausta; todavia, ainda uma vez conseguiu sopear a sua clera, e procurou tocar as 
fibras daquele corao selvagem e endurecido pela mania de fidalguismo, e acordar nele sentimentos de amor paterno, falando na mtua afeio que desde a infncia 
os ligara, e fazendo ver que com sua recusa ia condenar ao mais cruel infortnio dois coraes, que a natureza e as circunstncias tinham unido estreitamente com 
laos que jamais se poderiam quebrar. O major porm, impacientado e colrico, mal prestava ouvidos s palavras do mancebo, interrompendo-o a cada passo com expresses 
speras e grosseiras.
       -Que vergonha, meu Deus! - exclamava ele a espaos, passeando frentico e agitado de um para outro lado do gabinete. - Lamrias de namorados!... Que infmia!... 
S esta me faltava!... Guardei a vbora no seio!... Procure noiva de sua ral.
       - A este ltimo doesto, Conrado no pode mais conter-se
       -  o que estou fazendo, senhor major, pedindo a mo de sua filha - bradou ele, com resoluo e altivez. - No vejo entre ns desigualdade alguma, seno talvez 
em meu favor.
       - O que est a dizer?... Repita, se  capaz! - gritou por seu turno o major, chegando-se a Conrado com gesto ameaador.
       - Estou dizendo a verdade - replicou o mancebo, sem mexer-se nem pestanejar - e estou pronto a repeti-la uma e mil vezes, se o senhor quiser. Meus pais eram 
pobres, porm livres e honrados, e no consta que nenhum deles fosse escravo, nem cigano.
        Em m hora teve Conrado a idia de proferir to imprudentes palavras. O major, que at ali conservara sempre rubra de indignao a sua tez morena, tornou-se 
subitamente fulo de clera concentrada. Quando a cainana assanhada recebe um golpe, que a mortifica, no se arroja logo sobre o agressor, mas enrosca-se de sbito, 
ala o colo e brandindo a lngua bipartida o encara com os olhos em brasa, como querendo devora-lo. Assim o major ferido dolorosamente na mais melindrosa corda de 
seu corao, sem nada responder, deixou-se cair sobre uma cadeira, e a ficou por alguns instantes, encarando seu interlocutor com olhos sombrios e como petrificado 
pelo efeito dessa aluso feroz, com a qual estava longe de contar. Bem conhecia ele a baixa linhagem, de que procedia sua filha, mas sua estlida vaidade havia produzido 
em seu esprito um certo estado de alucinao, que o cegava completamente a esse respeito, e acreditava o pobre homem que para o povo tambm a sua verdadeira genealogia 
andava escondida nas trevas do passado. As palavras esmagadoras de Conrado, cujo alcance logo compreendeu, o fulminaram; o suor lhe corria em bagas pela testa, o 
peito lhe arquejava convulso, e os olhos pareciam querer saltar-lhe das rbitas. Durou apenas alguns instantes aquele acesso de clera abafada; reagiu logo contra 
ele o orgulho ofendido.
        
      Captulo XVII

      A exploso
       
       - Ento, de mais a mais o senhor - disse o major por fim, com voz rouca e estridente - veio  minha casa tambm com o propsito de insultar-me? Bem pouco 
me importa, Sr. Conrado, que seus pais tenham sido pobres ou ricos, honrados ou no; o que sei  que nunca hei de fazer de um simples camarada o marido de minha 
filha. Com que cara se apresentaria ela diante dos nobres personagens, que me honram com sua amizade!... Houvesse o que houvesse entre os dois -tomem bem sentido 
no que vou dizer - houvesse o que houvesse entre os dois, enquanto eu vivo for, juro por Nossa Senhora da Lapa, e dou minha palavra de paulista, Adelaide nunca ser 
mulher de Conrado! Pode, pois, meu rico senhor, montar em seu cavalo, e dizer adeus para sempre a esta casa. O que eu disse uma vez, est dito, e no gosto de repetir.
        Estas palavras - houvesse o que houvesse - sobre as quais o major carregou fortemente o acento, como querendo sublinha-la, aterraram os dois amantes, que 
trocaram entre si um olhar angustiado. Com efeito nelas o major parecia insinuar que j sabia a que extremos haviam chegado s relaes amorosas dos dois jovens, 
pelo menos assim ambos entenderam, e esvaram-se toda as suas esperanas. Conrado contava em ltimo recurso, para reduzir o velho a conceder-lhe a mo da filha, 
revelar-lhe com franqueza a falta em que haviam incorrido, e esperava que, atentas s circunstancias, o major, ainda que muito se exasperasse, acabaria por conceder-lhes 
o perdo, e consentiria em sanar essa falta pelo casamento, nico meio de salvar a honra da filha. Quando porm ouviu aquelas terrveis palavras pronunciadas de 
modo sinistro e inexorvel, seu corao esfriou, no teve nimo de tocar no melindroso assunto com medo de agravar ainda mais a sorte de ambos.
       - Meu pai! meu pai! - exclamou Adelaide, com voz pungente, estendendo mos suplicantes.
       - Senhor - disse Conrado - que crueldade  esta!... tenha piedade, seno de mim, ao menos de sua filha!
       - Nada de splicas, nem de lgrimas, que  tempo perdido - replicou rispidamente o major, estendendo a mo espalmada e voltando o rosto. - Percam as esperanas 
e no me falem mais nesses namoricos, que depressa se esquecem. E se no se podem esquecer, ainda h conventos para ocultar a vergonha de uma, e ainda h justia 
para castigar a audcia de outro. Portanto, recolha-se Sr. Adelaide; deixe-me, Sr. Conrado; no quero ouvir nem mais uma palavra a tal respeito.
       - Perdo, senhor major; h de escutar-me ainda por alguns instantes - disse firmemente Conrado, colocando=-se em frente do major, que se levantara como querendo 
retirar-se. - Visto que sabe que h lei e justia no pas, no deve ignorar tambm que sua filha j completou dezessete anos e o que o cdigo dispe a esse respeito.
       - Ah! - disse o major, recuando um passo e cruzando os braos. - No sabia que estava to adiantado a respeito de idade e do que diz a lei! E  isso que lhe 
d tamanha audcia! Est enganado!... Em primeiro lugar, no quero que minha filha tenha ainda dezessete anos; e depois, vamos que tenha; quer tir-la por justia?
       - Sem dvida, j que no h outro recurso, e estou em meu direito.
       - Pois bem! - disse o major dando dois largos passos para um lado e empunhando duas pistolas, que estavam sobre uma mesa. Sobressaltando com esse movimento, 
Conrado levou a mo ao seio e apertou o cabo de uma faca, que trazia presa  cava do colete.
       - Pois bem! - continuou o major, com voz trmula e sinistra. - V; traga os seus agentes da justia para tirar-me a filha. Em vez dela, ho de levar-me a 
mim, salvo se quiserem levar o seu cadver.
        Dizendo isto, o major apontava as duas pistolas para o peito de Adelaide.
        Estas palavras e esta mmica horrvel gelaram de pavor o corao dos dois mancebos. Nada mais havia a esperar. Adelaide, aterrada, levantou-se a custo, lanou 
um olhar consternado sobre seu amante, e quase a desmaiar precipitou-se, cambaleando, para o interior da casa. Conrado tomou o chapu e o chicote, e, inclinando-se, 
 porta do gabinete:
       - Senhor major - disse com voz solene - eu parto, com o corao despedaado; mas o senhor espere, cedo ou tarde, o castigo do seu indigno e brutal procedimento.
        E saiu arrebatadamente.
        Tudo parecia estar perdido sem remisso para Adelaide e Conrado. Tanto um como outro, posto que sabedores da balda do major, estavam longe de prever que 
ela pudesse chegar a tal auge de cegueira e de alucinao e degenerar assim na mais feroz insensatez. Casar Adelaide com um marido de ilustre famlia e de alta posio 
na sociedade fora sempre o sonho dourado da vida do Major Damsio, o remate de sua felicidade na terra; e esse sonho, que ele sempre afagara na louca fantasia, e 
para cuja  realizao eram todos os cuidados, todas as atenes de esprito, via-o agora esvaecer-se como fumo, desmanchado pela veleidade, para ele inconcebvel, 
de um mero capataz e pelo louco capricho e leviandade da filha! Isso vinha esmagar-lhe o corao com todo o peso de uma tremenda catstrofe, e ainda mais entenebrecer-lhe 
a inteligncia, j de si acanhada e de pouca elevao, e mais endurecer-lhe o corao, j por natureza pouco propenso  ternura.
        O pasquim dos estudantes apenas fizera passageira mossa em seu nimo, e no conseguira seno agitar de leve, mas no dissipar, as fumaas de fidalguia que 
lhe toldavam o crebro. Essa maldita monomania do major j por si s era bastante para constituir uma barreira de separao, talvez insupervel, entre Adelaide e 
o jovem camarada. Depois porm que este, em m hora, levado pela indignao do pundonor ofendido, teve a desastrada idia de rememorar-lhe a obscuridade de sua ntima 
procedncia, e de rasgar-lhe na face o pergaminho de sua imaginria fidalguia, toda a possibilidade de acordo e conciliao entre eles desapareceu. Ao despeito da 
fatuidade ofendida veio juntar-se o mais violento rancor.
        As palavras do mancebo foram como farpes envenenados, que se cravaram no corao do major e nele destilaram o fel peonhento do mais implacvel e profundo 
dio
        Em sua violenta exasperao parecia-lhe que semelhante afronta s podia ser lavada com o sangue do ofensor, e concebeu em seu crebro escaldado planos atrozes 
de perseguio e vingana contra o infeliz mancebo.
        Sua infeliz filha tambm, se no incorreu em seu dio, teve de sofrer as terrveis conseqncias de seu vivo e profundo ressentimento. Tendo perdido a esperana 
de leva-la a bom caminho segundo as suas vistas, tomou a peito castigar-lhe a rebeldia embargando-lhe o caminho de tranqilidade e ventura, que o destino para ela 
tinha preparado.
        
      Captulo XVIII
       
        Conrado, como se pode imaginar, saiu da casa do major com a cabea em brasa e com o corao em torturas.  vista da ferrenha e feroz obstinao do velho, 
nenhum outro recurso lhe restava para apossar-se do objeto de seu amor, no um rapto. Conrado concebeu esse plano, e combinou todas as medidas necessrias para arrancar 
furtivamente Adelaide ao poder de seu pai. Para logo, porm, opuseram-se  realizao de seu projeto dificuldades insuperveis.
        Em primeiro lugar, tinha-se tornado impossvel toda e qualquer comunicao com sua amante. O major, com um esprito de previso e desconfiana, qual no 
teria o mais ciumento dos maridos, receando alguma tentativa de Conrado, havia tomado as mais severas precaues. Adelaide era vigiada de perto, dia e noite, por 
duas escravas, a quem o senhor tinha feito restritas recomendaes debaixo das terrveis ameaas, e no podia dar nem receber a menor carta, nem o mais insignificante 
recado. Quatro capangas de aspecto feroz e repulsivo, armados at os dentes, haviam sido instalados em casa, e, noite e dia, faziam boa guarda  chcara, como a 
um castelo ameaado pelo inimigo. Alm disso, dois atrevidos e truculentos ces de fila estavam sempre alerta e prontos a dar rebate ao menor rumor que se desse 
em torno da casa. Um ou outro dos capangas rondava continuamente em toda a extenso do caminho, que medeava entre a chcara e a cidade.
        Antes que pudesse empreender qualquer tentativa, chegaram ao conhecimento de Conrado todas essas formidveis precaues. Viu que sua segurana e mesmo a 
sua vida andavam expostas a grandes perigos. Todavia, durante quinze dias, por si e por meio de agentes fiis e dedicados, baldou esforos e diligncias a ver se 
podia entrar em comunicaes com Adelaide, e informa-la do seu intento, sem o que nada poderia empreender com esperana de sucesso.
        Adelaide, vtima da tirania e loucura paterna, vivia em uma recluso mais triste e apertada do que uma freira em sua cela, ou uma odalisca no harm. Lucinda, 
sua escrava favorita, que mais receio e desconfiana podia inspirar no s pelo afeto e dedicao que votava a sua senhora como tambm por sua sagacidade e atilamento, 
tinha sido arredada para bem longe.
        A tia Eullia, mulher quase idiota, sem alma e sem corao, essa nem mesmo parecia dar f do que se passava, e mal notava o estado de tristeza e batimento 
em que vivia a sobrinha. Por essa sorte, a msera moa nem mesmo tinha com quem abrir seu corao e desabafar suas mgoas.
        Conrado desanimou: em desespero de causa, s lhe restava um ltimo, mas perigosssimo expediente; era assaltar a chcara a mo armada e tomar Adelaide a 
viva fora. No lhe faltavam coragem, disposio nem recursos para to arriscada empresa, e moo, no cmulo da raiva e da impacincia, chegou a afagar o esprito 
esse temerrio projeto. Refletindo, porm, com mais calma, lembrou-se das terrveis ameaas do major; ponderou que talvez no fosse possvel por em prtica, sem 
efuso de sangue, a tentativa que poderia custar a vida a ele, ao major e a muitos outros, e recuou horrorizado, principalmente diante da considerao de que Adelaide 
poderia ser vtima da clera insensata e brutal do pai.
        Ainda quinze dias, da mais pungente angstia e ansiedade, se passaram para o desditoso mancebo, durante os quais seu esprito atribulado no sabia, nem podia 
tomar deliberao alguma. Entretanto, chegou aviso a seus ouvidos de que o major, ciente de suas tentativas para roubar-lhe a filha, estava disposto a mandar quebrar-lhe 
os ossos, e mesmo tirar-lhe a vida a fim de faze-lo desistir, de uma vez para sempre, de suas prevenes. A crnica do major, que corria pela boca pequena, no era 
muito para tranqilizar, sobre este particular; ainda no estavam esquecidas certas faanhas de sua mocidade, e contava-se com ar de mistrio, que para obter a mo 
da defunta mulher, no tinha hesitado em mandar para o outro mundo certo rival que lhe fazia sombra. Conrado no era homem que se arreceasse de perigos e recusasse 
diante da sanha de facnoras; mas nada valem a coragem e a valentia contra as insidias de sicrios traioeiros, e demais, afrontar o perigo nas circunstncias em 
que se achava, era v temeridade, da qual nada de bom podia lhe resultar. Assentou, portanto, que o melhor alvitre, que podia tomar, era ausentar-se de S. Paulo, 
esperando que o tempo e as circunstncias, a reflexo e os impulsos do amor paterno, acalmando as frias do major, pusessem termo s contrariedades, que o assoberbavam. 
        Uma coisa porm lhe torturava o corao, e quase lhe tirava o nimo para pr em prtica essa resoluo extrema; era ter de partir sem poder ver a sua idolatrada 
amante, sem poder dizer-lhe um adeus de despedida, confirmar-lhe seu eterno amor, pedir-lhe que o no esquecesse, conforta-lo a sofrer com resignao as adversidades 
do presente, esperando que no futuro o cu lhes deparasse quadra mais favorvel. Mas refletindo que, enquanto permanecessem em S. Paulo, jamais cessariam a triste 
recluso e a incomunicabilidade em que vivia Adelaide, e que assim se prolongariam indefinidamente os sofrimentos dela, sem que ele em nada pudesse valer-lhe, e 
por esse modo tanto valia ficar ali como a cem lguas de distncia, confirmou-se no propsito inabalvel de ausentar-se.
        Antes de partir, escreveu uma longa carta dirigida a Adelaide, em que lhe dava conta do que pretendera e no pudera fazer depois da cena terrvel, em que 
pela ltima vez se viram; confirmava-lhe seu ardente e inextinguvel amor, exortava-a a no desesperar do futuro, e participando-lhe que ia ausentar-se para  bem 
longe, esperando que o cu se amerceasse deles, acalmando as iras do major e inspirando-lhe sentimentos mais humanos e razoveis.
        Como era de esperar que, com sua ausncia, se relaxasse o rigor da recluso incomunicvel em que vivia Adelaide, confiou essa carta a um amigo, para que, 
quando se oferecesse oportunidade, a fizesse chegas s mos de Adelaide sua amante.
        Conrado desapareceu de S. Paulo sem ter comunicado  pessoa alguma sua viagem, nem o destino que levava,  exceo do discreto amigo com quem deixara a carta 
para Adelaide. Mesmo fora da capital, receava ainda as ciladas do major, cuja sanha contra ele mais recrudescera, depois que soube de que suas tentativas para roubar 
Adelaide. O major, que tinha na cidade e seus arredores uma polcia ativa de apaniguados e capangas, teve logo informaes de seu desaparecimento, mas nunca pode 
saber em que direo se havia retirado. Se bem que um pouco tranqilizado, todavia, por esprito de desconfiana e precauo, no deixou de manter ainda por algum 
tempo certa vigilncia e cuidado em torno de sua habitao. Foi s no fim de quinze a vinte dias, depois de bem verificada a ausncia do mancebo, que ele resolveu 
afrouxar a rigorosa vigilncia exercida sobre a pessoa de Adelaide, e dispensar os servios dos capangas, que faziam guarnio  sua casa.
        - Minha filha - disse ele, dirigindo-se ento a Adelaide pela primeira vez, desde o dia em que Conrado, pela ltima vez, lhe aparecera - espero que j estejas 
curada da loucura que te passou pela cabea, de te casares com o ex-capataz de teu pai. Entretanto,  tempo de tomares estado; se aceitas o marido que eu te escolher, 
- e a dificuldade est na escolha -, irei imediatamente tratar disso. Se no, apronta-te e dispe-te para entrares no recolhimento de Nossa Senhora da Luz ou de 
Santa Teresa. No quero mais que me faas passar pelo desgosto de te ver dar cabeadas como essa que querias dar, casando-te com um camarada, um p-de-poeira.
        - Meu pai - disse tristemente a moa - no tenha o menor receio de que meu corao se entregue a novos afetos. Sou bem infeliz com o meu primeiro para poder 
pensar em outros. O meu desejo  mesmo recolher-me  solido de um convento, embora no possa professar, como desejo. J estou acostumada ao retiro e ao isolamento. 
S peo a meu pai que aguarde isso para daqui a mais alguns meses.
        O pai anuiu no de muito bom grado aos desejos da filha, e sem indagar os motivos que levavam a adiar o cumprimento de sua resoluo, desta vez, comovido 
pelo estado de melancolia e abatimento em que a via, no ousou contrari-la.
        Entretanto, avizinhava-se o tempo em que Adelaide devia ser me; sua situao tornava-se cada vez mais apertada e melindrosa, e j nem sabia como ocultar 
 gente de casa as aparncias de sua falta, j muito manifesta a olhos mais perspicazes e escrutadores do que os do major.
        A pobrezinha no tinha com quem se entender, nem a quem confiar seu corao e os cruis apuros em que se achava. A recluso e isolamento, a que seu pai a 
condenara durante quase dois meses, foi um mal, que ela aceitou como um favor do cu, porque assim sem dar motivo a desconfianas, podia esconder-se e subtrair-se 
s vistas curiosas; desejaria que se prolongasse por mais algum tempo; mas as circunstncias mudaram, e ela se via nos mais aflitivos embaraos. Lembrou-se, ento, 
de pedir a seu pai que fizesse voltar para a casa a preta Lucinda, nica pessoa que conhecia suas fraquezas, e que lhe podia valer em to crticas e delicadas conjunturas.
        Felizmente foi atendida. Adelaide, com as lgrimas nos olhos, contou tudo  boa e fiel escrava.
        - No tem nada, sinhazinha; sossega seu corao, que tudo se h de arrumar - disse ela, procurando tranqilizar e consolar sua senhora. - Deus  grande, 
e sua negra est a.
        Como todos os males deste mundo tm alguma compensao, e nos maiores infortnios sempre se d alguma circunstncia favorvel para os minorar, aconteceu 
que o major, desgostoso com o malogro dos casamentos aristocrticos, que pretendia angariar para sua filha, e enjoado da vida inspida que levava no retiro de sua 
chcara, tomou a resoluo, para se distrair, de sair de casa e andar de novo em giro de negcio como muladeiro. Posto que algumas leves suspeitas lhe assaltassem 
o esprito a respeito das relaes de sua filha com o capataz, elas foram pouco a pouco se desvanecendo, e  pouca perspiccia de seu pai, este nem de leve suspeitou 
o grave e melindroso estado da filha. Demais, Adelaide j lhe tinha declarado que estava no firme propsito de entrar para um recolhimento, e o pai, capacitado da 
sinceridade e da persistncia dessa resoluo, perfeitamente tranqilo a respeito do procedimento da filha durante a sua ausncia, ajustou camaradas, fez todos os 
preparativos, e partiu para o seu giro, deixando Adelaide e o governo da casa aos cuidados de sua irm Eullia.
        
        Captulo XIX
        
        Ms e meio pouco mais ou menos depois desses acontecimentos, uma jovem e linda senhora, recolhida em seu aposento, fazia esforos supremos para abafar gemidos 
e gritos de dor. Era o fruto de um amor furtivo, no consagrado pelos laos do matrimnio, que estava prestes a vir respirar o ar da vida; era um pobre anjo, que 
se via obrigado a nascer na sombra do mistrio para ocultar aos olhos do mundo a falta de seus progenitores.
        Eram onze horas para meia-noite de um dia de novembro de 1847. Alm da moa, achava-se no aposento somente uma escrava idosa, para desempenhar todos os delicados 
misteres que exige essa crtica situao. Ela, porm, solcita, diligente e corajosa, a tudo provia, tudo desempenhava com celeridade e inteligncia, j animando 
com palavras a jovem parturiente, j multiplicando-se para acudir a tudo com a maior rapidez e desembarao.
        Um luar esplndido se derramava pelos vargedos do Tiet, e l fora enchia de serenidade e de encantos essa noite, que dentro daquelas paredes, to angustiosa 
e cheia de ansiedade corria para a pobre moa.
        Entretanto, a doce claridade, que atravs dos vidros entrava pela janela, que dava para o jardim e o pomar, mesclando-se  frouxa luz de uma lmpada nica, 
que alumiava o quarto, expandia nele certa calma suave, prpria para inspirar conforto e esperana quelas duas aflitas mulheres.
        Enfim o silncio, que ali reinava apenas interrompido pelos gemidos surdos e abafados da paciente, foi quebrado pelos vagidos de uma criana. Era uma linda 
menina, que no mistrio de uma noite plcida e silenciosa vinha respirar a aura de uma vida debaixo de to tristes auspcios. Lucinda pensou a criana com toda a 
percia e delicadeza, como se fora uma parteira profissional, enfaixou-a com todo cuidado, e a deps no regao de Adelaide, que a beijou, no com esse sorriso de 
inefvel beatitude que banha os lbios da jovem me, que v entre seus braos o fruto de seu amor, mas por entre um vu de lgrimas. Ah! por certo no podia beijar 
com alegria aquela, que o destino arrancava do seio materno para passar a braos estranhos e desconhecidos.
        O calor abafava dentro do estreito quarto; Adelaide pediu a Lucinda que entreabrisse um pouco a vidraa, para renovar a atmosfera e respirar um ar mais livre. 
O ar estava tpido e parado; nem brisa nem vapor algum girava no ambiente, de modo que pudesse comprometer a sade da me ou da criana. Lucinda abriu com precauo 
a vidraa. Um hlito embalsamado, no de aromas acres e ativos, mas de suaves e pouco sensveis emanaes de flores e folhas agrestes, entrou pela janela, refrescando 
a atmosfera do aposento. Ao mesmo tempo, ouviram-se os ecos melodiosos de um descante ao longe, pelas ribas do Tiet.
        Era, provavelmente, alguma serenata de pescadores ou estudantes, que, aproveitando a serenidade da noite e a beleza do luar, sulcava as guas preguiosas 
do rio paulistano, ao som de barcarolas e instrumentos.
        - Que bonito! - exclamou a preta, deitando olhos curiosos para fora da janela. - Se sinhazinha pudesse ver como est bonita a noite!... Est tudo to sossegado!... 
O cu to limpo!... Meu Deus! que noite to clara, to serena e to cheirosa!... E esta cantiga?... No est ouvindo, sinhazinha?...  um cu aberto!... Tudo isso 
quer dizer fortuna para a menina que nasceu.
        - Quem sabe, Lucinda?... Pode ser feliz quem nasce nestas circunstncias, e nunca talvez ter de conhecer pai nem me? Pobrezinha! - suspirou a moa, apertando 
ao seio a criancinha e banhando-a de lgrimas.
        - Ah! sinhazinha, para que h de estar a chorar assim? Deus  de misericrdia; sua filhinha h de ser feliz, muito feliz;  sua preta que lhe afiana.
        - Deus te oua - murmurou a moa, alquebrada pelos sofrimentos e trabalhos do parto, da a instantes adormeceu profundamente. 
        J o dia no estava muito longe de alvorecer. Chegava a hora propcia de Lucinda pr em prtica o plano, que j tinha concebido e comunicado  sua senhora; 
era chegado o momento em que a boa e delicada escrava, com as lgrimas nos olhos, tinha de cumprir um triste e dolorosssimo dever. Lucinda, com muito instinto e 
delicadeza, que nem sempre se encontra mesmo entre pessoas de fina educao, no quis despertar Adelaide; pelo contrrio, aproveitou-se daquela hora de sono profundo 
e reparador, que de ordinrio costuma durar longo tempo, para levar a criana ao triste destino a que nascera condenada, sem que a me passasse pela dor de to acerba 
separao. No tinha tempo a perder; envolveu cuidadosamente a recm-nascida embaixo de sua mantilha de baeta, tomou em uma das mos um embrulho, que continha algum 
enxoval para a criana, e saiu misteriosamente com seu melindroso fardo. Ao chegar  estrada que conduzia  cidade, em vez de encaminhar-se para ali, tomou a direita 
para o lado do caminho que se dirige a Jundia.
        Depois de ter andado cerca de um quilmetro naquela direo, via-se naquele tempo,  beira da estrada, uma pequena casa trrea de modesta aparncia, mas 
cmoda e asseada, situada a pouco mais de meia lgua do centro da cidade. Junto dela havia um pequeno curral, e no fundo um belo jardim de flores e hortalias; em 
torno, viam-se algumas ndias vacas ruminando tranqilamente, porcos, galinhas e outras criaes domsticas. Tudo isso indicava que o dono ou dona da casa era pessoa 
industriosa e diligente, e gozava de uma tal ou qual abastana, o que no era muito comum naquela poca nos arredores da formosa Paulicia.
        A proprietria - pois era uma mulher - vulgarmente conhecida pelo apelido de Nh Tuca, diminutivo familiar de Gertrudes na provncia de So Paulo, era uma 
mulher de seus cinqenta anos, seca e alta, que fora sempre celibatria, de maneiras um pouco speras e desabridas; gozava, porm, de respeito e considerao entre 
a vizinhana, e era tida em conta de uma boa e honesta senhora, reputao que devia talvez mais aos seus haveres do que a qualidades reais. Devia a pequena fortuna, 
que possua,  herana de um irmo, que, tendo morrido intestado, sem outros herdeiros ascendentes, descendentes nem colaterais, a deixou senhora de uma boa dzia 
de escravos de um e outro sexo, moos e robustos todos.
        Os escravos homens vendeu-os todos ela logo, alegando que, na qualidade de mulher, no podia governar homens. Ficando com sete raparigas, crioulas e mulatas, 
todas no vio da idade, bem feitas e vistosas, comprou a quinta em que a encontramos, onde tambm vendia aguardente, fumo, quitanda, e dava pousada aos passageiros.
        O amor ao dinheiro, o desejo de engrossar cada vez mais o seu j sofrvel mealheiro, era o mvel principal de todas as suas aes. Por isso andava em contnuo 
e incansvel movimento, desde o primeiro albor do dia at horas avanadas da noite. As escravas tambm, posto que bem tratadas e garridamente vestidas, trabalhavam 
incessantemente sempre debaixo de suas vistas, e no lhes ficava tempo de sobra para se entregarem  gandaia. Um lucro porm mais avultado lhe provinha das setes 
escravas; h doze ou quatorze anos, que lhe pertenciam essas escravas, tinham-lhe dado j umas vinte e tantas crias lindas e vistosas, as quais, logo que chegavam 
 idade de dez anos, a boa mulher tratava de vender pelo melhor preo que podia. Seu estabelecimento bem se podia chamar um viveiro de escravos. Na poca em que 
nos achamos, j ela havia melhorado consideravelmente o estado da burra, e tinha a casa cheia de uma chusma de crianas da mesma procedncia e condenadas ao mesmo 
destino. Parece que ela conhecia um anexim egostico e desumano de nossos antepassados, que diz: - crioulos, cria-los e vende-los,  e sabia executa-lo,  risca.
        Foi para essa casa que Lucinda, ao ganhar a estrada, se dirigiu com seu dbil e precioso fardo. A preta conhecia H muito a velha Nh Tuca, e posto que no 
conhecesse ntima e particularmente seus costumes e viver domstico, sabia, pela voz pblica, que era uma senhora de bem, e mesmo de sentimentos caridosos. Demais, 
estando ali na vizinhana e em lugar retirado, sua sinhazinha podia l ir de quando em quando, em ar de passeio, e gozar o prazer de ver e afagar sua filhinha, sem 
que ningum pudesse desconfiar coisa alguma. Nenhuma casa, portanto, lhe pareceu, e com razo, mais apropriada do que a de Nh Tuca para lhe ser confiado to sagrado 
depsito.
         porta dessa casa, Lucinda parou e escutou; a primeira alva do dia comeava a despontar; tendo percebido rumor dentro, e vendo que a gente da casa comeava 
a despertar, depositou a criana e o embrulho no limiar da porta; e afastou-se; mas apenas achou-se a uns cem passos de distncia, parou e, escondendo-se entre uns 
arbustos  beira do caminho, ficou  espreita do que sucederia. Passados poucos minutos, a porta abriu-se, e ela viu ser recolhida a criana com grandes mostras 
de surpresa e causando como era natural, grande alvoroo em toda a casa, mas segundo lhe pareceu, com ares de carinho e compaixo; e voltou para casa, tranqila 
e satisfeita.
        J o sol ia bem alto, quando Adelaide despertou de seu longo e profundo sono. Posto que prevenida e cmplice na sorte que se ia dar  sua malfadada filhinha, 
seu corao constrangeu-se amarga e dolorosamente, quando, ao acordar, no a viu a seu lado e se viu me sem filha.
         tarde Lucinda saiu, e foi em ar de passeio, at a casa de Nh Tuca com o fim de saber novas da pequena exposta; para l se dirigiu para entrar na bodega 
como quem quer fazer alguma compra, mas com o fim principal de puxar conversa e ouvir novas da criana, que nessa madrugada l havia depositado. Mas antes que o 
fizesse, olhando pela porta aberta de uma saleta da frente, diante da qual tinha de passar para chegar  venda, deu com os olhos em um pequeno fretro posto sobre 
uma mesa no meio da sala, no qual se achava amortalhada uma criancinha com simplicidade e pobreza, mas com os enfeites e flores do costume. A esse espetculo Lucinda 
sofreu to violento abalo no corao, que esteve a ponto de desfalecer; todavia, esforou-se por dominar sua comoo e chegou-se  porta para examinar o cadver. 
Era evidentemente uma criana recm-nascida, de cor mimosa e branca, como a sua enjeitadinha; no podia ser seno a filha da sua sinh. Para melhor verificar o caso, 
entrou na venda, e a ouviu a triste confirmao do que j tinha como quase certo.
        - Enjeitaram aqui hoje, pela manh - dizia Nh Tuca  Lucinda e a outros curiosos que se achavam na venda -, uma pobre criancinha muito bonitinha. Coitada! 
tive uma pena dela!... No sei como h gente neste mundo que tem nimo de enjeitar seus filhos!... E eu tambm tomara poder cuidar na minha vida; no tenho tempo 
para andar criando os filhos dos outros, no. Mas assim mesmo pobre, como sou, no quis desamparar a pobre criana, e estava pronta para cri-la, porque, at esta 
mesma noite, me pariu aqui em casa uma mulata, que bem podia dar de mamar a duas crianas... Mas, mecs que querem?... O maldito ou a maldita, que trouxe a criana, 
parece que a carregou aos trambolhes, como quem carrega um porco; de maneiras que a coitadinha da criana chegou toda machucada, e com o umbigo esvaindo em sangue!... 
Est! E no houve mais remdio! Ali est motinha, coitada!...
        Nesse ponto da narrao, Lucinda arrepiou-se, e esteve a ponto de protestar contra as palavras de Nh Tuca. Tinha a conscincia de que havia carregado a 
menina com todo o cuidado e mimo possvel, e que a largara sem a mnima leso  porta da casa de Nh Tuca. Mas Lucinda era discreta, e bem via que a menor palavra 
que dissesse podia dar lugar a suposies, no s da parte da velha dona da casa, como tambm de toda aquela gente abelhuda e maliciosa que ali se achava. Entretanto, 
no podia deixar de dar crdito ao que dizia a velha, pois ali estava bem patente a prova irrefragvel, o cadver da criana. Refletindo um pouco, passou-lhe rapidamente 
pela idia que, sem dvida seriam as escravas da casa que, entrando com a criana aos bolus e passando-a de mo, estouvadamente, e em cuidado algum, a tinham feito 
morrer. E vendo-as do lado de dentro do balco, a escutarem de parte a conversao, Lucinda relanceava sobre elas olhares arrevezados e furibundos.
        - A menina - continuou Nh Tuca - ali pelas dez horas, mais ou menos, entrou em convulses, e no houve ch, fomentao, nem benzedura que eu no fizesse; 
nada pde lhe valer. Ali pela volta do meio-dia entregou a alma a Deus. No sabia se era batizada, e portanto, aqui nesse ermo, onde a gente no encontra, quando 
quer, nem padre, nem surjo, mandei chamar um vizinho para batiz-la. Graas a Deus, no morreu pag, e vai ser enterrada em sagrado na Igreja de Santa Ifignia. 
 uma despesa que Deus sabe quanto me custa - terminou soltando um estrepitoso suspiro. - Mas seja tudo pelo amor de Deus!
        Lucinda voltou para casa, a passos lentos e com o corao repassado de amargura, estudando um modo de dar a triste nova  senhora, de maneira que no a chocasse 
muito. Deu-a por meias palavras, mas Adelaide a compreendeu logo, e exclamou, cheia de angstia:
        - Meu Deus! meu Deus! levaste minha filhinha!... Bem!  um anjo, que chamaste para perto de ti, para interceder por mim, pobre pecadora. Agora, chama-me 
tambm, e leva-me para junto dela.
        -  verdade, sinhazinha; aquela msica, que estava tocando, quando ela nasceu, no era c da terra. - Eram os anjos do cu que estavam esperando sua irmzinha 
- disse Lucinda. E ambas puseram-se a chorar amargamente.
        
        
        FIM DO 1 VOLUME
        


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EM COLABORAO COM O CELLB/UFOP
Esta publicao teve o apoio do CNPq.

Edio: Leopoldo Comitti
Digitao e Informtica: Igor Guedes de Carvalho. 





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